Identidade

Jordan, a rainha original do punk

Uma nova autobiografia conta a sensacional história de Jordan, a mulher que encarnava a cena punk de Londres nos anos 70.

Por James Anderson; Traduzido por Marina Schnoor
23 Abril 2019, 9:02am

Todas as imagens cortesia Michael Costiff Archive.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

Poucas histórias de vida são tão punk como a de Jordan. Nascida em Seaford, costa sul de Inglaterra, Pamela Rooke, que adoptou o nome Jordan quando tinha 14 anos, estudou ballet na infância, antes de se tornar uma fã devota de David Bowie e começar a frequentar clubes gay de Brighton ou Londres. Em meados dos anos 70, gravitou para a capital inglesa e começou a trabalhar na lendária loja de Vivienne Westwood e Malcolm McLaren SEX, depois na Seditionaries e, mais tarde, na World's End, todas reencarnações sucessivas da loja de Westwood/McLaren localizada na Kings Road 430.

Jordan era uma verdadeira vanguardista – destemida e inteligente. Queria ser a sua própria obra de arte e nunca fazia concessões. Na verdade, os seus looks eram tão extremos durante a última metade dos anos 70 que quase todos os dias os funcionários do comboio tinham de a colocar na carruagem da primeira classe quando ela ia de Seaford para o trabalho em Londres, para protegê-la do ultraje e violência que ela parecia provocar nos outros passageiros. Na altura, ninguém ousaria andar na rua em trajes de borracha fetichistas, ou em roupas transparentes sem nada por baixo, além de um penteado alto descolorado e maquilhagem preta pesada (duas décadas antes de Madonna levar o estilo inspirado no BDSM para as massas com o livro de fotos Sex, de 1992).


Vê: "O rock de ginga na anca dos The Twist Connection"


A atitude corajosa de Jordan e a sua imagem marcante tornavam-na na figura perfeita para a moda de confronto de Viv e Malcolm e colocaram-na no epicentro do caos punk rock na nação desencadeado pelos Sex Pistols (de quem McLaren era empresário). Nas décadas seguintes, todas as raparigas punk têm uma dívida para com Jordan por lhes ter aberto o caminho, mesmo que não o saibam...

No começo dos anos 80 – depois de protagonizar o filme de Derek Jarman Jubilee, de se envolver com gente como Andy Warhol e David Bowie, aparecer nas primeiras edições da revista i-D, partilhar um apartamento perto do Palácio de Buckingham com uma amiga dominatrix profissional e com o vocalista dos Sex Pistols, Johnny Rotten, para além de ser empresária dos Adam and the Ants (que se tornariam numa das maiores sensações da pop britânica da década) – Jordan casou-se, depois sucumbiu gradualmente à heroína, até fugir de volta para Seaford. Lá, conseguiu superar o vício e embarcou numa nova carreira, a criar gatos birmaneses e a trabalhar como enfermeira veterinária, que continua a fazer até hoje.

Até recentemente, Jordan evitava os holofotes e raramente falava com a imprensa sobre o passado. Agora, Defying Gravity, a sua muito aguardada autobiografia, escrita com a autora Cathi Unsworth, viu finalmente a luz do dia e pinta um retrato vívido de uma vida pontuada pelo desafio dos limites, pela provocação do ultraje, pelo punk rock e pelos gatinhos.

jordan punk

i-D: O que te fez querer trabalhar agora em Defying Gravity?
Jordan: Muita gente pedia-me para escrever um livro, mas eu achava que seria algo muito auto-indulgente. Todavia, houve duas coisas que me fizeram pensar que agora era a hora certa – uma foi a belíssima exposição Punk 1976-78 da Biblioteca Britânica em 2016, que me fez ter noção da quantidade de gente que era fascinada pela liberdade louca daquela época e o meu papel nisso. Além disso, em 2015, vendi num leilão algumas roupas icónicas daquela época que tinha no meu armário há anos. Queria ter a certeza de que seriam preservadas, não havia nenhum motivo para ficarem penduradas num armário, cada vez mais tristes. A última vez que tinha usado o top Venus [uma peça extremamente rara de Westwood/McLaren de 1971] que foi vendido por milhares de libras no leilão, foi no Live Aid de 1985! Não fiquei triste por vender as roupas – senti que estava a fazer a coisa certa, que coleccionadores e museus poderiam tê-las, cuidar delas e outras pessoas poderiam aproveitá-las.

Desde nova que adoravas roupas. De onde te surgiu esse interesse na imagem e aparência
Não sei de onde veio, era uma coisa intuitiva, mas acho que aprender a dançar foi o que abriu o meu mundo. Adorava ballet. É uma actividade que te dá bases para a vida, abre-te para figurinos e fantasias, molda-te noutra coisa. O ballet ensina-te a superar a dor e a fadiga e a tentar fazeres o teu melhor. E, provavelmente mesmo antes disso, sempre soube o que queria usar – na primária era conhecida pelos meus vestidinhos fofos. Há uma foto minha no livro, de quando eu era criança, a usar um vestido de dama de honra – e a mostrar as cuecas, já naquela época!

As tuas incursões por clubes gay clandestinos em Brighton e Londres nos anos 1970, quando ainda eras adolescente, acentuaram o teu interesse por estilo? E achas que a comunidade gay foi fundamental para a criação do punk?
Muito. Foi nesses sítios que comecei a gostar de me vestir e produzir socialmente. Na escola as crianças riam-se de mim, ninguém entendia porque é que eu cortava o cabelo curto, ou pintava o cabelo de mais de uma cor. Os clubes gay na época eram, principalmente, clubes masculinos – não havia muitos clubes lésbicos em Brighton. Os amigos gay que fiz abriram-me a cabeça para diferentes tipos de música, diferentes tipos de interacção com as pessoas... podias vestir-te da maneira que quisesses e nunca te sentias desconfortável. De certa maneira, isso é um pouco – para mim – o que é o punk, que é ser inclusivo. Eles deixavam-me entrar nesses clubes mesmo sendo mulher.

Era importante para ti que Defying Gravity reconhecesse a forma como as mulheres foram significativas para a cena punk?
Muito importante. O punk foi uma época em que as mulheres tinham um status igual. Toda a gente partilhava as roupas, as maquilhagens. A divisão entre homem e mulher era esbatida. As mulheres podiam fazer parte de bandas, podiam aprender a tocar guitarra, como os miúdos faziam. Artisticamente, as mulheres desabrocharam na época e realmente abriram as suas asas.

Usavas looks de fazer cair o queixo, antes e durante a era punk, que deviam chamar muito a atenção nas ruas...

Aqui em Seaford era muito difícil, tive várias vezes problemas com pessoas que achavam que estava a ser obscena, que não entediam porque é que eu era daquela forma. No comboio de Seaford para Londres, houve algumas vezes em que as pessoas se tornaram violentas. Achava que quando me mudasse para Londres seria mais fácil, mas não foi. Ainda tinhas os pedreiros nos andaimes a assobiar e a pensarem que eras fácil por te vestires daquela maneira. E recebia também a reacção oposta – pessoas que ficavam assustadas com o meu visual, porque estava a desafiar a normalidade, a desafiar a visão das pessoas da sexualidade e a fazer tudo isso deliberadamente, não como um objecto sexual, mas como uma pessoa que sabia onde estava sexualmente.

Era um look sexual empoderador. Sentia-me confortável e segura de mim mesma. Penso naquela época e fico surpreendida de nunca ter sido presa, porque muitas vezes andava por aí com pouquíssima roupa! Adorava o meu visual, era algo que me dava alegria e não ligava minimamente ao que os outros pensavam. Queriam expulsar-me da escola quando tinha 14 anos por causa do meu visual – o director tinha medo que os outros alunos me copiassem. Tive de explicar cuidadosamente que as pessoas não me iam copiar, porque na verdade estavam a rir-se de mim!

jordan punk

Muita gente disse-me que tinha medo de entrar na SEX ou na Seditionaries... principalmente porque tinham medo de ti! Como era para quem lá ia pela primeira vez?
Da montra, que tinha um vidro fosco, o que vias parecia um consultório de dentista. O formato da loja era um longo corredor escuro e, no final, eu, lá parada com um olhar intimidante, com o meu cabelo armado e maquilhagem preta, à frente de uma grande cortina de borracha e atrás desta um provador minúsculo. Parecia uma coisa meio sadomasoquista e claro que não era um sítio onde diríamos “Olá, posso ajudar?”. Odiava esse tipo de coisa!

Além disso, nós importávamo-nos mesmo com o trabalho por detrás das coisas que vendíamos. As pessoas reclamavam dos preços das roupas, mas Malcolm e Vivienne nunca atalhavam caminho. Se queriam um certo tecido ou botão, iam até ao fim do Mundo para conseguirem esse tecido ou esse botão. Por vezes interrogávamos os clientes, porque para nós eles estavam a comprar uma obra de arte, algo que deveriam apreciar. Não gostávamos de pessoas que chegavam ali com um monte de dinheiro, mas olhavam para as roupas como se fossem cavalos. Preferíamos falar com as pessoas e perguntar tipo “Porque é que estás a comprar isso? O que significa para ti? Onde vais usar isto? Podes usar de várias maneiras, deixa-me mostrar-te”.

Portanto, não era uma questão de enfiar a roupa na mão de alguém e receber o dinheiro. Eu preferia dar alguma coisa, ou fazer um desconto, a alguém que tivesse vindo de longe, mas não tivesse dinheiro suficiente para comprar alguma coisa. Dava a roupa pelo que a pessoa podia pagar. Porque aquela peça significava alguma coisa para a pessoa e ela cuidaria melhor dela, mais do que alguém a comprar só porque era moda.

Foi meio chocante ler que a Vivienne te demitiu no começo dos anos 80 porque te casaste! Vocês ainda são amigas?
Sim, fizemos uma longa entrevista com ela para o livro. Passámos quatro horas juntas e foi muito divertido. Agora acho engraçado, até porque ela já tinha casado duas vezes! Mas, entendo o seu ponto de vista na época. Ela não queria que eu casasse, tinha medo que eu fosse sair dali, mudar-me, fazer outras coisas, que foi exactamente o que aconteceu depois de me casar! Anos depois, ligou-me a pedir para voltar a trabalhar na loja, porque, segundo ela, toda a gente a queria enganar e precisava de alguém em quem pudesse confiar.

O punk é um assunto que já foi explorado em incontáveis livros, filmes, documentários, revistas e até doutoramentos e dissertações... há muitas interpretações sobre o movimento. Tu és uma das verdadeiras originais do punk, portanto como é que defines o punk?
Acho que nasci numa época particularmente má da história, em que os jovens usaram os seus corpos e acções para mudar as coisas. Usaram as suas mãos para criar música, ou fanzines e faziam essas coisas porque estavam infelizes com a vida. Foi um período de acção em que as pessoas criaram o seu futuro com as próprias mãos.

Como é que os jovens de hoje podem canalizar o tipo de energia que caracterizou o punk nos anos 70?
Já conversei com muitos jovens sobre isso. As pessoas abordam-me na rua, por exemplo, ou estão a fazer projectos para a universidade e entram em contacto. Mas, a origem política e social da época era muito diferente da de hoje... infelizmente, conformares-te parece ser algo muito importante agora. Não há muita diferença entre o que pai, mães e filhos usam – eu preferia morrer a usar as mesmas roupas que os meus pais usavam!

Há muito marketing e marcas. Ao mesmo tempo, é uma vergonha que não haja habitação decente para que os jovens possam sair de casa e serem independentes. Não é bom que alguém com, digamos, 35 anos ainda more com os pais. As pessoas viviam em ocupações e coisas assim naquela época – o que dava muita independência para fazer o que quisessem. Activismo é o caminho hoje em dia. Concordo com a Vivienne que as pessoas têm de cuidar do futuro deste Planeta. E acho que é primordial que cada um tenha a sua própria identidade – as pessoas nem sempre percebem o quanto isso é empoderador. Não sigas a moda. Não tenhas medo. Torna os teus sonhos realidade.

"Defying Gravity – Jordan's Story", de Jordan Mooney e Cathi Unsworth, sai pela Omnibus Press.


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