cinema

Motivos pelos quais queremos que o Ryan Gosling deixe de actuar

Vimos "Lost River", a estreia de Gosling como realizador, e achamos que deve continuar a dedicar-se a tempo inteiro às suas criações maravilhosamente estrambólicas atrás da câmera.

Por Fernando Bernal
22 Abril 2015, 8:36am

Em Maio do ano passado, Ryan Gosling apresentou-se no Festival de Cannes com o seu filme debaixo do braço. Seu filme, porque foi ele que escreveu e realizou este projecto que, em todos os sentidos da palavra, não pode ser mais pessoal. Habituado a ouvir elogios no mais puro e elevado (ou remanescente) de todos os festivais - não nos podemos esquecer que foi aqui que se estreou o Drive - o actor levou uma chapada de luva branca da maior parte dos presentes. Em grande parte pelas críticas recebidas. Segundo o próprio Gosling, estas críticas não lhe pareceram importantes e acabou por responder: " A minha opinião sobre estas críticas é que merecem um 'buuuuuuuu, fora'"

Assim de convencido anda o nosso Ryan. Ter de enfrentar a estreia de um actor como realizador já assusta, mas se ainda por cima se estreia com uma história escrita pelo próprio, ainda é mais assustador. Poucos actores conseguiram passar para o outro lado da câmera com dignidade e, a maior parte das vezes, os seus primeiros trabalhos foram 'caprichos', porque não lhes faltou nem dinheiro, (Angelina Jolie?) nem produtoras prontas a explorar comercialmente os seus nomes. Acabaram por ser filmes dispensáveis, com as notáveis excepções, dos filmes de George Clooney ou Mathieu Amalric, entre poucos.

Mas o Ryan Gosling, assim à primeira vista, fez o filme que lhe apeteceu, e isso, nos dias que correm, já é todo um êxito. Ainda por cima, porque foi realizado numa cidade complicada, Detroit, que aqui é representada como uma vila horrível chamada Lost River. Um lugar inundado por uma represa, com casas abandonadas, descampados fantasmagóricos, uma discoteca gore propriedade de um banqueiro, filmes infantis bastante bizarros e um psicopata que corta os lábios do primeiro que lhe levante a voz.

Tudo isto surgiu da imaginação do Ryan que, durante vários meses, viajou por Detroit "escrevendo mentalmente" um filme que absorveu o mais surreal dos David Lynch, assim como o oniricamente infantil Fellini de Amarcord. Ele sabe o que faz. Na verdade, nós tínhamos medo de encontrar um aluno avantajado de Nicolas Winding Refn (a presença do compositor de Drive, Johnny Jewel, nos créditos parecia suspeita), que fosse calcar essa caligrafia lenta e parcimoniosa do dinamarquês e que obrigasse os seus personagens a mexerem-se muito lentamente por sítios que não são sítios. Mas não foi assim. E estamos-lhe agradecidos.

O filme tem algo de "grande romance americano". Nós explicamos. Mete, como inadvertidamente, o dedo no olho do sistema enquanto parece estar apontado para um lado muito mais privado. Neste caso, vemos diante dos nossos narizes como as hipotecas de risco (subprime) funcionaram no início da crise e como os bancos davam créditos aos seus clientes como aqueles homens que distribuíam doces às portas das escolas. Nada que já não se soubesse, mas que é sempre bom que nos recordem. Essa é a parte real da história. O resto, é puro delírio.

Um pouco na linha do revisionismo juvenil do maravilhoso Mud, do realizador Jeff Nichols, Gosling foca-se no adolescente Bones (Iain De Caestecker) que ganha a vida roubando cobre no território de Bully (Matt Smith), um mafioso sinistro e psicopata. A profissão do protagonista permite a Gosling convidar-nos a viajar até aos esgotos da cidade e ver como Detroit acabou arrasada (abandonada) pelos efeitos da crise. Outra forma subtil de enfiar-lhes o dedo no olho.

Mas Lost River não é um drama realista. É um pesadelo filmado com cores saturadas em que a mãe de Bones (uma Christina Hendricks bastante recatada, comparando com o que é normalmente) começa a trabalhar num espectáculo onde os cidadãos, que estão a ponto de perder as suas casas, comemoram mortes em directo, trepanações e todo o tipo de atrocidades com os corpos. Uma festa (simulada), que iria encantar o Cronenberg da Carne Nova e qualquer voyeur. Este antro é dirigido por um banqueiro louco, que se parece a um personagem de Lewis Carroll mas na realidade é um demónio que, isso sim, tem uma performance em directo ao nível do Nick Cave durante os seus tempos mais selvagens.

São estes os elementos que Ryan Gosling deixa a descoberto neste filme. No qual ainda se atreve a brincar com os efeitos digitais em cumplicidade com o seu director de fotografia, Benoit Debie (Spring Breakers), para converter o seu filme numa história para adultos problemática e com fantasmas reais que, com os pés bem assentes no chão, podemos encontrar no nosso dia-a-dia.

Ryan Gosling diz que sua carreira de director está agora parada; não tem projectos no horizonte, e prefere esperar o tempo que seja necessário. Mas nós estamos ansiosos para ver o seu próximo filme, já que como actor, desde os velhos tempos da Disney, ele fez de tudo.