​A mulher que faz próteses de dedos para ex-integrantes da Yakuza
Yukako Fukushima tem ajudado na reabilitação de ex-yakuza há mais de uma década. Crédito: Emiko Jozuka

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​A mulher que faz próteses de dedos para ex-integrantes da Yakuza

No Japão, a falta do mindinho é atribuída a membros da crime organizado. A sorte dos ex-mafiosos é que uma cientista dos dedos artificiais pode apagar esse passado.
12.2.16

Quando o ex-yakuza "Mike" viu no jornal o anúncio de uma clínica que implantava próteses de dedos, pensou ser golpe. Ainda assim, agendou consulta. Era meados dos anos 90 e, há quase uma década, o toco de um mindinho na mão esquerda marcava sua afiliação ao crime. Vivia, desde então, uma busca desesperada para esconder o passado.

Um mindinho falso, pensava, parecia absurdo. Mas por que não tentar? Talvez fosse a única solução capaz de protegê-lo do preconceito imposto pela sociedade japonesa perante um ex-mafioso em busca de redenção.

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"Não sabia se daria certo", disse Mike. "Mas eu queria mesmo encontrar gente sem me preocupar com o que pensariam."

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"Yubitsume"— ou encurtamento de dedos — é uma espécie de autoamputação ritualística realizada por membros da máfia japonesa yakuza para se redimirem de seus erros.

A prática data do século 18, quando apostadores conhecidos como bakuto aceitavam o dedo decepado de alguém como pagamento de dívida de jogo. A escolha do mindinho da mão esquerda acontecia porque sua remoção atrapalhava a pessoa de segurar uma espada (katana) e assim, claro, enfraquecia o oponente.

No século 20, as organizações da yakuza passaram a adotar a prática. Quando membros de castas mais baixas rompem com o código de honra restrito da máfia japonesa e são considerados passíveis de punição por integrantes do alto escalão, os mais fracos cortam o próprio dedo esquerdo com uma faca pouco acima da articulação superior.

O mindinho costuma ser entregue ao oyabun (chefe) da organização, enrolado em um tecido. Se as infrações continuarem, o yakuza em questão continuará cortando as articulações do mesmo dedo e, aos poucos, caso os erros persistam, rumará para o mindinho da mão direita. Falhas contínuas levam à morte.

Em 1993, uma pesquisa feita pelo governo japonês revelou que 45% dos yakuza tinham dedos amputados e pelo menos 15% havia passado pelo rito duas vezes.

De uns tempos para cá, repressões cada vez mais fortes à yakuza por parte de organizações criminosas que lidam com agiotagem, tráfico de drogas e prostituição levaram a uma queda na prática do yubitsume. Mas quem perdeu o mindinho fica associado permanentemente com a vida de gangues, claro. E em um país com estigmas sérios em torno da organização, uma solução sutil como prótese destacável pode muito bem ajudar um ex-yakuza a se reintegrar à sociedade.

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Mas isso nem sempre significa que os ex-yakuza deixarão a vida criminosa de vez.

Em dezembro Mike visitou a clínica de Fukushima para um exame em seu dedo. Crédito: Emiko Jozuka

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"Mike", que pediu para não ter sua identidade revelada, não sabia o que esperar quando chegou à clínica. Ele pensou que seria tratado com a formalidade brutal que encarava sempre que ia à prefeitura de Osaka para regularizar documentos. Em vez disso, ouviu vozes altas a reverberar pelo prédio e foi surpreendido quando uma jovem com um baita cabelão foi recepcioná-lo.

A mulher era Yukako Fukushima, 30, fabricante de próteses. Ela, além de fazer próteses comuns, tem confeccionado centenas de mindinhos falsos há mais de uma década para ex-yakuza que querem deixar a vida criminal no passado e encontrar empregos normais. Segundo ela, um dos dedos de Fukushima custa 180.000 ienes, por volta de 1490 dólares. Yakuza com problemas financeiros ganham desconto, porém.

Fukushima é uma mulher pequena com enorme sorriso e gargalhada espalhafatosa. Ela nasceu em Osaka, município no sul do Japão. A região é lar da Yamaguchi gumi – o maior ramo da yakuza no país. Há 20 anos, no auge do boom econômico japonês, os sindicatos da yakuza pelo Japão eram bem mais atuantes. Brigas eram comuns próximas à clínica em Tezukayama (agora uma área residencial de classe alta), onde começou sua carreira fazendo próteses.

"Certa vez jogaram explosivos na casa de alguém da minha vizinhança", disse.

Com um interesse em arte e escultura na adolescência, Fukushima se descreve como protesista autodidata. Ela descobriu a profissão sem querer em um dia de verão ao ver um homem se cobrindo com um grande cachecol na clínica em que treinava.

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"Eu era jovem e perguntei por que ele estava se cobrindo naquele calor", conta. O homem revelou queimaduras seríssimas por todo seu corpo e rosto. Não tinha orelhas, ela me contou. Fukushima decidiu então ajudar. Fez para ele um par de próteses para usar no lugar das orelhas junto de uma máscara que cobria a parte inferior do seu rosto.

Logo se espalharam rumores dos talentos de Fukushima. Ela se baseava em livros e estudou cosmética a fim de tornar suas próteses as mais realistas possíveis.

"Aprendi a fazer próteses por conta própria aos 21 anos. Não tínhamos internet na época ainda e era difícil obter informações sobre o tema. Acho que meus clientes foram meus professores", disse Fukushima, que não se importava em fornecer dedos para ex-yakuza no começo dos anos 90, mesmo com todo o preconceito em torno deles.

"Eu não sou lá muito inteligente, apenas sigo meus impulsos quando sinto que precisam de ajuda", disse.

Às vezes o yakuza pedem ajuda para amputar seus dedos. Crédito: Emiko Jozuka

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Uma década após seu primeiro encontro com Fukushima, Mike, um homem reticente e de presença intimidadora, sentou-se com uma xícara de café pelando diante de mim na atual clínica da protesista, Kobo Arte Kawamura Gishi. A clínica, lotada de próteses corporais, fica em uma ruela perto de uma grande feira livre indoor em Osaka.

"Não sei por que ela soava tão raivosa na época", disse Mike, virando para Fukushima, à sua esquerda. "Confesso que fiquei preocupado em estar me metendo em um golpe."

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Naquele tempo, os outros clientes yakuza de Fukushima pensaram que ela estava tocando algo ilícito, e tinham medo de serem passados para trás.

"Na época, não havia muitas mulheres no ramo e acho que ninguém esperava ser atendido por uma", disse Fukushima, com uma risada gostosa. "Eu não estava com raiva nem nada. Eu só falo alto e o que penso mesmo".

Desde que adquiriu sua primeira prótese de Fukushima aos 32 anos, Mike acompanhou a profissional durante as três vezes em que mudou de clínica. Todo mês de dezembro ele volta para uma avaliação geral da prótese, que tem até dobrinhas e uma unha. O momento dá a ambos uma chance de fofocarem sobre suas vidas.

Mike mal havia completado 20 anos ao entrar na yakuza. Impressionado com sua nova reputação, ele mal sabia da realidade da vida no crime. Mas em três anos soube que queria cair fora. E foi aí que deixou a pontinha de seu mindinho. Um amigo ajudou a cortar para compensar uma promessa quebrada. Era a chance de ter uma vida longe da gangue.

Em geral os yakuza amputam os próprios dedos, mas também podem pedir por ajuda. Mike se nega a falar das circunstâncias que levaram ao alto, mas disse que ninguém o ordenou a cortar o dedo; ele só sentiu uma pressão no ar para fazê-lo.

"Não doeu", disse. "Provavelmente foi toda aquela adrenalina."

Yukako Fukushima examina a prótese de Mike. Crédito: Emiko Jozuka

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Mike esperava reconstruir sua vida.

"Queria trabalhar e ter uma vida normal", contou. "Sabia que me olhariam estranho e seria incapaz de fazê-lo sem meu mindinho."

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Não havia, porém, nenhuma forma suave de deixar a vida criminosa pra trás, ainda mais se você não tem o mindinho esquerdo. Incapaz de encontrar um emprego, Mike se juntou a uma organização de direita japonesa e passou os anos seguintes de sua vida gritando slogans e tentando atrair mais interessados em ideologias extremistas.

Sob a luz suave no consultório, só um observador atento perceberia que Mike usaprótese. Cada peça de Fukushima é criada sob medida para o cliente, de acordo com suas necessidades e tom de pele. A maioria dos ex-yakuza precisa de seus dedos para entrevistas de emprego, situação em que é costume deixar as mãos à mostra.

Diferentes ocasiões sociais, tais como bebedeiras (nomikai) exigem que as próteses tenham tons de pele mais escuros ou claros, dependendo se suas mãos ficaram abaixadas (fazendo com o que sangue flua para baixo, deixando o dedo mais vermelho) ou levantadas (fazendo com o sangue desça das mãos, reduzindo a vermelhidão).

Cada um dos clientes de Fukushima passa por uma consulta e, depois, escolhem-se os tons de pele antes do molde ser completado e as cores aplicadas. Fukushima não revela o material usado, mas disse usar vermelho, azul e amarelo para criar mais de 1.000 tons de pele diferentes.

Ela mistura os tons de forma que se um cliente friccione o dedo, a cor abaixo permanece a mesma. Os dedos ficam prontos dentro de dois meses. Espera-se que todos respeitem a lista de espera, já que Fukushima não aceita qualquer suborno.

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Mike tem dois conjuntos de dedos falsos: um mais claro para o inverno e outro mais escuro para o verão.

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Quando Fukushima começou a fazer próteses, não esperava ver um fluxo enorme de yakuza em busca de seus serviços. Apesar do preconceito social severo contra os yakuza, ela não tinha problema nenhum em atende-los. As primeiras experiências, porém, foram desafiadoras.

"Existe essa noção de que os yakuza são ricos. Até eu achava que eles andavam endinheirados", disse Fukushima. "Mas encontrei clientes que não pagaram ou deram um jeitinho depois do tratamento. Fiquei tão chateada que perguntei porque não me pagaram, já que não os tratava diferente de nenhum outro paciente."

Aconteceu que muitos dos ex-yakuza atendidos ficaram quebrados de dinheiro ao deixar a organização. E sem os dedos, não tinham como conseguir um emprego.

"Na época, não se sabia que os antigos yakuza ficavam sem casa e ainda eram caçados por outros membros da gangue. Isso dificultava que reconstruíssem suas vidas", disse Fukushima, explicando que os empregadores dificilmente assumiriam o risco de contratar um ex-yakuza por temer a violência e espantar seus clientes.

"Os ex-yakuza que vem à minha clínica usam próteses para os outros; já as pessoas que perderam seus dedos em acidentes usam para si mesmas."

No começo dos anos 90, quando Fukushima começou a confeccionar dedos falsos para antigos yakuza, o apoio da sociedade para que a reabilitação de ex-mafiosos não existia.

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A sociedade não mostrava qualquer compaixão. Fukushima chegou a ser investigada pela polícia por suspeita de afiliação à organizações criminosas. As coisas melhoraram para ela quando a Lei Contra Bouryokudan entrou em efeito em março de 1992, e a polícia de Osaka criou um conselho de apoio aos ex-yakuza (ridatsu shien) em dezembro do mesmo ano.

Há uma diferença, afirma Fukushima, entre a reação pública diante das pessoas que causaram danos a si mesmas e aqueles que sofreram algo por algum acidente.

"Se você perdeu um dedo em um acidente, a sociedade te acolhe", diz. "Mas se você arrancou seu próprio dedo, por vontade própria, ninguém dá a mínima. No final, os ex-yakuza que vem à minha clínica usam próteses para os outros; já as pessoas que perderam seus dedos em acidentes usam para si mesmas", explicou.

As próteses permitem que os ex-yakuza fiquem a vontade em público. Crédito: Emiko Jozuka

Fukushima admite que fornecer próteses não garante uma vida longe do crime para ex-yakuza. Ela explica, porém, que cria condições para que um antigo criminoso possa se adaptar à sociedade e ao menos tentar reconstruir sua vida. Em muitos casos, conta, ela diminuiu o preço das próteses e permitiu que os yakuza pagassem em parcelas mensais depois que conseguissem empregos.

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Em 2014, Fukushima recebeu um Prêmio de Honra ao Mérito Feminino da secretaria de igualdade de gênero japonesa por causa de seus esforços para auxiliar ex-yakuza a se reabilitarem e se reintegrarem à sociedade. Desde então, ela notou uma mudança tanto na opinião pública quanto na familiar sobre seu trabalho.

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"Meus pais, amigos e mesmo o cara com quem namorava costumavam chorar por mim. Deveríamos nos casar, mas ele não soube como lidar com meu trabalho e nos separamos", disse Fukushima, agora casada e mãe. "Agora entendem melhor o que faço."

Nem sempre foi fácil. Ao longo de sua carreira, Fukushima teve que aguentar membros de gangues enraivecidos a ameaçando e quebrando tudo em seu trabalho. Alguns tentaram lhe pagar um extra para receber suas próteses. Ela nunca aceitou.

Ao longo dos anos, Fukushima celebrou os sucessos daqueles que conseguiram se afastar da yakuza, mas também foi devastada quando as coisas não deram certo.

"Teve um homem que veio me ver para contar que ia se casar com alguém que amava muito. Ele queria falar a verdade sobre seu passado para os pais da noiva", contou. "Alguns meses depois recebi uma ligação: o noivado havia sido cancelado e os pais da noiva haviam forçado a mulher a abortar."

Com a ajuda de Mike e uma rede de ex-yakuza veteranos, Fukushima apresentou outros que deixaram a organização a um grupo de apoio que pode lhes aconselhar ou até mesmo conseguir um emprego.

Mike tem um dedo para o inverno e outro bronzeado para o verão. Crédito: Emiko Jozuka

Seguir o caminho certo, porém, nem sempre é possível para todos. Alguns recaem na vida criminosa e, de vez em quando, Fukushima recebe cartas da prisão de antigos clientes pedindo perdão pelos erros.

"É difícil acertar tudo, mas se der pra ajudar pelo menos uma pessoa, então talvez essa pessoa possa ter uma família ou ser feliz de outra forma", disse.

"Se posso fazer dez dedos e o dono de um desses consegue reconstruir sua vida, isso me motiva a continuar."

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No pequeno consultório, Mike coloca sua prótese de volta.

"Sinto-me mais livre com essa prótese", disse. "Uso-a o tempo inteiro."

Mike é tão ligado ao seus mindinhos falsos que esquece de tirá-los, o que faz com que se desgastem mais rápido. Ele guarda ainda o primeiro mindinho que recebeu de Fukushima como lembrança.

"Ainda tenho aquele dedo", revelou Mike, rindo. "Ele está horrível."

Tradução: Thiago "Índio" Silva