Viagens

Comer como o Conde Drácula na Transilvânia

Carne, carne e um pouco mais de carne... além de um molho vermelho picante e uma cerveja sangrenta.

Por Aaron Kase
29 Março 2017, 2:01pm

Imagem principal: o Castelo de Bran serviu de inspiração para a casa de Drácula, no romance de Bram Stoker. Todas as fotos por Ada Kase.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Munchies.

Drácula de Bram Stoker começa, de uma forma bastante inocente, com um frango temperado com colorau. O advogado britânico Jonathan Harker, na sua viagem pelo Leste Europeu para encontrar o Conde, pára num hotel em Cluj Napoca, Transilvânia. "Ao jantar, ou melhor, ceia, comi um frango preparado com pimentão vermelho, muito saboroso, mas que me deixou com sede", escreve o advogado no seu diário, com uma anotação para o lembrar de tentar conseguir a receita para passar à sua noiva.

Apesar de Stoker nunca ter visitado a região, então parte do Reino da Hungria, as suas escolhas culinárias faziam sentido. A paprica, ou colorau, feita com pimentão seco e moído, é o tempero nacional da Hungria e os pratos de carne bem temperados com o pó vermelho são a base da cozinha nas casas e restaurantes do país.

Um busto de Vlad, o Empalador, em Sighisoara, Roménia. Todas as fotos por Ada Kase

A partir daí o livro torna-se mais sangrento. É quando descobrimos que, a única coisa em comum que o prato preferido de Drácula tem com a paprica é a cor. E a sua ceia preferida, claro, geralmente não está disponível - ou é desejada sequer - para humanos. Mesmo aqueles com o paladar mais aventureiro. No entanto, hoje em dia, podes experimentar algo nesta linha nos restaurantes na Transilvânia, hoje parte da Roménia, que fornecem opções inspiradas no famoso vampiro para pessoas que seguem o rasto da lenda de Drácula.

O lugar ideal para começar a jornada é Sighisoara, uma cidadezinha no interior do país. Sighisoara apresenta um centro medieval elegante e bem preservado, que inclui antigas igrejas, torres, ameias e uma casa que, reza a história, teria sido o local de nascimento de Vlad, o Empalador. Vlad era o governante de uma parte da Roménia conhecido na época como Valáquia e ganhou notoriedade com campanhas brutais contra os invasores turcos otomanos e outros inimigos, incluindo empalar em público os adversários caídos, como um alerta para outros que ousassem desafiar a sua posição.

Guisado Drácula, a fluir entre dois montes de polenta.

Num aparte histórico, a paprica só chegou à Hungria mais ou menos um século depois dos dias de Vlad, pelas mãos dos mesmos turcos contra os quais ele lutou. Pode-se dizer que as suas forças deram a vida para manter o condimento longe da Europa. 

Bem, indo mais ao fulcro da questão, o Empalador também era conhecido como Vlad Drácula e, mesmo que nunca tenha sido acusado de canibalismo, acabou por emprestar o seu nome e reputação de selvajaria à criatura de Stoker.

Uma refeição típica romena, com carneiro, batata e vegetais em conserva.

A ligação é celebrada na sua cidade natal, que hoje conta com o Restaurante Casa Vlad Dracul, com um menu temático. O que significa isso na prática? Carne, carne e um pouco mais de carne. A cozinha prepara guisado Drácula, frango Drácula, bife Drácula, camarão Drácula e assim por diante, geralmente acompanhados de um molho vermelho picante. 

Quem estiver muito esfomeado pode pedir o jantar Drácula, um mix de cinco tipos de carne, servido com batata e picles. Tendo em conta que os vampiros bebem o sangue para roubar a energia vital das vítimas, comer a carne de animais mortos não é assim tão diferente. Para ser sincero, o cardápio não era muito diferente do da maioria dos restaurantes na Roménia.

A salada do restaurante Drácula vem carregadinha de prosciutto.

Pedi o guisado Drácula, que se limitava à linguiça e ao frango, servidos entre dois montes de polenta. A minha mulher, que prefere não comer produtos de origem animal, pediu a salada da casa, a pensar que era uma escolha segura. Para confirmar, perguntou ao empregado se a salada não vinha com queijo. E, de facto, não tinha nenhum laticínio...vinha era com uma porção generosa de prosciutto.

Para beber, perdi a cerveja Drácula. O empregado de mesa informou-me que não tinham nada desse género. Tinham um vinho Drácula no menu, mas só era vendido à garrafa e não queria embebedar-me ao almoço. Pedi um jarrinho do tinto da casa, um substituto perfeitamente aceitável. Tinham também cocktails temáticos - o Beijo de Drácula e o Sonho de Drácula - e um café Drácula.

O restaurante Casa Vlad Dracul, supostamente onde Vlad, o Empalador, nasceu.

Depois de renovarem as suas forças, os viajantes podem pagar uma pequena taxa para visitar o quarto, no segundo andar, onde Vlad supostamente nasceu. Os proprietários optaram por uma abordagem estilo casa assombrada. Entras num espaço escuro e descobres um homem a levantar-se de um caixão no chão. Charmoso.

Mais momentos da "Drácula Tour" podem ser encontrados na cidade de Bran, a sul de Sighisoara, numa zona mais montanhosa da Transilvânia. A cidade é dominada por um castelo imponente, que se levanta a partir de um penhasco rochoso. Apesar de o castelo não ter nenhuma ligação conhecida a Vlad, o Empalador, erviu de modelo para o lar de Drácula no romance, com o penhasco a agir como um dispositivo do enredo que ajuda a manter o jovem advogado britânico prisioneiro.

Cerveja Drácula em Bran. A cor não ficou muito convincente.

Na base do penhasco, na localidade vendem-se todo o tipo de lembranças e há "cordas" de linguiça penduradas nas barraquinhas de comida, para tentarem os turistas. E, dentro de um pequeno restaurante, finalmente encontrei a elusiva cerveja Drácula. 

Achei que seria apenas uma pilsen normal, com corante alimentar vermelho, mas os cervejeiros foram mais além. A cor vem de um tipo de xarope, o que torna a bebida mais grossa e muito doce. A opção para vampiros vegans, se for essa a vossa preferência. Só fica a faltar um pouco de sal e ferro para termos uma verdadeira cópia da refeição favorita de Drácula.