Sexo

História resumida do bondage japonês

O kinbaku, também conhecido como shibari, é considerado a última moda no universo BDSM. No entanto, a prática desta arte erótica é centenária.

Por Marnie Sehayek
12 Abril 2017, 9:35am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Creators.

Cordas esticadas, tranças complexas e nós que confundiriam até o melhor dos marinheiros são a base da arte do kinbaku, ou shibari, a que muitos também chamam bondage japonês erótico. A prática, que incorpora aspectos de escultura, performance e pas de deux, caiu nas boas graças de artistas e figura, hoje, no mainstream, através de revistas de moda e galerias de arte. A prova definitiva da sua popularidade está no Instagram. Ao procurar por #kinbaku, deparamo-nos com mais de 60 mil fotos.

Para os "marinheiros de primeira viagem<2, o kinbaku pode até ser a última moda pop em BDSM. Para os estudiosos, porém, é uma tradição antiquíssima, que atravessou séculos e séculos antes de se infiltrar pelas redes sociais. Antecedentes históricos incluem representações na arte shunga, gravuras eróticas japonesas que já serviram de educação sexual para recém-casados e na versão japonesa do Kama Sutra, o Shijuhatte.

A ilustração O Sonho da Mulher do Pescador, de Katsushika Hokusai, é uma referência icónica à arte erótica com cordas - a xilogravura ao estilo ukiyo-e retrata o êxtase de uma mulher possuída por polvos, cujos tentáculos entrelaçam o seu corpo e provocam-na como se fossem uma corda.

O Sonho da Mulher do Pescador, 1814 © Katsushika Hokusai

Assim como já aconteceu com ferramentas ocidentais de repressão, a corda tornou-se objecto de fetiche. As correntes de metal usadas para prender donzelas em perigo nos contos de fadas ocidentais, podem ser comparadas com a corda que reprime prisioneiros no folclore japonês.

Num livro sobre o tema, The Beauty of Kinbaku, o autor e professor Mestre "K" conta que o shibari - termo abrangente para amarração através de cordas - já exerceu uma miríade de funções práticas e decorativas ao longo da história do Japão, tanto em oferendas espirituais do xintoísmo, como em práticas de sumo e quimonos tradicionais, por exemplo. A utilização em práticas eróticas é apenas mais uma aplicação da corda. Uma ferramenta indissociável da própria cultura japonesa.


Vê também: "O mundo do Shibari em Espanha"


Durante o período Edo, era feudal, a classe samurai dominante usava a corda em combate para conter prisioneiros de guerra, como parte de uma arte marcial chamada hojojutsu. Uma prática brutal, bastante diferente do kinbaku de hoje. Na época, do século XVII ao século XIX, as leis penais de Tokugawa permitiam o recurso a nós para torturar e extrair confissões de prisioneiros e expor supostos criminosos. Havia uma punição pública específica para cada crime e a corda usada para aplicá-la servia de advertência simbólica para os curiosos de plantão.

No começo do século XX, o teatro kabuki começou a incorporar nós de cordas a performances estilizadas, apresentando as primeiras versões da prática que hoje é conhecida como kinbaku. A técnica de hojojutsu foi reimaginada, para que actores pudessem reencenar os movimentos nos palcos em segurança e reformulada para representar uma estética mais ousada, oferecendo à plateia uma experiência visual distinta.

Esta ilustração icónica, "10 Mulheres Amarradas", de Kita Reiko, foi publicada na revista Kitan Club, em 1952. A edição foi um sucesso de vendas, o que levou a revista a enveredar pelo caminho do SM. Cortesia Mestre "K"

Depois da Segunda Guerra Mundial, revistas de fetiche das duas margens do Oceano Pacífico passaram a ostentar ilustrações provocantes e, mais tarde, fotos de kinbaku. Revistas populares como a Kitan Club e a Uramado cederam o seu lugar aos pilares do movimento underground americano, como a publicação Bizarre, abrindo alas para o cruzamento de duas culturas fetichistas globais, uma história ainda em curso.

Para o olhar leigo, o kinbaku actual não parece muito diferente das suas raízes, assente em tortura, mas os praticantes não hesitam em louvar os seus prazeres e virtudes, em que parceiros submissos alcançam um estado meditativo profundamente terapêutico. Ou seja, tal como muitos entusiastas do BDSM, os praticantes encontram uma forma de libertação no bondage. "Feito da forma correcta, o kinbaku não dói nada. É estritamente sensual", explica Mestre "K" numa entrevista. "É possível que saias de uma sessão de kinbaku tão relaxado, como de uma aula de hot yoga", diz, ao descrever como as técnicas estimulam zonas erógenas, libertando endorfinas e dopamina no cérebro.

Apesar de oferecer sessões particulares a um punhado de clientes selectos, Mestre "K" conta que se afastou um pouco da cena kinbaku por causa da recente popularidade. Assim como boa parte da velha guarda, ele desconfia do ethos DIY e da comunidade BDSM pós-Cinquenta Sombras de Grey. Entre seguidores de YouTube e workshosps de supostos mestres, deixa claro que a técnica exige um estudo rigoroso, muito além do tempo livre de um hipster, ou de um curso de fim-de-semana. "Nos Estados Unidos, a tendência é pagar cinco dólares e querer transformar-se em especialista em duas semanas. Isto não é para qualquer um, não é possível para praticar sem estudos e reflexões sérias", garante, comparando amarradores auto-didactas a dentistas auto-didactas.

Nos anos 50, o editor da revista "Bizarre", John Willie, ficou encantado pelo kinbaku depois de receber recortes sobre o tema de um correspondente no Japão e passou a incorporar a prática nas suas fotografias BDSM. As interpretações de Willie também foram disseminadas no Japão, onde exerceram bastante influência. © John Willie, Cortesia da editora Bélier Press

O especialista realça ainda que o kinbaku é uma prática em que um amarrador "[assume] uma responsabilidade tremenda sobre [um] parceiro" e que o "kinbaku é, acima de tudo, uma questão de comunicação, empatia e profunda compreensão, antes de qualquer técnica ser aplicada".

Além de saber anatomia básica e a localização dos centros nervosos, isso significa preocupar-se com o estado físico e psicológico do outro, como, por exemplo, perguntar se o parceiro submisso está a tomar alguma medicação, ou se já sofreu lesões com a prática. Só então, e isso é muito importante, é que um amarrador saberá ajustar as técnicas para tratar de necessidades particulares.

Mestre "K" diz que, apesar de tudo, está feliz por ver o kinbaku ganhar fama. "Espero que seja valorizado pelos motivos certos... É muito empoderador reconhecerem o kinbaku por isso, em vez de etiquetarem a prática como uma mera actividade misógina".


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