Quantcast
Abusei da paciência de um ex-crítico de rock

Que agora é editor de uma zine nova-iorquina.



Nova Iorque é uma daquelas cidades onde dois dias sem fazer dinheiro parecem uma eternidade de tempo perdido. O elevado custo de vida na cidade impede que alguém passe os dias a molengar, a menos que tenha pais ricos ou outro tipo de apoio financeiro. Não manter uma ocupação rentável, em Nova Iorque, tem sempre o seu quê de punk, no sentido mais antagónico da palavra. Num lugar tão dominado pela urgência de fazer dinheiro (escute-se os discos do Jay-Z), todos os incapazes de produzir capital fazem parte de uma contra-cultura que é punk por natureza e não por opção.

E é aqui que surge Jay Ruttenberg: cidadão nova-iorquino, ex-jornalista e um grande bacano em geral. Enquanto fazia as contas de mais um ano fiscal, Jay Ruttenberg era questionado pelo pai sobre qual o saldo da sua zine The Lowbrow Reader. O rapaz confessava, então, que não tinha obtido lucros ou prejuízos, ao que o pai respondia: “É uma cena do ego…”, referindo-se à motivação por detrás da zine. Sim, The Lowbrow Reader, a zine editada por Jay Ruttenberg, é de facto “uma cena do ego” e existe, essencialmente, para celebrar tópicos tão desajustados como o Chevy Chase, o Ol’ Dirty Bastard, os Três Trapalhões, os White Stripes e revistas humorísticas que ninguém lê. Mas Nova Iorque não tem tempo para assuntos tão desactualizados e é também por aí que The Lowbrow Reader é uma entidade genuinamente punk, numa cidade em que esse valor está ultimamente muito diluído.

Depois da edição em oito pequenos fascículos (o primeiro data do verão de 2001), The Lowbrow Reader chega ao inevitável livro-compilação (lançado pela Drag City / Flur), junta-lhe um monte de material novo e mantém o peso ideal para ser lido no cagatório. Os ensaios e ilustrações incluídos são estupidamente engraçados e reúnem o contributo de figuras tão excepcionais como Neil Michael Hagerty (Royal Trux), David Berman (Silver Jews) e Lee Hazlewood (muito provavelmente o homem mais cool de sempre). Interrompi as férias de Jay Ruttenberg, em Itália, para lhe fazer perguntas sobre quase tudo e mais alguma coisa.

VICE: A Drag City sempre me fascinou pela sua quantidade de músicos também capazes de ser excelentes escritores. Tipos como o Bill Callahan, o Ian Svenonius, o Neil Michael Hagerty. Encontras alguma explicação para isso ou é só obra do acaso?
Jay Ruttenberg:
Concordo com o que dizes, e juntaria o David Berman à lista. Diria que existem algumas explicações para isso, começando pelo facto da Drag City ter superado há muito a sua dimensão de label tradicional lançando também livros, filmes, diários literários e outras coisas. É uma organização fascinante. Além disso, a maioria destes artistas iniciou a sua carreira nos primeiros anos da década de 90. Nos meandros mais artísticos do rock underground, a noção do que um músico podia ser estava a mudar ligeiramente. Tivessem surgido noutra altura, gajos como o Berman ou o Callahan podiam ter sido escritores de prosa ou artistas plásticos. Mas a abertura da lo-fi desse tempo, de mãos dadas com toda a criatividade vivida no indie rock, levou-os à música. Isto soa pretensioso? As minhas desculpas, pois fui crítico de rock no passado e ainda estou a recuperar.

É engraçado confessares-te, desde já, como um crítico de rock reformado. Quer isso dizer que avançaste para outras aventuras? Também escrevo sobre rock e acho que o formato de crítica está um pouco morto, numa altura em que uma boa parte das pessoas presta apenas atenção à pontuação que o disco em questão recebeu. Concordas com isso? O que te aborrecia mais na tua rotina de crítico?
Ainda existem muitos escritores talentosos a tentar viver da crítica. A batalha contra a falta de atenção foi sempre um factor. Não acho que a crítica de rock esteja morta, mesmo que já não tenha vontade de fazê-la. Comecei a escrever sobre música em 1993, quando tinha 17 anos (primeiro trabalho: um concerto de Breeders e Yo La Tengo, em Boston) e continuei regularmente até 2011 (último trabalho: entrevistar o Loudon Wainwright, na sua casa, em Shelter Island). A parte mais aborrecida do ofício talvez fosse a repetição dos ciclos da música pop: observar a ascensão de banda após banda e acompanhá-las enquanto se tornam fixes, depois populares, depois nada fixes, mais populares, menos populares, separam-se, reúnem-se, etc… A verdade é que a maioria das bandas devia gravar apenas um ou dois discos.

É curioso saber que o teu primeiro trabalho tenha sido uma reportagem de um concerto de Breeders e Yo La Tengo. Hoje isso parece um sonho. Tendo em conta que terás visto Yo La Tengo um monte de vezes, eras capaz de partilhar alguns dos momentos mais especiais que guardaste? Pergunto isto porque há uns anos vi-os a tocar “The Story of Yo La Tango” e aquilo parecia um momento de pura história rock. Foi como ver um bebé a nascer ou coisa parecida…
Devo notar que essa reportagem de Breeders e Yo La Tengo foi escrita para o jornal da minha universidade, e nenhuma das bandas era especialmente popular nessa altura. As Breeders estavam a alguns meses de ser reveladas ao público; os Yo La Tengo ainda não tinham lançado o Painful. Foi uma altura excitante no mundo da música — ainda que o facto de ter 17 anos tenha provavelmente tido muito a ver com os meus sentimentos sobre o assunto. De qualquer maneira, assisti a muitos concertos de Yo La Tengo desde então. Recomendo bastante os concertos anuais de Hanukkah, no Maxwell's. Mas dou especial importância à performance no Beacon Theatre, em 2007, quando a banda deu um concerto como parte de um tributo ao Bob Dylan em torno do filme I'm Not There. Os Yo La Tengo tocaram duas das músicas da banda sonora, "I Wanna Be Your Lover" e "Fourth Time Around".

Isso é incrível!
O mais fixe é que, aparentemente, o Dylan escreveu ambas as músicas como paródias dos Beatles. Muitos músicos teriam torcido o nariz a isto, ostentando os seus conhecimentos obscuros como eu estou a fazer agora. Mas os Yo La Tengo não fizeram caso, dando uma performance como uma piada interna que só uma mão cheia de pessoas no público deve ter notado. Pareceu só um lindo tributo ao Dylan, que, afinal, dedicou décadas a aperfeiçoar esses truques.

Ainda tomando partido das tuas qualificações como crítico de rock e considerando que provavelmente não conheces muito acerca destes artistas portugueses, gostaria que me desses a tua franca opinião acerca destas músicas de Aquaparque (“Para além do bronze”), B Fachada (“Os 2 no polibã”) e Pega-Monstro (“Akon”).
A minha licença para criticar expirou, o que de momento me deixa desqualificado para declarações oficiais. Contudo, deixa-me dizer que existem elementos de que gosto nas três músicas. Pega Monstro parece-me particularmente bom, apesar de talvez ser o que soa mais americano. Se alguma vez tocarem em Nova Iorque, vou certamente vê-las. Sempre gostei de ouvir músicas rock cantadas em outras línguas que não o inglês, e nunca irei perceber porque músicos de países onde se falam outras línguas insistem em escrever músicas em inglês. O português, em especial, encaixa tão bem com o género (pelo menos para aqueles que não têm ideia de como o falar). Repara como os nerds de música americanos adoram Os Mutantes. E deixando a língua de parte, o músico que provavelmente tenho ouvido mais avidamente nos últimos tempos é o Carlos Paredes. Imagino que dizer isto a um português seja o mesmo que informar um britânico de que descobri os Beatles recentemente. Mas desconhecia o Carlos Paredes até a Drag City reeditar dois dos seus álbuns no ano passado; não consigo parar de os ouvir.

Os EUA têm obviamente uma tremenda cultura de "zines/diários completos" editados em livros de capa dura. Isso traz duas questões: agora que o The Lowbrow Reader foi compilado num único livro, recebeste algum tipo de feedback de puritanos defensores das zines distribuídas em várias edições? Achas que um livro de "zines completas" é a melhor maneira de uma publicação chegar a um maior número de leitores?
Como irás reparar, o livro do Lowbrow não inclui todas as edições, mas sim artigos e ilustrações seleccionadas de oito edições e algum material novo. Quando começámos a trabalhar no The Lowbrow Reader, em 2000, não tínhamos planos além de uma simples zine. Nem sequer tínhamos um site. Mas, em retrospectiva, acho que funciona melhor em livro — aumenta a variedade e profundidade. Infelizmente, a melhor maneira de conseguir um maior número de leitores provavelmente não será publicando uma zine ou um livro, mas sim criando uma conta no Twitter.

Poderias recomendar outras "zines compiladas", e explicar porquê?
Commodity Your Dissent, a primeira colecção de livros da The Baffler, é uma favorita. The Baffler é mais um diário que uma zine tradicional, mas estava entre as melhores pequenas publicações dos anos 90. Muito do que eles profetizaram a nível político concretizou-se. E tal como a Drag City, centra-se em Chicago — quase consegues sentir o cheiro da cidade ao virar as páginas. Outras excelentes zines e livros vieram da Duplex Planet, Beerframe, e Dishwasher. E mal posso esperar pela colecção da Minus Times. Depois há publicações, passadas e presentes, que espero ver passar à forma de livro: Grand Royal, Fashion Projects, Puncture, Army Man



Tenho andado obcecado com uma compilação do Lee Hazlewood chamada Strung Out on Something New, e o que realmente me fascina é o modo como ele só precisou de uns acordes suplentes para as introduções, desde que as letras e o tom funcionassem - e funcionam sempre. O quão feliz ficaste com a contribuição do Lee Hazlewood para o livro? Consegues dizer se o trabalho dele inspirou algo mais no TLR, ou talvez tu pessoalmente?
Sou um enorme fã do Lee Hazlewood. Na verdade, acho que muitas pessoas são enormes fãs do Lee Hazlewood e nem o sabem! Fiquei chocado de felicidade quando ele concordou em escrever algo para nós. Correspondemo-nos através de correio, e as cartas dele chegavam com o clássico timbre da Lee Hazlewood Industries. Ele é definitivamente uma influência, na maneira como o trabalho dele é jovial e despretensioso — quase casual — e, ainda assim, tão incrivelmente bem pensado. Como tanta da boa cultura pop, é mais inteligente do que parece. Recomendaria o livro The Pope's Daughter publicado pelo próprio Hazlewood. Adorava que algum editor mexesse o rabo e o publicasse decentemente.

A arte de capa do The Lowbrow Reader apresenta sempre aqueles desenhos icónicos de alguém sentado na sanita. Tal como na Mad, encontrei no TLR uma excelente leitura de casa de banho. Achas que foi a sanita que pediu o TLR ou foi o TLR que pediu a sanita?
Tudo o que posso dizer é: ser lido na casa de banho é a maior honra que alguém pode desejar. Quem dera ao palhaço do Shakespeare ter tanta sorte. Alguma vez alguém leu Balzac enquanto cagava? Não consigo imaginar isso. Falhados! Quero publicar uma edição do Lowbrow Reader inteiramente em papel higiénico. Talvez uma história que se desenrole gradualmente, sendo o final revelado no tubo de cartão.

O TLR apoia abertamente muitos aspectos do humor físico. Tenho muita curiosidade acerca disso. Aqui em Portugal, a TV não se importa muito com comédia clássica, o que é uma pena. Que tipo de culto mantém o humor físico em Nova Iorque, por exemplo?
O humor físico não parece estar na moda, de facto, mas acho que muita da comédia clássica vai ser sempre transmitida. O meu programa favorito na história da humanidade é o Calma, Larry, porque muito do humor é visionário e, ainda assim, à moda antiga. Existem definitivamente elementos de humor físico na série — por exemplo, o Larry David a fazer wrestling com uma mulher mais pesada. O humor físico é universal. Neste preciso momento, alguém em Moçambique está a rir-se de um homem que levou um pontapé nos tomates. E com boa razão.

Já que mencionaste wrestling, não posso deixar de te perguntar se tens algum tipo de nostalgia em relação a algum wrestler da idade de ouro da WWF. Há uma semana atrás vi com uns amigos o Royal Rumble de 1995, que acho incrível. Conseguiria facilmente ver um artigo acerca de uma lenda da WWF publicado no The Lowbrow Reader, se ainda não aconteceu. Que comentários farias sobre isto?
O meu wrestler favorito é o Genius, uma personagem menor da WWF do final dos anos 80, representada pelo Lanny Poffo — o irmão na vida real do Randy "Macho Man" Savage. Ele entrava no ringue de trajes académicos e precedia as lutas com uma leitura de poemas num tom arrogante enquanto gesticulava. Era tipo o conceito que uma pessoa estúpida teria de como uma pessoa inteligente devia comportar-se. Mas era tudo completamente exagerado. O Poffo claramente sabia da hilaridade inerente ao Genius.

Parece-me não ser nada fácil conseguir a atenção de alguém nas ruas de Nova Iorque. É preciso uma força da natureza como o Ol' Dirty Bastard a rappar para fazer as pessoas parar e olhar. Na tua experiência como nova-iorquino, que momentos testemunhaste em que as pessoas pararam para ver o que se passava?
A melhor maneira de agarrar a atenção de alguém aqui é sendo inconveniente. Lembro-me particularmente bem de uma situação no metro, há alguns anos: um sem-abrigo, que não estava a ter sucesso a pedir dinheiro, puxou o cordão de emergência e fugiu, deixando o metro parado na estação. Houve uma reacção colectiva no instante em que ele levou a mão ao cordão. "Idiota!", disse a mulher à minha frente. E assim ficámos detidos na estação durante 20 minutos. O mais extraordinário é o facto de, tantos anos depois, ainda estar zangado por me ter atrasado — para um jogo de ténis, se queres saber. E, por outro lado, não me incomoda minimamente que existam pessoas com distúrbios mentais que são forçadas a passar a noite na rua porque não têm onde morar.

Tradução e revisão por Margarida Batista