O primeiro estúdio de tatuadores transgêneros não-binários no Brasil

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O primeiro estúdio de tatuadores transgêneros não-binários no Brasil

Nem homem, nem mulher.
5.5.16

Um sobrado antigo na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, acaba de abrir seu portão preto com ares coloniais para uma singularidade: o Inkat Tattoo, inaugurado no final de abril, é encabeçado por três tatuadores transgêneros não-binários. Para quem não manja dos bangs linguísticos da atualidade, decodificamos: transgênero é quem não se identifica com o gênero ao qual foi designado. "Não-binário é você não ser homem nem mulher, não estar dentro da binariedade que são esses dois lados, esses dois opostos", explica o tatuador Lune Carvalho, 18, que pede para ser tratado no masculino. A empreitada é inédita no Brasil. Não há nenhum estúdio do tipo – e, provavelmente, narizes transfóbicos hão de torcer.

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Sutiã, saia plissada, tênis surrado: o visual dos tatuadores pode até aturdir alguns clientes que desconhecem o assunto. "A maioria vê a gente como sapatão", resume Lune, sentado em cima da maca enquanto mexe em sua trancinha roxa. "Mas ninguém pergunta: 'você é trans?'."

O tatuador Lune Carvalho, 18. Foto: Felipe Larozza/ VICE

A proposta do lugar é acolher pessoas de todos os gêneros e sexualidades, principalmente LGBT. "Elas já sofrem o tempo todo lá fora. Por que sofrer aqui dentro também?", indaga o jovem tatuador. "É complicado. Pessoas trans são destratadas em qualquer lugar."

Através do Facebook e sem muitas pretensões, Lune começou a procurar outros tatuadores trans com a ideia de unir forças, mãos, máquinas e tintas para montar um estúdio. Ficou maravilhado quando descobriu que os outros dois* profissionais com quem passou a trocar mensagens também eram não-binários. "Eu não tinha nem amigo, nem conhecido não-binário", relembra. Um deles era Jesse Rother, 24, que, com o apoio financeiro e emocional do pai, conseguiu avançar com o projeto do Inkat Tattoo.

O tatuador Jesse Rothen, 24. Foto: Felipe Larozza/ VICE

"Ele que investiu no estúdio e me apoiou muito", relata, orgulhoso, Jesse. Inclusive, foi pela insistência do progenitor e do namorado que o tatuador começou na profissão. Fã de Egon Schiele e Leonardo da Vinci, cogitou trabalhar fazendo concept art de jogos, mas se deparou com um mercado complexo. Comprou uma máquina e aprendeu o ofício com uma tatuadora profissional. Fez a primeira tattoo em si mesmo. Hoje, a figura humana é sua principal paixão a ser demarcada na pele alheia. "Gosto de coisas mais soltas, mais orgânicas."

Jesse explica que seu gênero é fluido (da expressão genderfluid). "Tem dias em que me sinto mais masculino, em outros mais feminino. Mas eu sou eu. Uma pessoa", enfatiza, tímido.

O tatuador Be Mosken, 18, fazendo auto-tatuagem. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Com 18 anos e tatuando há quatro, Be Mosken completa o time do Inkat. Quando trabalhava em uma loja da Galeria do Rock, no centro de São Paulo, passou a desenhar para uma tatuadora do estúdio vizinho. Daí o estalo: por que não aprender? "Eu achava que tatuar era um negócio fora da realidade. Pessoal que vem da periferia sempre acha que tudo é fora de realidade e que vai trabalhar em telemarketing pro resto da vida", conta, aos risos.

Morador do Capão Redondo, ele relata os tempos difíceis vivendo no extremo-sul da cidade cinza, trabalhando durante a infância, morando em um sítio e depois em ocupações. Foi ainda criança que o fascínio por animais irrompeu. "Eu capturava os bichos do sítio, como aranha e cobra, pra colocar no vidro e desenhar. Sempre gostei de biologia. Ainda estou estudando pra passar na faculdade pública."

O estúdio Inkat Tattoo. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Terror e horror dos anos 60 também entram na lista. "É um estilo que tem muito a ver com o que desenho. Gosto muito do Creepshow, do Stephen King", justifica, referindo-se aos quadrinhos que viraram filmes na década de 80.

Sobre o "malabarismo" da vida trans, como o uso de pronomes, nome social, definições e, principalmente, o fato de ser não-binário, ele é enfático: "As pessoas nem sabem que existe". Entretanto, nada que aparentemente turbe ou tire o sono dos três tatuadores, que se zoam e se elogiam o tempo todo ("temos química", dizem entre um abraço e outro). Ali, o gênero é livre. Eles falam da infância, da dificuldade que é ser LGBT no mercado da tatuagem, cogitam comprar algo pra comer depois que a entrevista com a VICE acabar, se olham no espelho, arrumam o cabelo. Parecem felizes, flamejantes. "Era um sonho nosso ter um espaço sem gênero", sintetiza Be.

Os tatuadores Lune Carvalho, Be Mosken e Jesse Rother. Foto: Felipe Larozza/ VICE

No início da profissão, ele tatuava em sua própria casa e também se dirigia até os clientes. As experiências nem sempre foram boas, observa. "Várias vezes deu merda, do cara dar em cima de mim, passar mão. É uma insegurança. Quantas vezes eu já quis fazer tatuagem e não fiz porque não achei o clima legal, não achei as pessoas do estúdio muito confiáveis…", pontua. Por isso, acredita que além de o Inkat Tattoo servir como um lugar de confiança para LGBTs, pode também inspirar. "As pessoas transexuais são as que ocupam os piores empregos, os piores salários. Acho até legal a iniciativa do estúdio pra mostrar que elas podem correr atrás das coisas que querem fazer. E não só se ater a prostituição, telemarketing."

"Pra quem é da periferia, pra quem é transexual, LGBT em geral… é isso que é a apresentado pra gente", conclui. Antes de terminar a entrevista, Be resume os diversos objetivos do Inkat Tattoo e suspira: "Conseguimos. Então, vocês também conseguem".

*Perguntados sobre o uso do pronome, os tatuadores Jesse Rothen e Be Mosken disseram que poderia haver variações durante a entrevista. Porém, a VICE havia combinado previamente com ambos sobre o pronome que seria utilizado no texto, que, de acordo com suas vontades, poderia ser o masculino. Por isso o uso de "ele", "dele", etc.

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