Estamos tão viciados em tecnologia que hotéis já lucram com turismo desconectado
Paguei uma grana para me hospedar nesta pousada na Amazônia que prometia me manter longe da internet. Crédito: Marina Lopes

Estamos tão viciados em tecnologia que hotéis já lucram com turismo desconectado

Uma prova? Paguei uma grana para me hospedar numa pousada da Amazônia que prometia me manter longe da internet.
18.10.16

Se uma árvore cai no meio da Amazônia, mas você não registra o momento no Snapchat, ela realmente caiu? Pensava nisso enquanto caminhava pela floresta no terceiro dia de uma desintoxicação digital que, confesso, me matava aos poucos. Qual é a graça de comer uma minhoca viva ou de carregar um macaquinho no meu ombro se não posso postar fotos para comprovar?

Hoje em dia, nossas férias se tornaram tão trabalhosas quanto um emprego. Entre atualizações no Facebook, postagens no Instagram e tuítes que preservam todos nossos pensamentos, registrar as férias pode parecer mais importante do que a viagem em si. Por causa disso, 41% dos millennials sentem que seus celulares os impedem de curtir suas viagens, de acordo com uma pesquisa sobre tendências de consumo da JWT Intelligence. Além disso, mais da metade daqueles que planejam se desconectar das redes sociais durante as férias não foram capazes de manter sua promessa, diz um estudo de comportamento digital feito pela Intel.

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Sendo assim, quanto os viciados em tecnologia – acho que a maioria de nós, correto – estão dispostos a pagar para se desconectar do mundo digital?

Ao que tudo indica, uma quantia significativa. Como era de se esperar, a indústria do turismo já começou a investir em nosso vício em telas brilhantes.

Alguém precisava tirar uma foto dessa rede. Crédito: Marina Lopes

A ausência de wi-fi e cobertura telefônica, características imperdoáveis em qualquer outro hotel, tornaram-se os principais atrativos do hotel La Pause, no Marrocos. Erguido entre dunas de areia, o hotel não possui eletricidade ou cobertura telefônica, mas oferece tendas e roupões luxuosos feitos de algodão egípcio por uma diária de US$250. Da mesma forma, no Petit St. Vincent, um exclusivo resort caribenho com uma diária de US$1.000, os celulares nunca tocam. Os hóspedes utilizam bandeirolas fincadas ao lado de seus bangalôs para se comunicar com os funcionários do hotel.

"As pessoas não conseguem se desconectar. É por isso que existe essa demanda. Esse serviço é voltado para pessoas interessadas em espiritualidade, gente que quer se conhecer profundamente", diz Adriana Lacerda, consultora de viagens da Plantel Turismo. "A tecnologia impossibilita essa auto-reflexão. Você está conectado a outras pessoas, mas nunca de verdade."

O "turismo desconectado" é um detox para viajantes cujos dedões saltam no ar ao primeiro sinal de tédio. Ao que tudo indica, dar uma pausa na tecnologia pode trazer benefícios à saúde. Estudos mostram que pessoas viciadas em internet tem mais transtornos mentais e uma maior tendência à insônia.

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Em busca desta indescritível liberdade, peguei um avião, dois barcos e uma van rumo ao coração da Amazônia. Meu objetivo era trocar minhas playlists do Spotify pelo rangir de uma rede e pelo contato com a natureza.

Essa é a proposta do Juma Lodge. Esse hotel isolado é composto por 21 cabanas com teto de palha construídas sobre palafitas à beira do Rio Araçá. Com uma diária de US$300, o hotel oferece um retorno à simplicidade. Nele, não existem televisões, telefones e muito menos wi-fi. A única forma de comunicação com o mundo exterior são cinco rádios, utilizados apenas em caso de emergência.

O Juma Lodge. Crédito: Marina Lopes

Entre seus hóspedes havia empresários sobrecarregados, advogados europeus e um colegial em busca de um tema para a carta de motivação que o faria entrar na universidade. Os primeiros dias foram maravilhosos. Fiz um passeio noturno pela floresta, aprendi a abrir cipós e beber a água acumulada em suas fibras e cacei jacarés à luz do luar. Registrei minhas aventuras no meu diário e pensei sobre a vida enquanto observava o pôr do sol. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo do lado de fora do hotel.

No meio da semana, no entanto, fui tomada por uma crise de abstinência. O calor e a quietude estavam me irritando, e eu precisava de um tempo fora da minha própria mente. Comecei a pensar no Twitter. O que eu estava perdendo? Que vídeos haviam viralizado, qual havia sido o resultado da última pesquisa eleitoral, quem Taylor Swift estava namorando? No entanto, como não podia abandonar minha desintoxicação, ignorei esses pensamentos e aprendi a construir um abrigo com folhas de bananeira.

Alguns dias depois, durante uma viagem de balsa até o continente, meu telefone voltou à vida. Liguei-o lentamente, mergulhando mais uma vez na civilização. A saudade que eu havia sentido da internet não parecia recíproca. Em cinco minutos, li tudo que havia perdido na última semana. Com um suspiro aliviado, desliguei meu celular e curti as últimas horas das minhas férias.

Tradução: Ananda Pieratti