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DJ MAM Encarna um Índio Futurista e Mistura Beats com Música Brasileira de Raiz

Com ajuda de outros 57 (!) artistas, o produtor carioca lançou ‘Sotaque Recarregado’, disco de remixes do seu ‘Sotaque Carregado’.

Apadrinhado pelo pernambucano DJ Dolores, o produtor e compositor carioca Marco Aurélio Marinho, que atende pelo nome de DJ MAM, arrebanha hordas com sua mistura de beats e música brasileira de raiz. Você pode até não conhece-lo, mas MAM já conseguiu a façanha de reunir dois milhões de pessoas no Réveillon de Copacabana comandando as picapes.

Recém-chegado da Europa, onde rolou o Festival Viva Brasil, Marco Aurélio Marinho, aka DJ MAM, lançou no último dia 17 de julho Sotaque Carregado, um álbum colaborativo que contou com a participação de nada menos que 57 (!) artistas, entre os quais estão nomes fortes como DJ Patife, Mauro Telefunksoul e BNegão.

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Conversamos com o DJ MAM para saber mais sobre a verdadeira força tarefa que parece ter existido para fazer Sotaque Recarregado que, como ele nos conta, é um disco que procura despertar os ecos de um Brasil desconhecido. Passando pelo tecnobrega, afrobeat, samba reggae, o produtor carioca encarna um índio futurista, capaz de representar o que é reconhecido como tipicamente brasileiro: a diversidade.

Ouça o EP enquanto lê a entrevista:

THUMP: Você acaba de voltar de uma turnê pela Europa, onde participou do Festival Viva Brasil. Como o seu disco é reconhecido por apresentar uma mistura de um Brasil que, muitas vezes, nem o próprio brasileiro conhece, qual é a primeira impressão dos gringos que conhecem um pouco do Brasil por meio da sua música?
DJ MAM: Eles têm uma experiência um pouco sinestésica, porque eles não só ouvem a minha música mas também olham para o palco e veem o meu personagem, o meu clown indígeno-futurista. De cara, eles já estão ouvindo e vendo um Brasil inédito, que é um indígena tocando música eletrônica. O indígena do futuro apresenta um som novo para eles, e a novidade é a mistura. Eles reconhecem as batidas globais da música eletrônica e alguns elementos do Brasil, como o pandeiro, o tamborim e o berimbau. Eles têm uma empatia por esses elementos mas ainda é um olhar curioso para essa mistura dos ritmos brasileiros com essa batida das pistas de dança. E como é o caso do meu trabalho, porque eu não misturo os ritmos brasileiros diretamente com as batidas, mas entre si antes. Por exemplo: o ritmo pernambucano com o samba-de-roda, em "Cuscuz de Canô", o samba com carimbó em "Sambarimbó" e por aí vai. Então, primeiro eu sinto uma curiosidade pela estranheza, a admiração do desconhecido. Sinto um olhar de fascinação, com um quê de deboche, e depois uma empatia natural pelo que o que faz eles se reconhecerem nessa diversidade de estilos musicais brasileiros.

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*O seu primeiro álbumSotaque Carregado *foi relançado agora com remixes de produtores paraibanos, gaúchos, cariocas. Qual foi a sua maior aprendizagem em trabalhar com tanta gente diferente de vários lugares do Brasil?
Na verdade já aprendo com essa galera há muito tempo. Tive a oportunidade de recarregar o sotaque deste trabalho com quem foi referência para eu carregá-lo. Por exemplo, a música "Strip Cabocla" foi literalmente inspirada na estética do cara do tecnobrega, o Waldo Squash, porque ele é do Pará. Então, a minha música que foi inspirada na estética que ele produziu foi remixada por ele próprio. Quando ouvi, até chorei porque é como se eu tivesse ouvindo do jeito que queria que ela tivesse nascido. O Patife também foi muito importante, porque ele é um dos pais de todos por ter lançado em 2001 essa história do hibridismo da música eletrônica brasileira que mistura eletrônica com música de raiz brasileira, também tem o Dolores que acabou não participando dos remixes mas assina o release do projeto. Quando eu fiz a "Poção do Amor", a música que o Mauro TelefunkSoul e o André T remixaram, foi uma fusão do Rio com a Bahia e Pernambuco. A levada da bateria da mangueira virou um samba reggae mencionando o Olodum, com sintetizadores e com um bass mais puxado. O que era uma citação na versão original virou a base da música toda. "Colorissom" foi remixada pelo Furmiga Dub e tem uma levada de coco, de boi, uma levada nordestina com o dubstep, com muito mais carga regional do que a própria original. O Furmiga é paraibano, então ele tem o nordeste muito mais acordado dentro de si do que eu que sou filho de nordestinos.

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É como se o Brasil se amplificasse pela propriedade de cada sotaque com o seu olhar eletrônico. Cada um [dos colaboradores] trouxe do seu estado a sua verdade para o Sotaque Recarregado.

Como surgiu a sua parceria com o DJ Patife e com o Mauro Telefunksoul?
O Patife remixou a "Ogum Oni Irê" e conhece muito da cultura afro brasileira, para além da música. No candomblé, que é a religião que eu sigo, o Ogum é o meu orixá e o culto à Ogum na Umbanda, é representado pelo São Jorge. Nos dois cultos a Ogum, usa-se muitos fogos de artifício. O Patife me surpreendeu, porque ele trouxe elementos da sonoplastia no remix dele, que só quem conhece muito a fundo a cultura brasileira consegue perceber. Ele abre a faixa com o canto do Grupo Ofá de candomblé da Bahia. Um dos integrantes desse grupo é o meu parceiro na faixa original, logo depois você consegue ouvir fogos e depois espadas, que tem uma levada de afrohouse com breaknick, além do beat que só o Patife sabe fazer.

O Mauro Telefunksoul também traz uma informação de fora da música, os gritos do meu personagem e seus ancestrais (indígenas). Também trouxe a levada do samba reggae e fez a música toda dentro da estética do Bahia Bass com sintetizadores.

Apadrinhado pelo pernambucano DJ Dolores, o produtor e compositor carioca Marco Aurélio Marinho, que atende pelo nome de DJ MAM, arrebanha hordas com sua mistura de beats e música brasileira de raiz. Você pode até não conhece-lo, mas MAM já conseguiu a façanha de reunir dois milhões de pessoas no Réveillon de Copacabana comandando as picapes.

Recém-chegado da Europa, onde rolou o Festival Viva Brasil, Marco Aurélio Marinho, aka DJ MAM, lançou no último dia 17 de julho Sotaque Carregado, um álbum colaborativo que contou com a participação de nada menos que 57 (!) artistas, entre os quais estão nomes fortes como DJ Patife, Mauro Telefunksoul e BNegão.

Conversamos com o DJ MAM para saber mais sobre a verdadeira força tarefa que parece ter existido para fazer Sotaque Recarregado que, como ele nos conta, é um disco que procura despertar os ecos de um Brasil desconhecido. Passando pelo tecnobrega, afrobeat, samba reggae, o produtor carioca encarna um índio futurista, capaz de representar o que é reconhecido como tipicamente brasileiro: a diversidade.

Ouça o EP enquanto lê a entrevista:

THUMP: Você acaba de voltar de uma turnê pela Europa, onde participou do Festival Viva Brasil. Como o seu disco é reconhecido por apresentar uma mistura de um Brasil que, muitas vezes, nem o próprio brasileiro conhece, qual é a primeira impressão dos gringos que conhecem um pouco do Brasil por meio da sua música?
DJ MAM: Eles têm uma experiência um pouco sinestésica, porque eles não só ouvem a minha música mas também olham para o palco e veem o meu personagem, o meu clown indígeno-futurista. De cara, eles já estão ouvindo e vendo um Brasil inédito, que é um indígena tocando música eletrônica. O indígena do futuro apresenta um som novo para eles, e a novidade é a mistura. Eles reconhecem as batidas globais da música eletrônica e alguns elementos do Brasil, como o pandeiro, o tamborim e o berimbau. Eles têm uma empatia por esses elementos mas ainda é um olhar curioso para essa mistura dos ritmos brasileiros com essa batida das pistas de dança. E como é o caso do meu trabalho, porque eu não misturo os ritmos brasileiros diretamente com as batidas, mas entre si antes. Por exemplo: o ritmo pernambucano com o samba-de-roda, em "Cuscuz de Canô", o samba com carimbó em "Sambarimbó" e por aí vai. Então, primeiro eu sinto uma curiosidade pela estranheza, a admiração do desconhecido. Sinto um olhar de fascinação, com um quê de deboche, e depois uma empatia natural pelo que o que faz eles se reconhecerem nessa diversidade de estilos musicais brasileiros.

O seu primeiro álbumSotaque Carregado foi relançado agora com remixes de produtores paraibanos, gaúchos, cariocas. Qual foi a sua maior aprendizagem em trabalhar com tanta gente diferente de vários lugares do Brasil?
Na verdade já aprendo com essa galera há muito tempo. Tive a oportunidade de recarregar o sotaque deste trabalho com quem foi referência para eu carregá-lo. Por exemplo, a música "Strip Cabocla" foi literalmente inspirada na estética do cara do tecnobrega, o Waldo Squash, porque ele é do Pará. Então, a minha música que foi inspirada na estética que ele produziu foi remixada por ele próprio. Quando ouvi, até chorei porque é como se eu tivesse ouvindo do jeito que queria que ela tivesse nascido. O Patife também foi muito importante, porque ele é um dos pais de todos por ter lançado em 2001 essa história do hibridismo da música eletrônica brasileira que mistura eletrônica com música de raiz brasileira, também tem o Dolores que acabou não participando dos remixes mas assina o release do projeto. Quando eu fiz a "Poção do Amor", a música que o Mauro TelefunkSoul e o André T remixaram, foi uma fusão do Rio com a Bahia e Pernambuco. A levada da bateria da mangueira virou um samba reggae mencionando o Olodum, com sintetizadores e com um bass mais puxado. O que era uma citação na versão original virou a base da música toda. "Colorissom" foi remixada pelo Furmiga Dub e tem uma levada de coco, de boi, uma levada nordestina com o dubstep, com muito mais carga regional do que a própria original. O Furmiga é paraibano, então ele tem o nordeste muito mais acordado dentro de si do que eu que sou filho de nordestinos.

É como se o Brasil se amplificasse pela propriedade de cada sotaque com o seu olhar eletrônico. Cada um [dos colaboradores] trouxe do seu estado a sua verdade para o Sotaque Recarregado.

Como surgiu a sua parceria com o DJ Patife e com o Mauro Telefunksoul?
O Patife remixou a "Ogum Oni Irê" e conhece muito da cultura afro brasileira, para além da música. No candomblé, que é a religião que eu sigo, o Ogum é o meu orixá e o culto à Ogum na Umbanda, é representado pelo São Jorge. Nos dois cultos a Ogum, usa-se muitos fogos de artifício. O Patife me surpreendeu, porque ele trouxe elementos da sonoplastia no remix dele, que só quem conhece muito a fundo a cultura brasileira consegue perceber. Ele abre a faixa com o canto do Grupo Ofá de candomblé da Bahia. Um dos integrantes desse grupo é o meu parceiro na faixa original, logo depois você consegue ouvir fogos e depois espadas, que tem uma levada de afrohouse com breaknick, além do beat que só o Patife sabe fazer.

O Mauro Telefunksoul também traz uma informação de fora da música, os gritos do meu personagem e seus ancestrais (indígenas). Também trouxe a levada do samba reggae e fez a música toda dentro da estética do Bahia Bass com sintetizadores.

A música "Iemanjá Carioca" conta com as participações de representantes da música black dos anos 70, tanto da Nigéria, quanto do Rio. Como você vê o símbolo de Iemanjá — entidade dessas duas culturas — nessa faixa?
Essa é uma música que fala sobre a preservação do Rio Carioca, que está muito poluído, mesmo o Rio sendo a sede das Olimpíadas, no ano que vem. Então para produzir essa música eu criei o mito da Iemanjá Carioca, para proteger o rio, tentar fazer com que o respeito viesse além das questões da sustentabilidade, mas também porque o brasileiro é um povo muito religioso. Quem sabe, se o rio se transformando numa divindade, pelo menos os povos afrodescendentes comecem a proteger, porque todas as forças da natureza são divindades. A Iemanjá Carioca representa o encontro do Rio Carioca com a Baía da Guanabara. Eu canto o nome de sete Iemanjás na música e fiz a faixa na estética do afrobeat, que foi o ritmo que o Fela Kuti junto com o Tony Allen criaram para defender as suas posições políticas na Nigéria da década de 70. É por isso que eu uso uma música de resistência dos anos 70 como a base da versão original, é o meu ativismo. Aí eu trouxe o Oghene Kologbo, o guitarrista que acompanhava o Fela Kuti e que tocou com o Tony durante muito tempo, para remixar a música. Isso eu trouxe do "Estudando o Som", e aprendi com o Yuka, de conscientizar através da música.

Além de dividir com o Marcelinho da Lua o Prêmio Noite Rio de 2012 e de 2014 de melhor DJ de MPB, a sua apresentação no Réveillon de Copacabana bateu recorde de público ao reunir dois milhões de pessoas. Levando em conta todo o seu prestígio nacional e internacional, como você analisa a sua carreira hoje?
Em 2012 a gente dividiu o prêmio, em 2013 o Marcelinho ganhou e em 2014, eu ganhei. Então, considero que a gente continua dividindo o prêmio. Avalio a minha carreira como sendo de sucesso, mas foi só nas últimas 48 horas que eu consegui entender o que é o sucesso. Eu acho que o sucesso não é medido pela quantidade de pessoas para quem você toca, nem pelo número de entrevistas que você dá, o sucesso vem quando você sente o carinho e a reunião das pessoas para fazer algo acontecer, o trabalho que você propôs. Devo o meu sucesso desde aos amigos que ofereceram a casa para eu ficar até aos que produziram música comigo. Tanto no Sotaque Carregado, quanto no Sotaque Recarregado eu devo meu sucesso aos 57 artistas que ajudaram a compor o projeto.

No Sotaque Recarregado a gente encontra desde tecnobrega até um samba reggae com dubstep, mas para você, qual som que tem mais a cara do Brasil?
A gente só tem a perder ao querer falar. A cara do Brasil é a mistura, eu não consigo definir um estilo para representar o Brasil, assim como eu não consigo escolher uma música apenas que represente o álbum todo. Eu acho que o que conta aí é a diversidade, a nossa diferença é essa, esse é o nosso lance, mostrar que é possível conviver com as diferenças e a graça da coisa é justamente isso, a diferença.

A cara do Brasil é a mistura. O nosso lance é mostrar que é possível conviver com as diferenças e a graça da coisa é justamente isso, a diferença.

Como a vivência dos projetos Brazilian Lounge e Estudando o Som contribuíram com esse novo momento da sua carreira?
O "Brazilian Louge" foi uma escola de produção e superação musical para mim, porque eu toco desde 1983, quando fiz a minha primeira composição. Mas como DJ, toco desde 1989, e fui assumir só em 2012, quando lancei o álbum Brazilian Lounge. Esse trabalho contou com dois produtores musicais da pesada, o Davi Villefort e o Rodrigo Sha, que também ganhou no ano passado o Prêmio da Música Eletrônica Brasileira. O Brazilian foi o meu primeiro projeto colaborativo, que foi premiado como o prêmio com faixas que contam com o nome de três produtores. O álbum veio assinado pelo meu nome por interesses comerciais da Sony Music, na época, mas era uma coletânea porque eu não compus todas aquelas músicas. Boa parte dos artistas que participaram destes dois projetos acabaram participando do Sotaque Carregado. A própria banda do Sotaque Carregado vai me acompanhar agora num festival de inverno.

Você lançou seu primeiro trabalho autoral em 2012, mas há 13 anos já era reconhecido como o DJ Mam. Rola dizer quais foram os maiores perregues que você já passou na sua carreira artística?
Já tiveram casos de humilhação, de perrengues de grana, dúvida se esse era o caminho certo. Eu acho que os [casos] de humilhação foram os piores, foram em eventos que me ridicularizaram tanto pelo meu figurino, quanto pela minha música. Isso aconteceu uma vez no Brasil e uma vez na Europa. Uma vez numa casa noturna do Leblon gritaram para eu tirar "essa música de macumba" e foi no mesmo dia que o Seu Jorge tinha ido me ver tocar. Outra vez, num grande evento, um DJ chegou para mim, na frente do palco, e fez o sinal de negativo quando eu estava tocando tecnobrega. Fui censurado de tocar aquilo no evento, e depois esse cara foi até o camarim e afrontou a mim e a minha esposa. Foi um dos momentos mais tristes da minha carreira, porque eu vi um brasileiro que não valorizava as suas raízes, que poderia estar somando com a gente e estava indo contra. Ele toca para um público brasileiro que se consumisse o que é nosso, seria muito bom para nós. Eu também já toquei para um público extremamente agressivo, muito fechado às novidades.

O DJ MAM está no Facebook // Soundcloud // Twitter

A música "Iemanjá Carioca" conta com as participações de representantes da música black dos anos 70, tanto da Nigéria, quanto do Rio. Como você vê o símbolo de Iemanjá — entidade dessas duas culturas — nessa faixa?
Essa é uma música que fala sobre a preservação do Rio Carioca, que está muito poluído, mesmo o Rio sendo a sede das Olimpíadas, no ano que vem. Então para produzir essa música eu criei o mito da Iemanjá Carioca, para proteger o rio, tentar fazer com que o respeito viesse além das questões da sustentabilidade, mas também porque o brasileiro é um povo muito religioso. Quem sabe, se o rio se transformando numa divindade, pelo menos os povos afrodescendentes comecem a proteger, porque todas as forças da natureza são divindades. A Iemanjá Carioca representa o encontro do Rio Carioca com a Baía da Guanabara. Eu canto o nome de sete Iemanjás na música e fiz a faixa na estética do afrobeat, que foi o ritmo que o Fela Kuti junto com o Tony Allen criaram para defender as suas posições políticas na Nigéria da década de 70. É por isso que eu uso uma música de resistência dos anos 70 como a base da versão original, é o meu ativismo. Aí eu trouxe o Oghene Kologbo, o guitarrista que acompanhava o Fela Kuti e que tocou com o Tony durante muito tempo, para remixar a música. Isso eu trouxe do "Estudando o Som", e aprendi com o Yuka, de conscientizar através da música.

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Além de dividir com o Marcelinho da Lua o Prêmio Noite Rio de 2012 e de 2014 de melhor DJ de MPB, a sua apresentação no Réveillon de Copacabana bateu recorde de público ao reunir dois milhões de pessoas. Levando em conta todo o seu prestígio nacional e internacional, como você analisa a sua carreira hoje?
Em 2012 a gente dividiu o prêmio, em 2013 o Marcelinho ganhou e em 2014, eu ganhei. Então, considero que a gente continua dividindo o prêmio. Avalio a minha carreira como sendo de sucesso, mas foi só nas últimas 48 horas que eu consegui entender o que é o sucesso. Eu acho que o sucesso não é medido pela quantidade de pessoas para quem você toca, nem pelo número de entrevistas que você dá, o sucesso vem quando você sente o carinho e a reunião das pessoas para fazer algo acontecer, o trabalho que você propôs. Devo o meu sucesso desde aos amigos que ofereceram a casa para eu ficar até aos que produziram música comigo. Tanto no Sotaque Carregado, quanto no Sotaque Recarregado eu devo meu sucesso aos 57 artistas que ajudaram a compor o projeto.

No **Sotaque Recarregado *a gente encontra desde tecnobrega até um samba reggae com dubstep, mas para você, qual som que tem mais a cara do Brasil?***
A gente só tem a perder ao querer falar. A cara do Brasil é a mistura, eu não consigo definir um estilo para representar o Brasil, assim como eu não consigo escolher uma música apenas que represente o álbum todo. Eu acho que o que conta aí é a diversidade, a nossa diferença é essa, esse é o nosso lance, mostrar que é possível conviver com as diferenças e a graça da coisa é justamente isso, a diferença.

A cara do Brasil é a mistura. O nosso lance é mostrar que é possível conviver com as diferenças e a graça da coisa é justamente isso, a diferença.

Como a vivência dos projetos **Brazilian Lounge *e* **Estudando o Som *contribuíram com esse novo momento da sua carreira?*
O "Brazilian Louge" foi uma escola de produção e superação musical para mim, porque eu toco desde 1983, quando fiz a minha primeira composição. Mas como DJ, toco desde 1989, e fui assumir só em 2012, quando lancei o álbum Brazilian Lounge. Esse trabalho contou com dois produtores musicais da pesada, o Davi Villefort e o Rodrigo Sha, que também ganhou no ano passado o Prêmio da Música Eletrônica Brasileira. O Brazilian foi o meu primeiro projeto colaborativo, que foi premiado como o prêmio com faixas que contam com o nome de três produtores. O álbum veio assinado pelo meu nome por interesses comerciais da Sony Music, na época, mas era uma coletânea porque eu não compus todas aquelas músicas. Boa parte dos artistas que participaram destes dois projetos acabaram participando do Sotaque Carregado. A própria banda do Sotaque Carregado vai me acompanhar agora num festival de inverno.

Você lançou seu primeiro trabalho autoral em 2012, mas há 13 anos já era reconhecido como o DJ Mam. Rola dizer quais foram os maiores perregues que você já passou na sua carreira artística?
Já tiveram casos de humilhação, de perrengues de grana, dúvida se esse era o caminho certo. Eu acho que os [casos] de humilhação foram os piores, foram em eventos que me ridicularizaram tanto pelo meu figurino, quanto pela minha música. Isso aconteceu uma vez no Brasil e uma vez na Europa. Uma vez numa casa noturna do Leblon gritaram para eu tirar "essa música de macumba" e foi no mesmo dia que o Seu Jorge tinha ido me ver tocar. Outra vez, num grande evento, um DJ chegou para mim, na frente do palco, e fez o sinal de negativo quando eu estava tocando tecnobrega. Fui censurado de tocar aquilo no evento, e depois esse cara foi até o camarim e afrontou a mim e a minha esposa. Foi um dos momentos mais tristes da minha carreira, porque eu vi um brasileiro que não valorizava as suas raízes, que poderia estar somando com a gente e estava indo contra. Ele toca para um público brasileiro que se consumisse o que é nosso, seria muito bom para nós. Eu também já toquei para um público extremamente agressivo, muito fechado às novidades.

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