De cada vez que falo sobre o 4chan sinto-me como o James Murphy ao longo da “Losing My Edge”: ando por lá desde 2004, tempo mais do que suficiente para ter assistido a toda a espécie de momentos épicos no que ao


diz respeito, desde dezenas de tipos a imitar a expressão facial da saudosa Terry Schiavo, passando pelas invasões ao Habbo Hotel e até pelas Igrejas da Cientologia até à morte do pai da não menos saudosa Jessi Slaughter. Sim, estive lá em todos esses momentos, gargalhei em demasia com diversas threads oriundas daquele que é, coloquialmente, rotulado de olho-do-cu-da-internet e senti que, a pouco e pouco, me tornava numa pior pessoa por já estar imune a todo o gore a que fui sujeito. Uma Laranja Mecânica ao contrário, portanto.
E esta semana, que tem sido gloriosa para o maravilhoso mundo da internet, entre a nova Casa dos Segredos, o estado do Sporting e a nova canção do David Bowie, o site-cujo-nome-não-pode-ser-pronunciado voltou a gerar parangonas em tudo o que é publicação online quando decidiu pegar em algo tão inócuo como o Justin Bieber a fumar uma ganza e transformá-lo num momento grandioso de schadenfreude. Durante a passada segunda-feira, o Twitter foi bombardeado com a tag#cut4bieber, entre outras variantes. Essencialmente um apelo — falso, evidentemente — feito às fãs do Bieber para que cortassem os pulsos até que o anjinho canadiano decidisse largar as drogas. O resultado? Milhares de pessoas indignadas com a estupidez do mundo e das crianças (nomeadamente as que não perceberam que isto era um embuste), algumas revoltadas porque achavam que se estava a troçar de quem tem realmente problemas de auto-mutilação — incluindo a Miley Cyrus — e alguns belos e salutares sorrisos, tanto entre quem estava por dentro da partida, como entre quem não levou nada daquilo a sério, como os tipos que se puseram a cortar mechas de cabelo ou fatias de presunto em homenagem ao Justin.
Poder-se-iam extrair diversas conclusões acerca desta partida. Até porque impele a uma discussão séria e interessante: estaremos a ficar mais ingénuos devido à internet? Embora haja imensos estereótipos sobre as fãs do Justin Bieber (e alguns “os”), é difícil acreditar seriamente que alguma delas se entristecesse tanto com um charro na mão do miúdo que se quisesse matar — e existem imensas fãs loucas do cérebro/ por ele. A maioria das reacções à partida partiu de gente estupefacta com algumas das imagens (naturalmente, retiradas do contexto) que foram aparecendo e, prontamente, denunciando toda a geração Z pela sua estupidez. O Twitter possibilitou que a informação se propagasse a uma velocidade incrível, mas a que preço? Já não existe um centro de análise ou semelhante, algo que verifique a veracidade de um determinado acontecimento. E como ainda passaram algumas horas até que alguém denunciasse a partida, muita gente houve que aproveitou para dar azo a todo o seu etaísmo.
Claro que a única conclusão que interessa retirar é a de que uma multidão anónima é capaz de grandes coisas, boas ou más. Ter enganado meio mundo desta maneira com apenas dez letras e um cardinal é sinónimo de genialidade — ao passo que o semi-estado de anarquia que então se desenrolou, ao ponto de publicações de cariz mais “jornalístico” terem noticiado o acontecimento, é das coisas mais punk dos últimos tempos, tempos em que o punk é uma palavra que já não quer dizer absolutamente nada, excepto fazer com que um miúdo de 11 anos se sinta rebelde por ir ver os Green Day ao Alive!. Mesmo com o influxo de imbecis que, de há uns anos para cá, tem contaminado cada uma das boards, o 4chan continua a ser um monstro terrível. E o mais provável é que eu agora esteja igualmente marcado por ter tido a audácia de o descrever. Espero que as fotografias comprometedoras que me tiraram na festa da Coronado se mantenham a salvo das garras dos Anónimos.



