A indústria alimentar não quer que associes a carne aos animais

Naquele momento em que estás a devorar uma dose generosa de frango assado, ou um gigantesco hamburger com bacon, provavelmente não estás a pensar nas galinhas, vacas e porcos que tornaram possível a tua refeição.

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19 Outubro 2016, 8:00am

Foto via utilizador do Flickr steve.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma MUNCHIES.

Naquele momento em que estás a devorar uma dose generosa de frango assado, ou um gigantesco hamburger com bacon, provavelmente não estás a pensar nas galinhas, vacas e porcos que tornaram possível a tua refeição. Geralmente, isto é algo que leva os activistas dos direitos dos animais em todo o Mundo ao desespero. Gente que investe no vegetarianismo e no veganismo como forma de vida e que tenta introduzir na cabeça dos humanos mais carnívoros a preocupação com o bem-estar dos animais.

Agora, um novo estudo confirma aquilo em que muitos seguidores da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) sempre acreditaram: a indústria da carne tenta afincadamente explorar essa desassociação entre a carne e os animais, para fazer com que estejamos mais dispostos a comer as suas galinhas, porcos e vacas.


Vê também: "Touros nas ruas de Espanha: Defensores dos Animais vs Tradições Taurinas"


A investigação da Universidade de Oslo, na Noruega, revelada na publicação Appetite, salienta que as pessoas estão mais dispostas a comer carne, quando ela é processada e apresentada de uma forma que distancia o produto final das suas origens animais. Os investigadores mostraram aos participantes do estudo um frango inteiro, patas de galinha e bifes de frango cortados e perguntaram-lhes qual o nível de empatia que sentiam pelo animal. Mostraram-lhes também porcos assados inteiros, um com e outro sem a cabeça. Sem surpresa, os participantes sentiam menos empatia pelos bifes de frango e pelo porco decapitado.

"A forma como a indústria apresenta a carne influencia a nossa vontade e disposição para comer o produto", diz Jonas R. Kunst, um dos autores do estudo, em comunicado enviado à imprensa. E acrescenta: "Carne altamente processada facilita o distanciamento da ideia de que o produto veio de um animal".

A embalagem e a publicidade também desempenham o seu papel. Quando viam anúncios a carne que apresentavam a imagem de um cordeirinho, por exemplo, os participantes mostraram tendência para evitarem comer o produto em questão. Mesmo as palavras "bife" e "suíno" complicam a nossa relação com a carne. Os participantes mostraram-se menos dispostos a comer os dois tipos de carne, quando descritos num menu como "vaca" e "porco".

Esta suspensão da descrença em relação à carne tem sido apelidada de "hipótese da desassociação" pelos investigadores que estudam o fenómeno. O estudo de Oslo foi o primeiro verdadeiro teste à hipótese, que agora é já vista como algo efectivamente real. Isto porque, como tudo indica, não queremos admitir que os nossos bifes já foram, antes de nos chegarem ao prato, uns bichinhos fofos da quinta.

Os autores do estudo sugerem que a investigação pode ajudar os governos a limitarem o consumo de carne e mencionam ainda o facto de o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, ter abatido ele próprio todos os animais que comeu ao longo de um ano, para entender melhor o seu papel como consumidor de carne.

Pode ser, certamente, uma forma de entrares em contacto com o teu carnívoro interior, mas também é certo que a maioria das pessoas dificilmente o faria. Ou eras capaz de largar o teu prego gourmet tão simples e fácil de comprar e consumir, para pegares num machado e desatares a chacinar vacas?


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