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saúde mental

Isto é o que sentes quando de repente tens esquizofrenia aguda

No Inverno passado comecei a não reconhecer-me a mim próprio.

Por Daniel Smith
24 Outubro 2014, 10:52am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

No Inverno passado comecei a não reconhecer-me a mim próprio. A primeira coisa que mudou foi o sono. Durante mais ou menos 15 dias comecei a notar que me era cada vez mais difícil dormir. Aos 24 anos, e tendo em conta que nunca me faltava a minha dose de haxixe, era a primeira vez que tinha problemas deste tipo. Era estranhíssimo. Um dia, de repente, meti-me na cama e não conseguia desconectar o cérebro. Os meus pensamentos eram como plantas trepadeiras que se entrelaçavam com outros pensamentos formando um muro, enorme e emaranhado. Nalgumas noites tapava a cabeça com o cobertor, agarrava a cara com força e dizia-me: “Cala-te, caralho!”.

Acabava por adormecer, mas acordava com uma sensação estranha, como se me tivesse esquecido de alguma coisa, ou de dizer algo a alguém. Também perdi o apetite voraz que tinha normalmente. Quando me levantava comia logo uma super taça de cereais do tamanho de uma cúpula geodésica. Mas agora, todas as manhãs acordava com um gosto insalubre na garganta. Não lhe dei muita importância e decidi que talvez fosse o momento de deixar os charros durante um tempo. De certeza que era isso. Nada de mais.


Vê: "Serás tu uma pessoa empática?"


Continuei a ir trabalhar com normalidade (trabalho com vinhos) e tentava não pensar nestas mudanças nocturnas. Durante o dia não tinha problemas, embora tivesse os olhos esbugalhados. Sinceramente, agora que penso no assunto, às vezes era difícil ter conversas simples. Se o meu patrão me pedia para verificar um pedido, precisava de dois minutos para processar o que acabava de dizer-me, como se duas pessoas tivessem falado comigo ao mesmo tempo e eu não tivesse entendido bem. Esta tarefa de confirmar os pedidos da manhã, e conseguir entendê-los, era tão difícil como distinguir uma árvore no nevoeiro. Podia fazê-lo, mas com dificuldade.

Tinha a sensação de estar dentro de um nevoeiro espesso. Comecei a pensar que as coisas caíam. Olhava para uma estante com garrafas e via que duas delas cambaleavam, mas quando voltava a olhar estava tudo bem, continuavam no mesmo sítio. Também comecei a ouvir telefones a tocar, com sons diferentes, só que no escritório não havia nenhum. Apesar de tudo, mantinha a calma. Quando me perguntavam se estava bem, dizia que tinha dormido pouco e que devia ser isso. A falta de sono provoca esse efeito nas pessoas. Um colega falou-me de uns comprimidos, que durante um tempo me ajudaram a dormir melhor, mas cada manhã sentia a cabeça cheia de algodão. Deixei de ir a bares e de jogar futebol aos fins-de-semana. Só queria dormir. Conversar era um esforço.

Acho que entre as primeiras insónias e o momento em que percebi que tinha um problema grave passaram dois meses. Os pensamentos "polvo" - como lhes chamava - que me visitavam durante a noite eram cada vez mais bizarros. Um dia, enquanto via televisão, não era capaz de distinguir os barulhos que vinham do televisor e os que saíam da minha cabeça. Comecei a assustar-me. Outra noite, enquanto via Homeland (precisamente), sofri, o que nesse momento considerei, um ataque de pânico. Sabia o que era um ataque de pânico, porque uma miúda com quem saía também os tinha. Uma vez, teve que deitar-se no meio de uma sala de cinema, respirar profundamente, e esperar que as convulsões acalmassem. Foi uma cena terrível.

Naquela noite comecei a tremer como se estivesse um frio polar, embora estivesse muito quente. As minhas pernas roçavam com os lençóis por causa dos tremeliques e esse som cacofónico transformou-se no burburinho de uma multidão de pessoas. Nesse momento e em frente às luzes “pisca-pisca” da televisão, comecei a perder a lucidez.

Não preguei olho. Estava paralisado. A porta do meu quarto marcava a fronteira do meu mundo. Os sons iam e vinham e sentia que alguma coisa ou alguém se tinha apoderado do meu corpo e mente. Não fui eu quem fez xixi num copo e derramou metade para o chão, por estar demasiado assustado para ir à casa-de-banho. Não fui eu quem tirou os lençóis da cama, porque se sentia mais confortável todo nu, directamente sobre o colchão. Não fui eu quem cortou o calcanhar na esperança de recuperar a sanidade mental. Fechado no meu quarto, enquanto o sol nascia e o despertador tocava, pensei, “Tenho de falar com a minha mãe”.

Felizmente estávamos separados por meia dúzia de degraus. Não conseguia avançar, era impossível sair de casa. Liguei-lhe para o telemóvel, porque estava convencido de que, mal saísse do quarto, alguma coisa muito má podia acontecer. Mal cruzasse o vão da porta, o meu crânio ficaria despedaçado e os meus intestinos espalhar-se-iam pelo chão, como se fosse um porco esventrado. A minha mãe atendeu e disse, “Ó Daniel, não sejas parvo”, ou qualquer coisa do género. Comecei a chorar convulsivamente, a soluçar. Ouvi o telefone da minha mãe cair ao chão, no andar de cima.

Quando ela abriu a porta do meu quarto, eu gemia. Não me lembro bem, mas tinha desmontado todos os comandos à distância (tinha quatro) e o meu colchão era uma mistura caótica de circuitos, urina e sangue (do calcanhar), no meio da qual estava eu. E chorava. Disse à minha mãe que tinha sido possuído. Ela chamou a ambulância.

Não sei exactamente como foi, mas parece que quando chegaram os enfermeiros da ambulância eu pensei que estavam a tirar-me fotografias. Estava tão chateado que resisti e tentei bater-lhes. Pus-me aos gritos e disse a um deles que tirar-me fotografias ia contra a lei e que conhecia os meus direitos. Tinha os boxers empapados e a perna cheia de sangue seco.

A única coisa que tenho clara é que a caminho do hospital a minha mãe tinha que segurar-me as pernas, contra a maca. Ela disse-me que não parava de gritar que não queria estar na auto-estrada, porque havia gente escondida nos radares de velocidade. Das urgências lembro-me vagamente de meia dúzia de coisas, a preto e branco. Agulhas, sussurros e correias de imobilização.

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A imagem mostra as áreas do cérebro mais activas em indivíduos controlados, em contraste com pacientes esquizofrénicos, durante um exercício de memória. (Foto via).

O que acabo de descrever é um ataque psicótico, sintoma irrefutável da esquizofrenia aguda, ou seja, a doença que me diagnosticaram. A psicose é a perda de contacto com a realidade. Pode acontecer inesperadamente, ou - que é o mais comum nas pessoas que desenvolvem esta patologia - ir-se formando lentamente, até que um dia se manifesta. Isso foi o que me aconteceu. Estive internado durante uma semana e meia e fui imediatamente medicado com anti-psicóticos. Não me lembro de grande coisa, tirando que tinha muitas náuseas e que era difícil falar com as pessoas. Ah, e que o gajo do quarto ao lado se cagava todo de propósito. No ar havia um fedor a morte, como o que eu sentia no meu cérebro.

Lembro-me bem do dia em que voltei à realidade, quando os medicamentos começaram a fazer efeito, quando já não tinha só vontade de tapar a cabeça com uma manta e dormir. O meu irmão e a minha mãe vieram ver-me (tinham vindo todos os dias, mas eu era incapaz de conversar, só falavam com os médicos e as enfermeiras) e vimos três episódios seguidos de Breaking Bad no iPad, na sala de visitas. A minha mãe aguentava-o nos joelhos com uma mão, enquanto, de vez em quando, me fazia festinhas na nuca com a outra. Ri-me de uma coisa que disse o Saul e, nesse momento, tive a sensação de estar a superar. O nevoeiro que encobria a pessoa que eu era estava a desaparecer. Nessa noite até acabei o jantar, mas juro que nunca mais como puré de batata.

Tinha muitos altos e baixos. Tinha ataques de pânico muito fortes e com eles revivia tudo o que tinha acontecido. Mas, a equipa do hospital onde estava internado fez um trabalho espectacular, à excepção de algumas enfermeiras que me tratavam como um bebé. Odiava essa sensação. Quando tive alta, passei a receber a visita de uma assistente social todas as semanas, para controlar a minha medicação, anotar a minha rotina diária e convencer-me a passear com a minha mãe ou voltar a ver os meus amigos. A verdade é que tinha tanta vergonha que não me atrevia, e pensava que não iam entender. Ou pior ainda, que iam achar que estava maluco. Estava redondamente enganado.

O meu melhor amigo, o Sam*, disse-me que estava tão preocupado comigo que à noite nem conseguia dormir. A pouco e pouco todos voltaram a mandar-me mensagens - acho que tinham medo de dizer alguma coisa inconveniente -, mas estavam ansiosos por voltar a jogar à bola comigo e tinham a certeza que daqui a nada ficaria tudo bem. Impressionou-me muito a reacção e a maturidade de todos.

O pessoal da unidade de saúde mental organizou uma terapia para pacientes externos, a cargo do Gregg*, um homem que se faz explicar com muita clareza. Durante uns tempos sentia os efeitos sedativos dos anti-psicóticos e tinha muitas vezes a sensação de estar a mover-me num líquido espesso, mas também sentia uma peace of mind incrível e quase inédita nos últimos meses. Gregg ajudou-me a perceber o que tinha acontecido, ensinou-me umas técnicas para combater pensamentos como os daquela noite (segundo ele, não é bom falar de “perder” a cabeça, porque a cabeça continua no mesmo sítio, só está doente) e superar o medo de ter uma recaída. Também me aconselhou a ver os meus amigos e assegurou-me de que era possível recuperar-me. Que a medicação tinha funcionado e continuaria a funcionar, mas que tinha de ser realista e assumir que tinha um transtorno. Era uma questão de tempo.

A verdade é que a aceitação fez toda a diferença. Aprendi que a frustração te leva à ansiedade. Os dias em que saía para passear (a minha mãe obrigava-me a ir a todo o lado durante, pelo menos, uma hora, então deixava-me sozinho a meio do caminho e dava-me alguma missão, tipo comprar um pacote de leite ou manteiga) uma ideia não me deixava em paz: “Foda-se, porque é que não posso ser normal?”. Lá parava, apanhava ar e repetia umas quantas vezes em voz alta: “Sou normal, tive um pequeno transtorno e só preciso de um tempo para me recuperar”.

Umas seis semanas depois de sair do hospital, comecei a visitar os meus amigos outra vez. Não podia evitar sentir-me desconfortável quando o volume da televisão estava alto, ou quando todos falavam ao mesmo tempo, mas quando isto acontecia, falava com eles. Ninguém gozou comigo. Ninguém teve pena, que alívio. Às vezes pensava que, se tivesse acontecido o mesmo a algum deles, eu teria assumido um papel super protector, sempre a perguntar se estava tudo bem.

Poucas semanas depois voltei a trabalhar em part-time. O meu patrão não podia ser mais compreensivo. Parece que quando me internaram, ligou à minha mãe para lhe dizer que me guardava o lugar até eu estar recuperado e sem pressas. Ao princípio não me sentia bem, porque não queria voltar ao mesmo trabalho como se fosse uma espécie de inválido. Tinha 25, não 60, e queria que me tratassem como antes. Demorei um tempo até ver a preocupação e a compaixão como o que realmente eram, em vez de achar que tinham um preconceito em relação a mim.

Voltar ao trabalho ajudou-me muito. Voltar a ter uma rotina, falar com pessoas e ter a cabeça ocupada com coisas para fazer foi a melhor terapia. Às vezes acordava assustado e demorava umas horas até estar despachado para sair de casa, mas nunca fui recriminado por isso. Liguei várias vezes ao Gregg, desde o armazém - às vezes era difícil aguentar aquela situação -, mas ele não estava sempre disponível. Se fosse o caso, deixava-lhe uma mensagem no voicemail. Um dia disse-me que já não era preciso ir vê-lo, que tinha confiança em mim, que achava que eu era capaz de lidar com os meus pensamentos e que podia utilizar as técnicas que tinha aprendido, sem ajuda.

Passou um ano e não tive nenhuma recaída. Tenho de continuar com o tratamento durante uns tempos, mas não me importo. O meu desejo sexual não é o que era (embora ainda consiga pô-la de pé) e também engordei um bocadinho, mas esse é o preço a pagar por uma mente sã.

Quis contar esta história, porque antes de ser esquizofrénico via este transtorno como uma espécie de sentença de morte. Quando se fala de gente que é esquizofrénica, imagina-se logo alguém fechado num quarto acolchoado, em estado catatónico, num futuro bidimensional, sob o efeito da medicação e rodeado de almofadas babadas. Imaginas que o futuro é: ouvir vozes e ver fantasmas. Nada a ver, se o transtorno for bem tratado. Com o tratamento certo e um diagnóstico atempado, é possível recuperar da esquizofrenia aguda e de outros transtornos mentais.

Sou realista. Sei que nalgum momento posso ter uma recaída e isso deprime-me, mas também sei que posso recuperar e isso dá-me muita força. Voltei ao trabalho, recuperei a minha vida social e também jogo à bola há mais ou menos um ano. Até fui de férias. Ainda não me sinto completamente preparado para sair de casa, mas talvez a preguiça também contribua para isso.

O meu melhor conselho para uma pessoa que tenha começado a sentir sintomas psicológicos fora do normal, é que não guardem segredo e desabafem com alguém. Seja quem for. Que falem com alguém em vez de carregarem esse peso sozinhos. Um transtorno mental não é muito diferente de uma doença física, simplesmente afecta um órgão diferente, o cérebro. Não tenhas medo de pedir baixa durante um tempo, ou de falar com os teus patrões sobre o assunto, como eu fiz. Quando penso nisso, que ouvia telefones tocar, devia ter dado logo o passo. Era motivo mais que suficiente para pedir ajuda a alguém. A vergonha não tem sentido quando se trata de saúde mental e devemos dar a mesma atenção aos sintomas mentais que aos físicos. Ser o mestre da dissimulação, como eu fui, não é nenhum motivo de orgulho.

Se te sentes estranho, fala com o teu médico de família. Mesmo que te pareça um disparate, o melhor que podes fazer é falar com alguém sobre o que sentes. Calares-te não deve ser uma opção. Vais perceber que as pessoas são muito mais compreensivas do que estavas à espera. Estamos em 2014 e já é hora que as doenças mentais deixem de ser tabu e essa mudança só pode começar connosco.

*Os nomes foram alterados.


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