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O Egito Condenou Três Jornalistas a Prisão

Os jornalistas Peter Greste e Mohamed Fahmy receberam sentenças de sete anos sob acusação de conspirar com membros da Irmandade Muçulmana. Já Baher Mohamed pegou dez anos: três anos extras por posse de “munição”, uma cápsula de bala coletada do chão.

Baher Mohamed, Mohamed Fahmy e Peter Greste no tribunal em 1º de junho.

No momento em que o juiz anunciou que três jornalistas da Al Jazira devem passar os próximos sete anos ou mais na prisão, um suspiro audível do público foi ouvido pelo tribunal.

A mãe e a noiva de Mohamed Fahmy, um produtor canadense-egípcio, começaram a chorar. Quando elas e outros parentes dos acusados tentaram chegar à jaula onde os jornalistas estavam, a polícia os impediu.

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Visivelmente frustrado, Adel, irmão de Mohamed, saiu extremamente nervoso do tribunal. “Tudo está corrompido”, ele disse. “Tínhamos fé no sistema judicial, agora sabemos que não há esperança.”

Ultimamente, os juízes egípcios estão se mostrando propensos a tomar decisões extremas e mal explicadas, inclusive, espalhando sentenças de morte como se fossem confetes, mas ver uma farsa se desenrolar diante de seus olhos – e o veredito foi exatamente isso – continua sendo algo surpreendente.

Os três jornalistas foram condenados sob a acusação de conspirar com membros da Irmandade Muçulmana “para reunir material de mídia, manipulá-lo, produzir cenas fabricadas dos eventos no Egito e transmiti-las […] visando ajudar o grupo terrorista Irmandade Muçulmana a atingir seus objetivos”, de acordo com a declaração da Promotoria Pública.

Os jornalistas premiados Peter Greste e Mohamed Fahmy, que tinham trabalhado anteriormente para a BBC e CNN, respectivamente, receberam sentenças de sete anos. O colega deles, o produtor Baher Mohamed, pegou dez anos: três anos extras por posse de “munição”, isto é, uma cápsula de bala coletada do chão depois de uma manifestação, segundo a Al Jazira.

Na jaula ao lado estavam seis outros acusados de pertencer à Irmandade Muçulmana e conspirar com a Al Jazira. Dois deles – incluindo Anas Beltagy, filho do líder da Irmandade Mohammed Beltagy – foram, estranhamente, absolvidos. Os outros, junto com 11 acusados julgados à revelia, pegaram dez anos de cadeia.

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Antes de serem arrastados de suas jaulas, os seis acusados cantaram uma música tradicional da Irmandade: “Meu irmão, você está livre atrás das grades”, uma lembrança das décadas de jornada do grupo por prisões e delegacias do Egito.

No verão de 2012, parecia que essa jornada tinha chegado ao fim quando Mohamed Morsi, o candidato do grupo, ascendeu à presidência do Egito. Mas, um ano depois, um golpe militar liderado por Abdel Fattah al-Sisi, hoje o presidente eleito do país, o derrubou do poder direto nas garras da polícia e dos juízes egípcios mais uma vez.

Não há provas de que os jornalistas apoiaram a Irmandade. Na verdade, Fahmy não só marchou contra Morsi em 30 de junho do ano passado, o dia dos protestos que selaram o destino do ex-presidente. Ele também estava nas manifestações de 26 de junho, que “autorizaram” Sisi a lidar com o “terrorismo”, que significava, principalmente, a Irmandade. Agora, ele é arrastado pela mesma onda de sentimento anti-Irmandade e pró-segurança que impera no país nos últimos tempos.

Os jornalistas se tornaram peões de um conflito regional que se opõe à Irmandade Muçulmana e ao Catar, seu aliado político, contra as outras monarquias do Golfo, particularmente a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, e outras forças anti-Irmandade, incluindo o establishment egípcio.

“O veredito fornece mais evidências de que as autoridades egípcias não vão parar por nada sua campanha impiedosa para esmagar qualquer um que desafie a narrativa oficial, independente de quão questionáveis sejam as provas contra eles”, disse Philip Luther, da Anistia Internacional.

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Provas realmente questionáveis, sem dúvida.

Num tribunal inglês, os procuradores precisam apresentar um argumento “esqueleto”, que explica como as evidências e os testemunhos apresentados apoiam o veredito de culpado. No Egito, não existe tal exigência, e partes da “evidência” – fotografias e vídeos apreendidos no estúdio dos jornalistas – foram apresentadas, na maioria dos casos, sem nenhuma ideia clara da relação entre elas e as alegações de conspiração terrorista.

A corte assistiu a vídeos de cavalos e ovelhas em disparada, e viu uma fotografia antiga de um homem segurando uma arma. Eles assistiram a um vídeo de uma entrevista coletiva em Nairóbi, onde Greste trabalhava formalmente. A entrevista era em inglês, mas o juiz não falava inglês e não tinha um tradutor.

Numa sessão em 22 de maio, um videoclipe do cantor australiano Gotye foi apresentado. Durante a maior parte do julgamento, o juiz usou óculos escuros.

O cerne do caso da acusação devia ser que o material em vídeo tinha sido fabricado pelos acusados. No dia 1º de junho, o advogado de defesa Khaled Abu Bakr perguntou ao chefe do comitê técnico se o tribunal tinha pedido para examinar o conteúdo dos hard drives da equipe, ou se ele estava ciente de que algum vídeo específico teria sido manipulado para dar uma impressão falsa ou equivocada. Ele disse que não.

As inúmeras falhas do caso da acusação, e a libertação do colega de Al Jazira Abdullah al-Shamy por problemas de saúde na quarta-feira da semana retrasada, criou esperanças para os jornalistas e suas famílias. Al-Shamy ficou preso sem acusação formal por mais de dez meses e estava em greve de fome há quatro.

Para instigar a opinião pública contra os jornalistas, uma filmagem da prisão de dois deles em 29 de dezembro foi transmitida pelo canal nacional com trilha sonora do filme Thor: O Mundo Sombrio.

O veredito acabou com todas as esperanças dos jornalistas e suas famílias, e com as esperanças de liberdade imprensa e de expressão no Egito. Além disso, a cobertura do julgamento mostrou um pouco do mundo bizarro e caprichoso dos tribunais egípcios, um sistema que não só determina se uma pessoa está livre ou se passará a vida em celas lotadas, com direito a somente uma hora de exercício por dia; mas também se elas vivem ou morrem.

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Tradução: Marina Schnoor