​O Game Mais Solitário
Crédito: BICEP_MCTRICEP

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​O Game Mais Solitário

Você começa a acumular as horas passadas sozinho, no meio do nada, na negritude vazia de um jogo multiplayer online do tamanho de uma galáxia.
10.4.15

Mikael Levoniemi é o tipo de gamer que a Frontier Developments quer atrair para seu simulador de voo espacial Elite: Dangerous. O jogador dedicado de Elite anunciou recentemente ter completado uma viagem de 60.000 anos-luz com duração de dois meses pelo coração da Via Láctea.

Um modelo realista de toda a Galáxia da Via Láctea, com suas centenas de bilhões de estrelas, Elite engloba o abismo gigantesco do espaço. Uma das críticas feitas a Elite é que comércio e exploração no espaço, porém, não levam a nada além de uma versão espacial do hit cult Euro Truck Simulator 2, em que os jogadores obedecem a leis de trânsito e seguem itinerários de entrega.

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Apesar de adorar Elite, tenho que admitir que está é uma crítica justa. Parece que todo mundo queria um simulador de Guerra nas Estrelas, mas Elite gastou muito de seu tempo na parte de "guerras comerciais": a melhor forma de se ganhar dinheiro é fazendo transporte, obedecendo leis, sem tirar o olho de suas margens de lucro.

Explorar rende menos do que o comércio, mas apela para meu desejo de viajar. Escolher uma estrela distante e ir além dos limites do espaço civilizado, rumo ao negro, vendo coisas que nenhum humano viu antes, bem, é meio romântico. Infelizmente, foram necessários só alguns dias e milhares de anos-luz para que eu morresse de tédio.

Você começa a acumular as horas passadas sozinho, no meio do nada, na negritude vazia de um jogo multiplayer online do tamanho de uma galáxia

Desde seu lançamento, em dezembro, dezenas de milhares de jogadores passaram seu tempo traçando rotas na escuridão do espaço, mapeando sistemas desconhecidos, voltando pra casa e lucrando um tanto. Viajar através de túneis hiperespaciais é bastante rápido, mas o processo de traçar uma rota, viajar e reabastecer em estrelas próximas pode fazer com uma voltinha de uma centena de anos-luz dure meia hora.

Multiplique isso por dezenas de milhares e você começa a acumular as horas passadas sozinho, no meio do nada, na negritude vazia de um jogo multiplayer online do tamanho de uma galáxia.

Como com Euro Truck Simulator, porém, o tipo certo de solidão pode ser extremamente atraente para os tipos certos de jogadores. Passei algumas dezenas de horas pilotando no jogo e me vi atraído por ele. A complexidade mecânica do voo em si, em uma combinação de controles do tipo manche, é profunda o suficiente de forma que cada tentativa de aterrissagem ou ancoragem é uma chance de melhorar minhas habilidades. A sensação de propriedade sobre meu cockpit, de domínio sobre aquele espaço mecânico, me faz voltar para pilotar cada vez mais.

O apelo da distância e escape também me faz retornar ao game. Ao contrário de muitos de seu gênero, o espaço em Elite é mais que uma caixa preta. É verdadeiro. Compreende distâncias. Mirar em uma estação espacial com a aceleração no máximo revela que chegarei em dois dias, ou poucos segundos caso resolva fazer um hiper-salto. Se não o fizer, deixo a aceleração no máximo e o computador ligado por dois dias, então chego lá. A sensação de isolamento e distância real torna o terror espacial palpável, e o jogo sabe bem como lidar com esse contexto. Mesmo que, por vezes, me flagre assistindo algo no Netflix em outro monitor ou lendo um livro.

Não sou o único que busca distrações. Boa parte do subreddit do Elite é dedicado à playlists no Spotify e estações de rádio criadas pela comunidade. Os comentários relembram o conselho muitas vezes repetido de fazer maratonas de Battlestar Galactica ou dar uma fuçada no próprio Reddit enquanto se joga. Uma vídeo-montagem até mostra um jogador sonhando em jogar no celular enquanto viaja rumo a um gigante gasoso.

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Quanto mais perguntava às pessoas, mais descobria se tratar de um game apreciado por quem gosta de um pouco de solidão.

O tipo certo de solidão pode ser extremamente atraente para o tipo certo de jogadores

Então quão similar é a experiência do transporte espacial em relação ao comum? Para descobrir, comparei as experiências de caminhoneiros e de jogadores de Elite. Descobri que pilotar as naves é como dirigir, com a diferença de que dirigir caminhões é pior de todos os jeitos imagináveis.

Acaba que os caminhoneiros, no final das contas, passam muito tempo na internet. Troquei uma ideia com os motoristas no fórum TruckingTruth.com e perguntei logo de cara: Vocês não ficam de saco cheio? Todos praticamente falaram de livros em fita, música e olhar a paisagem de forma abestalhada como passatempos na estrada. Algumas rotas ("os 800 km atravessando Nebraska na I-80" e "Indiana pela noite" foram citadas) eram mais tediosas que outras.

Um motorista, que se apresentou como David, comentou que por questões de segurança, "O tédio é um excelente indicador de que você precisa passar um tempo em casa ou ao menos curtir um tempinho fora do assento para recarregar as baterias".

Outra motorista, "Amy", concordou. "Se fica chato demais, é hora de parar e levantar da cadeira. Não sei como funciona pra 'caminhoneiros espaciais', mas parece ser uma regra geral que pessoas atraídas para este tipo de emprego tendem a lidar bem com a solidão."

Crédito: Euro Truck Simulator 2

As respostas de Levoniemi reproduzem quase que palavra por palavra aquilo que os caminhoneiros me disseram. Ele passou dois meses traçando rotas manualmente (a viagem começou antes de Elite ter um programa para traçar rotas de longa distância), caindo em sistemas não-explorados, mapeando todos os corpos planetários valiosos, pegando hidrogênio combustível na estrela local, e seguindo adiante.

Levoniemi fez isso durante diversas horas, mil anos-luz por vez. O jogo o recompensa ao deixar colocar seu nome em qualquer sistema que descobrir primeiro. Vender todos estes dados também lhe rende muita grana. Além disso, ele curtiu a viagem. "Vi coisas de grande beleza, poder, magnitude", disse. "O surgimento de uma galáxia espiral é algo impressionante de se ver. Nunca tinha visto tanta coisa brilhante amontoada. [O] vazio do espaço ao se viajar 2.800 anos-luz abaixo de Sagitário… Berçários estelares, bem na minha frente."

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Mas a solidão era um problema. Levoniemi mantinha contato com jogadores de Elite através de sua associação local de gamers, mas durante dois meses dentro do jogo ele não viu nenhum outro humano – um tremendo feito para um jogo online massivo. Levoniemi ouvia uma playlist no Spotify algumas vezes para continuar atento, mas o importante mesmo é que não se deixava ficar entediado. Ele maravilhava-se com curiosidades astronômicas, observava a vizinhança local e deixava tudo rolar. Caso se entediasse, não jogava.

A capacidade de se distanciar do PC foi minha primeira dica de que, fidelidade simulada ou não, existem aspectos da vida de caminhoneiro que não entram nos games. Ser caminhoneiro é um negócio, e todo negócio busca atalhos para lucrar.

"[Eu tinha] uma ideia romantizada da vida na estrada", disse-me Rachel Barron. Hoje massoterapeuta, Rachel começou treinamento como motorista de longas distâncias. Após uma semana, largou tudo. "A realidade era muito diferente. Me incomodava ter que pagar pra tomar a porra de um banho em alguns locais… Não poder ver minha família, ficar rodeada de estranhos por seis meses… Sentir como se minha alma pertencesse à empresa para a qual dirigia… Era diferente de tudo que achei que seria. Não tive a força para seguir em frente."

Enquanto a distância e o tédio ajudaram Rachel a se afastar de seu novo emprego, esta chatice pode muito bem ser o ponto mais forte de Elite. É fácil demais criar uma caixa vazia, pintá-la de preto, e depois enchê-la com naves e lasers. Se Elite não fosse nada além da sequência na Estrela da Morte de Uma Nova Esperança, estaria errado porque o espaço – o verdadeiro e gélido espaço astronômico – é grande demais. Sem a distância, não seria real. É o vazio de Elite que o torna autêntico, e o tédio é o molho secreto que vende esta ilusão.

Tradução: Thiago "Índio" Silva