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análise

Um estudo de como Dave Chappelle não está manjando 2017

Foi algo que pensei que nunca ia ver: Dave Chappelle baixando o nível.

Ilustração no topo por Ashley Goodall.

Esta matéria foi originalmente publicada originalmente na VICE UK .

Semana passada no CBS Mornings, o comediante norte-americano Dave Chappelle usou uma analogia da natureza para explicar por que recusou um contrato de $50 milhões com o Comedy Central. Ele explicou como os aborígenes africanos caçavam babuínos usando armadilhas de sal: o babuíno pega o sal, mas não consegue tirar a mão fechada de dentro da cumbuca. "Nessa analogia, me sinto como o babuíno", Chappelle disse à apresentadora Gayle King, "mas fui esperto o suficiente para largar o sal".

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Quando Chappelle abandonou o Chappelle's Show em 2004, largando a terceira temporada da aclamada série, ele se tornou um mito. Meio que um Ulisses da comédia, viajando para outras praias, aparecendo em noites com o microfone em punho, em shows e festivais como um Incrível Hulk itinerante — deixando nada além de espanto e risadas pelo caminho.

E agora Chappelle está oficialmente de volta. Em 2016 ele assinou um contrato de $60 milhões com a Netflix para produzir três especiais de comédia por $20 milhões cada. Dois especiais, Deep in the Heart of Texas e The Age of Spin, foram lançados pela plataforma de streaming semana passada. Eles marcam o fim de Chappelle como um mito, e o começo de sua tentativa de reconquistar relevância no mundo contemporâneo.

Dave Chappelle é minha maior influência como comediante de standup. Seus clássicos Killin Them Softly (2000) e For What It's Worth (2004) são as coisas mais próximas que tenho de textos sagrados. Ver ele ao vivo era meu maior sonho. Quase tive um aneurisma quando anunciaram que ele viria para Perth, na Austrália, em 2014, e entrei no vermelho para comprar os ingressos para o show. Ele estava tão engraçado naquela noite que só de lembrar minhas costelas doem pela memória muscular das risadas. O assisti de novo mais tarde naquele ano no Oddball Comedy Festival em Irvine, na Califórnia. Ele era a atração surpresa de um lineup com Jeff Ross, Marc Maron, Aziz Ansari e Louis C.K. Chappelle foi mais engraçado que todos eles juntos.

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Então acredite quando digo que amo Dave Chappelle. E acredite quando digo que essa espera da 13 anos para vê-lo em ação pareceu uma eternidade — e acredite quando digo que me desapontei com esses dois primeiros especiais.

A genialidade de Chappele sempre foi sua habilidade de elevar conteúdo cômico ordinário com sua forma eletricamente brilhante. Ele tem um timing no ápice da tradição cômica. Chappelle sempre cita Pernalonga como sua principal influência, e nos especiais antigos, você não consegue deixar de notar a duplicação do coelho na estrutura magrela de Chappelle, fora os movimentos desengonçados e as trocas de voz. Em suas piadas sobre o gueto, Chappelle criar um mundo rico de vinhetas e personagens surreais, como sua imitação quase perfeita de alguém abaixando a janela do carro e a aproximação de um bebê de olhos vazios vendendo maconha às 3 da madrugada.

Mas o tempo mudou a apresentação de Chappelle, apagando aquele aspecto físico. Ele está maior, e sua estrutura de adolescente se foi — ele está bombado. Chappelle agora se move e fala como se fosse um sábio tentando convencer seus seguidores de que eles são todos tolos. É a diferença entre Chambers of Shaolin e Liquid Swords. Ele ainda cutuca as hipocrisias na fundação dos EUA com golpes verbais afiados dignos de seu personagem Silky Johnson. Como quando ele está falando sobre os veteranos da Segunda Guerra mundial voltando para casa: "É muito difícil voltar para os EUA e sentar no fundo do ônibus depois que você esteve no sul da França, ganhando um boquete em troca de uma barra de chocolate".

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O brilho da base ainda está lá, mas as engrenagens mudaram. Chappelle voltou de suas viagens como um guerreiro cansado de outra era. Ele está sofrendo para acompanhar a cultura moderna, e o que é polêmico e o que é cruel. Chappelle sempre cortejou a polêmica. Ele era mestre em pegar um tabu, reiterá-lo, guiá-lo até certo ponto, virar o significado do avesso e executá-lo com um tiro na nuca — de um jeito hilário.

O maior exemplo disso é sua piada "Quão velha é uma pessoa de 15 anos?" do For What It's Worth. Chappelle começa falando do caso em que R. Kelly urinou numa vítima de 15 anos. "Quão velha é uma pessoa de 15 anos?" Ele diz que velha o suficiente para saber que você não quer ser mijada. É um ponto de mau gosto para risadas baratas: "Se um homem não pode mijar nos seus fãs, eu não quero mais estar no showbiz". Mas Chappelle continua: "Bom, os EUA precisam decidir", e lança uma história sobre um "garoto negro de 15 anos da Flórida" que foi acusado de homicídio por acidentalmente matar o vizinho numa brincadeira de luta no seu quintal. "Agora, ele era uma criança?", Chappelle pergunta. "Não! Eles sempre julgam nossos filhos como adultos… se você acha que é OK dar prisão perpétua para ele, então deveria ser legal mijar nele também."

O arco dessa rotina se distorce em muitas iscas, reviravoltas, autodepreciação, piadas básicas de mijo e verdades dolorosas. É um exemplo perfeito de Chappelle. Um início barroco, tangente, terminando num pouso impossível de mestre. Eu esperava algo assim em um dos novos especiais.

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Ouvir Chappelle dizendo "traveco" em 2017 é tão desconfortavelmente datado quanto Murphy gritando "bicha" em 1987.

Mesmo quando Chappelle começou com piadas trans e homofóbicas nos novos especiais, me vi fazendo ginásticas mentais. "Agora vem uma reviravolta." Quando essa reviravolta nunca chegava, o nerd de comédia em mim recapitulava a história da interseccionalidade de identidades queer e standup negro — da homofobia clara de Eddie Murphy e (no começo) Chris Rock, até a complexa bissexualidade performática de Richard Pryor. Ouvir Chappelle dizendo "traveco" em 2017 é tão desconfortavelmente datado quanto Murphy gritando "bicha" em 1987. Há camadas da complexidade na narrativa da identidade masculina negra que eu — como um australiano branco — não posso nem começar a descascar. Mas como fã desses comediantes, e também como um comediante, eu sei do seguinte: se você começar a pensar como um acadêmico durante um especial de comédia, alguma coisa está errada.

Uma piada sobre um "traveco" deixando o pinto aparecer me fez revirar os olhos. A piada sobre pessoas trans "enganando" homens para transar com elas me deixou realmente chateado e confuso. Novamente, eu estava esperando momentos "foda-se, cara, tenho filhos pra sustentar" de seus antigos arcos sobre o gueto. Mas isso nunca veio. As piadas eram maldosas, preguiçosas. Foi algo que pensei que nunca ia ver: Dave Chappelle baixando o nível.

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Um trecho recente do especial da Netflix.

O frenético Pernalonga do Looney Tunes virou o Pernalonga "estou velho demais pra isso" do Space Jam. A excentricidade espasmódica da performance de Chappelle desapareceu, junto com sua figura magra. E a transformação do pequeno fanfarrão num homem sábio torna a tosquice do material transfóbico de Chappelle ainda mais amarga. Mas não sei se o jovem Chappelle de Killin Them Softly poderia ter pego essas fobias e as tornado autorreflexivas, mais atuais ou críticas da cultura em geral.

O que fica claro com esses dois especiais é que Chappelle está muito cansado das políticas de 2017 — como a atmosfera política afeta o que um comediante pode ou não dizer. Talvez Chappelle sinta esse choque mais profundamente que os outros comediantes, já que estava praticamente livre de críticas ao seu trabalho nos últimos 13 anos. Chappelle's Show é uma maravilha intocável da comédia do século 21: congelado no tempo junto com as frases de efeito que Chappelle repele tão visceralmente agora.

Mas quanto tempo é realmente 13 anos? Enterrado nesses especiais desiguais está o fato honesto de que Dave Chappelle pode ser o maior comediante de sua geração, talvez até da história. Como artista, ele é um dos poucos comediantes standup que podem ser chamados de gênio. Nesses especiais, esse gênio está cercado de estática — o Chappelle que alcançou um sucesso incrível em 2004, o ermitão dos anos intermediários, e o colosso ressurreto trazido de volta por arautos devotados como eu para o show de horrores do presente. Não quero ver Dave Chappelle e pensar em Buck Nasty: "O que eu posso dizer sobre esse terno que não foi dito sobre o Afeganistão? Parece que ele foi bombardeado e exaurido".

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Ele voltou do exílio para descobrir que o mundo seguiu em frente em sua ausência. O herói de uma Odisseia volta para casa, surpreso que sua esposa tenha seguido com a vida, e só é reconhecido por seu cachorro mais fiel. Ele não pode dar um tapa, e quando alguém o estapeia de volta, pergunta: "Por que me bate, Charlie Murphy?" Você não pode ser simultaneamente interlocutor, intruso e intérprete da selvageria moderna, enquanto exige ser imune a ela. Jogar o jogo assim seria a derrota de Dave Chappelle, o campeão subversivo do humor. Ele é Charlie Murphy subestimando a proeza no basquete de um Prince de salto alto. Murphy não era o herói ou o vencedor daquele esquete: era o jogo, blusas.

Tudo isso me fez pensar por que me identifiquei tanto com Dave Chappelle quando era um moleque branco de 13 anos de Perth, Austrália. Não só eu, mas muitos como eu. Chappelle fez turnê na Austrália com ingressos esgotados porque, claro, ele é hilário. Mas para aqueles de nós que ainda recitam suas antigas tiradas, como as gerações passadas recitavam dramaturgos britânicos, T.S. Elliot ou Seinfeld, tem algo mais aí. Chappelle era um Pernalonga dando um beijo molhado na era opressiva do conservadorismo Bush-Howard. Ele era um pequeno nerd mostrando o dedo do meio para todo mundo com precisão cirúrgica. Ele podia fazer Bill Clinton rir dizendo "venha aqui, bebê crioulo". Ele dizia muito apenas reencenando dois passageiros negros fazendo joia um para o outro num avião sequestrado, ou te fazer morrer de rir com a imagem surreal de uma viagem de limousine até o gueto às 3 da manhã.

Ainda consegui rir nesses novos especiais. Ainda acredito que Dave Chappelle é o maior. Ainda espero que o terceiro especial alcance Killin Them Softly, ou até minha própria experiência de vê-lo ao vivo. Mas porque Dave Chappelle é Dave Chappelle, e porque sou obcecado por ele desde que tinha 12 anos, não posso perdoar sua intolerância e, honestamente, sua mediocridade. Espero que ele rasgue sua túnica de cinismo mítico, e volte como o fanfarrão de resposta rápida que aceitava todos que chegavam, incluindo ele mesmo.

Até lá, Chappelle deveria ouvir o conselho que deu a si mesmo (e ao babuíno) e largar o sal.

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Tradução: Marina Schnoor

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