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Os ricos do mundo têm muito mais dinheiro do que você pensa

Um novo relatório mostra detalhes chocantes de como estamos vivendo numa “nova Era Dourada”.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
27.7.18
Imagem por Lia Kantrowitz.

Para quem está prestando atenção, a situação não é das melhores já faz um tempo. É 2018, e jovens com dezenas de milhares de dólares em dívidas estão mudando para cidades com custos de vida muito além do que podem pagar porque é impossível lançar sua vida adulta em qualquer outro lugar. Enquanto isso, os ricos não precisam realmente confrontar a forma como o resto do povo vive: quando não estão passando férias longe das massas em lugares como Newport, Rhode Island – como os Vanderbilts faziam – os barões do século 21, como Elon Musk e Peter Thiel, usam sua grana para escapar para o espaço ou criar paraísos libertários flutuantes. O resto está preso aqui na Terra em economias afundando, e cada vez mais se volta para o populismo ou o socialismo.

Agora, um novo trabalho do Economic Policy Institute (EPI) deu mais evidências para o que muita gente já suspeitava: estamos vivendo numa nova Era Dourada.

“Os dados sobre a renda mundial estão voltando para o que eram no último pico que tivemos, em 1928”, me disse o coautor do trabalho, Mark Price, depois da publicação na quinta passada. Logo após a Grande Depressão começou o que alguns historiadores chamam de Grande Compressão, que incluía um grande crescimento de renda para os pobres nos EUA dos anos 1940 em diante.



Houve um rápido crescimento no número de sindicatos, por exemplo, o que significava que os trabalhadores tinham barganhado poder para garantir que o dinheiro que seu trabalho estava gerando aparecesse em seus salários, não só no bolso dos CEOs. Crescimento de salários também estava ligado ao aumento da produtividade, e enquanto as empresas automobilísticas se tornavam mais eficientes, melhores eram os salários pagos para as pessoas fazendo carros, assim como para os metalúrgicos fornecendo a matéria-prima. E a Segunda Guerra Mundial levou a impostos mais altos para os ricos. O resultado foi, bom, uma compressão de renda no topo da cadeia alimentar.

“Isso não significava que era horrível ser um CEO naquela época”, explicou Price. “Você ainda trocaria tudo no mundo para ser um CEO em vez de ter um cargo inicial. Mas significava que o crescimento de renda era compartilhado mais amplamente.”

Muito disso começou a se desfazer nos anos 70. Houve uma queda no poder de aquisição do salário-mínimo e um declínio entre os sindicatos do setor privado. Como CEO, se tornou socialmente aceitável sobrecarregar uma empresa com dívidas e aceitar um grande salário. “E desde 2000 houve uma mudança na fonte de renda no 1% no topo. De 1973 a 2000, a história do 1% era a história dos ricos trabalhadores, como o CEO. Mas depois de 2000, o que [um estudioso chamado] Piketty [e colegas] notaram foi uma mudança, onde o dinheiro do 1% começou a vir cada vez mais de ganhos de capital.”

Basicamente, o que Price está descrevendo é um fenômeno onde os ricos ganham mais dinheiro só pela qualidade de serem ricos – e não precisam mais viver perto de onde originalmente começaram a acumular renda. O relatório mostra como isso se parece e o que significa para cidades americanas, e não é bonito.

Cinco anos atrás, segundo os dados do relatório, baseado em números de impostos registrados pelo Serviço de Renda Interna dos EUA, o 1% recebia um pouco mais que 25 vezes a renda do resto das famílias americanas; em 2015, essa relação de cima para baixo tinha aumentado para mais de 26 para 1. Isso significa que até 2015, em cinco estados e 30 cidades dos EUA a desigualdade de renda era maior do que em 1928, com várias outras áreas se aproximando do mesmo nível de disparidade. Em Nova York, Flórida e Connecticut, o 1% tinha uma renda média maior que 35 vezes a do resto das pessoas.

Relações ainda mais perturbadoras existem num nível de condados e áreas metropolitanas. Veja, por exemplo, o condado de Teton, Wyoming. É uma área de resort lar de gente como a herdeira do Walmart, Christy Walton, e onde Kanye West gravou seu último disco. Em 2015, o 1% dos moradores lá ganhava, em média, mais que 140 vezes a renda média de 99% das famílias na base. Aí você tem a área metropolitana Naples-Immokalee-Marco Island, Flórida, onde ricos aposentados vivem perto de trabalhadores migrantes miseráveis, e a relação de cima para baixo é de 90 para 1. A diferença parece ter aumentado depois do fim da Grande Recessão: segundo o estudo, o 1% em nove estados ficou com mais da metade de todo o crescimento de renda desde 2009.

Enquanto isso, como o relatório aponta, a administração Trump vem tomando várias medidas que certamente vão aumentar essa diferença. Primeiro, eles disseram que vão cortar uma regra da era Obama que tornou milhões de trabalhadores automaticamente elegíveis para hora extra, até que um juiz federal bloqueou a ação. Eles também atrasaram a implementação da regra fiduciária, que exige que consultores de investimento ajam no melhor interesse de seus clientes. O gigantesco corte nos impostos aprovado ano passado deve distribuir todos os seus benefícios entre o 1%. Outro golpe veio recentemente na forma de uma decisão da Suprema Corte que vai eviscerar ainda mais os sindicatos – as instituições que foram tão cruciais para nos tirar da primeira Era Dourada.

Mas quando conversamos, Price parecia otimista de que isso não vai chegar a um ponto sem volta. Eles esperava que a publicação de seu trabalho iluminasse o caminho onde estamos, o que pode permitir que os americanos revertam a maré, entre outras coisas, votando. Mas se isso não acontecer, ele reconhece, o futuro parece sombrio – como um retorno para o tempo em que aristocratas controlavam um exército de servos que não tinham controle nenhum.

“Essa seria minha preocupação, sim, e se as tendências continuarem, vamos alcançar um nível de desigualdade que nunca vimos antes”, me disse Price. “Não retornamos totalmente à era das trevas, mas em 50 anos, se continuarmos no caminho em que estamos, vamos chegar lá.”

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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