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Ficar chapada durante toda a adolescência prejudicou de verdade minha vida

É verdade que a maconha não vai te dar câncer, mas para jovens que precisam de um escape, ela é uma ótima desculpa para se existir em piloto automático.
22.6.16
Eu todo dia quando tinha 16 anos. Foto por Jake Kivanç.

Matéria originalmente publicada na VICE Canadá.

Toda vez que ouço o argumento "pense nas crianças" em relação à proibição da maconha, suspiro involuntariamente de desprezo.

Em geral, a maconha é uma substância benigna, que se provou ser bem menos prejudicial que o álcool e o tabaco em termos de efeitos negativos para a saúde. Ainda assim, essas duas outras coisas são 100% legais e aceitáveis socialmente.

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Mas quando cruzo com alertas sobre o impacto da maconha em cérebros jovens, sempre acabou pensando na minha própria experiência.

Um estudo recente publicado no jornal científico Addiction acompanhou um grupo de estudantes por um período de sete anos, do ensino fundamental ao médio. A pesquisa descobriu que fumar maconha predizia "funcionamento acadêmico mais baixo, estar menos preparado para a escola, mais comportamento delinquente e menos saúde mental". Enquanto isso, uma pesquisa encomendada pelo governo australiano mostrou que fumar maconha na adolescência (aos 14 anos ou mais jovem) "está associado com notas significantemente mais baixas nas provas de entrada na faculdade, para aqueles que decidem fazê-las".

Mais pesquisas ainda precisam ser feitas nessa área, mas falando por mim, essas conclusões parecem plausíveis. Minha própria vida tem essa moral da história.

Quando criança, eu era uma aluna nota 10 — estrela do time de debate e duas vezes campeã do campeonato de trívia sobre o Catolicismo Romano. A única matéria em que eu não ia bem era educação física, isso porque eu não era muito atlética; eu geralmente mentia que tinha esquecido meu uniforme de ginástica para ficar na arquibancada lendo um livro em vez de jogar queimada.

A escola só para garotas que frequentei era extremamente seletiva e severa. Ela sempre ranqueava em primeiro nos relatórios do Fraser Institute que tudo mundo adora odiar — uma conquista que os administradores não deixavam as alunas esquecerem. As faixas penduradas nos corredores diziam literalmente "Escola número 1 da província" ou algo do gênero. Éramos inundadas com horas e horas de tarefa, e tínhamos exames obrigatórios várias vezes por ano para nos preparar para as provas de educação superior. Para garantir que eu estudasse para essas provas sem distrações, meus pais cortavam a TV a cabo semanas antes dos exames. Matar aula significava ter problemas sérios (e era algo praticamente desconhecido); usar esmalte de unha rendia detenção. Universidade era mencionada com a única opção para as alunas — "faculdade" era considerado um palavrão. A rigidez me cansava, e depois de dois anos, implorei para os meus pais me transferirem para uma escola pública local. Eles concordaram, achando que eu pegaria um lugar no programa avançado que a escola oferecia. Mas… não peguei.

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Em vez disso, por mais que pareça clichê, fiquei totalmente embriagada pela liberdade recém-descoberta. Entrei para uma escola com cinco vezes mais alunos por classe que a antiga. Os professores nem sabiam o seu nome, quanto mais se você tinha aparecido na aula. Logo eu tinha caído na balada, com maconha sendo minha droga preferida. Fiquei amiga de um colega de classe que também era nosso traficante, o que significava que acesso não era um problema. Logo eu estava matando aula para fumar no estacionamento, ou aparecendo na aula chapada. Comecei o último ano ainda tirando mais notas altas, mas enquanto a formatura se aproximava, a maioria das notas caiu pela metade. Meu orientador e professores imploravam para que eu assistisse as aulas, porque nesse ponto, eu matava uma aula por dia em média, mesmo ameaçada de não poder ir ao baile. Universidade foi se tornando algo cada vez mais longe do alcança. Mas eu não dava a mínima. Eu vivia numa névoa em que toda a motivação de me esforçar tinha se perdido e eu apenas vivia — e chapava — todo santo dia.

No final das contas, me formei mas não entrei para a universidade. Em vez disso, trabalhei num emprego de merda no Canadian Tire por um ano, contratada por meu amigo, um gerente que era o maior maconheiro que conheci. Continuei fumando maconha todo dia, enquanto ia me deprimindo com a monotonia do meu trabalho sem sentido.

O inferno desse período foi o suficiente para desencadear alguma coisa em mim, então me inscrevi e fui aceita num programa de jornalismo numa faculdade local. No primeiro dia, quando dissecávamos um artigo antigo de jornal que nem me lembro mais, uma ficha caiu dentro do meu cérebro, e percebi que estava no lugar certo. Depois de anos de completa indiferença, essa sensação foi um alívio — eu finalmente estava apaixonada por alguma coisa.

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Continuei fumando maconha às vezes — nesse ponto, eu já conseguia aproveitar coisas, como assistir um filme, sempre precisar fumar — mas não deixava mais isso atrapalhar meu trabalho.

Quanto à minha carreira, as coisas deram certo. Mas começar no jornalismo é difícil, e acho que ter um diploma universitário e as conexões que vêm com ele teriam me ajudado a conseguir algo mais cedo. Também sinto uma certa vergonha por nunca ter feito uma universidade. Fico imaginando como minha vida teria sido se eu não tivesse virado uma grande maconheira nos anos cruciais do colegial, se eu tivesse continuado andando na linha como sempre tinha feito. Talvez eu tivesse tido uma carreira incrível em semiótica, ou no mínimo conseguiria fingir indignação com mais classe no Twitter.

Aos 20 e poucos anos, parei totalmente com a maconha. Fumar não era mais divertido, geralmente me reduzindo a uma muda paranoica em situações sociais. Voltei a experimentar maconha ultimamente porque os dispensários tornam mais fácil saber que cepas você está comprando e que efeitos elas têm. Esse é um dos benefícios da legalização, além de dificultar o acesso dos menores de idade tirando o produto do mercado negro.

Seria injusto culpar a maconha por todos os meus problemas; claramente o ambiente em que cresci também era um fator. Mas dizer que a maconha é "inofensiva" é uma declaração que exige contexto. É verdade, ela não vai te dar câncer, mas para jovens que precisam de um escape, a maconha é uma boa desculpa para existir em piloto automático. Mas, bom, parece que isso deu certo para a Miley Cyrus.

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