Drogas

Sou de de classe média e fui mula do tráfico internacional de drogas

“Eu provavelmente deveria estar com medo, mas não estava.”
17.3.20
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Foto: BENOIT DOPPAGNE/AFP via Getty Images.

Harry* não é o tipo de pessoa que vem à mente quando você imagina uma mula do tráfico de drogas. Para começar, ele é um estudante de 21 anos de classe média de uma família amorosa do oeste da Inglaterra. Ele passou a infância construindo esconderijos na floresta.

Mas, depois de um vício de cocaína que foi crescendo e de conhecer um traficante de Gâmbia na Itália, ele acabou contrabandeando cannabis e MDMA pelas fronteiras de oito países da Europa, de uma casa segura na Espanha, através de avião ou balsa para França, Suécia, Leste Europeu e Escandinávia, até ser pego com 12 quilos de maconha e passar quase seis meses numa prisão polonesa. Agora Harry voltou ao Reino Unido e largou o mundo das drogas de vez, ele diz.

Me encontrei com ele no vilarejo onde ele mora agora com a família para conhecer suas estranhas aventuras como uma mula do tráfico “limpa”.

Como tudo começou?

Fui para Roma nas férias ano passado, quando eu tinha 20 anos, e acabei preso lá sem dinheiro e sem ter como voltar pra casa. Isso porque eu tinha um problema com cocaína, que é cara, então acabei gastando o dinheiro da passagem de volta.

Eu estava dormindo na rua e roubando comida de mercados como o Oliver Twist. Aí conheci esse cara da África Ocidental num bar e viramos amigos. Expliquei minha situação, e ele perguntou se eu queria ficar na casa dele. Ele tinha me dito antes que tinha “contatos” que pagavam bem por certos “trabalhos”. Ele não falou explicitamente em drogas, mas era óbvio.

No começo, só fiquei na casa dele porque era melhor que dormir na rua, mas quanto mais pensava nisso, mais eu queria fazer um dos trabalhos dele, ganhar algum dinheiro e voltar pra casa.

O que aconteceu quando você aceitou o trabalho?

Bom, o trabalho não era em Roma, mas na Espanha, e consistia de levar 2 quilos de cannabis da Espanha para a Suécia, através da Letônia. Tem menos segurança nos aeroportos do Leste Europeu, então era mais fácil, e achei que o melhor jeito de passar por fronteiras era pelo mar.

A primeira coisa que aconteceu foi que me colocaram num avião para o norte da Espanha e me levaram de carro até a casa onde as drogas eram embaladas. Passei alguns dias naquela casa e eles me alimentaram bem, me deram muitos cigarros e tudo mais. Eu estava feliz.

Conheci outro cara jovem que estava traficando, ele tinha 23 anos e era da Escócia. Ele parecia muito comigo, tinha um problema com drogas e já tinha feito alguns trabalhos antes. Ele me disse que era fácil, o que foi reconfortante. Honestamente, naquele ponto, comecei a achar a coisa toda muito excitante.

Quanto te pagaram?

Me prometeram € 1 mil [cerca de R$ 5.200] por quilo, ou seja, € 2 mil [R$ 10.400]. Acho que a margem de lucro da Espanha para a Suécia é bem grande; eles compram a droga por € 500 [R$ 2.600] e vendem por algo em torno de € 4 mil [R$ 20.900].

Fale sobre o processo de contrabando.

Tudo começa com o embalo, que leva a noite toda. As drogas são embaladas a vácuo com filme plástico e prensadas. Aí tem um cara que faz um café grosso, ele faz o café e vai acrescentando grãos na mistura até virar tipo uma pasta. Aí eles mergulham o pacote de drogas na mistura de café, enrolam em mais filme plástico e repetem o processo. Tudo isso é para enganar os cães farejadores. Aí a droga é colocada em sacos à prova de raio-X.

Eles me deram um celular descartável, que tinha todas as informações que eu precisava. Aí me deixaram no aeroporto. A coisa toda foi bem menos estressante do que eu pensava. Você faz o check in da mala com drogas e pega o voo. Não teve um momento tipo “meu deus, estão passando pelo scanner” ou algo assim. É como pegar um voo normalmente. Eu provavelmente deveria estar com medo, mas não estava, porque me senti muito distante do que estava fazendo; era algo tão alienígena que não parecia real. Quando desembarquei em Riga, Estônia, meu contato estava me esperando.

Como ele era?

Ele está lá pra evitar que você surte, conte pra polícia ou fuja com as drogas. Eles só mandaram um cara nas primeiras vezes, depois começaram a confiar em mim e me deixavam fazer tudo sozinho.

Bom, depois que cheguei a Riga, embarquei numa balsa para Estocolmo com o contato. Alguém nos encontrou em Estocolmo, recebi meus € 2 mil em dinheiro desse cara que encontrei num hotel e foi isso. Parecia fácil demais. E tinha até um barato. Acho que isso provavelmente foi parte do motivo para ter continuado fazendo isso.

Quando você decidiu fazer de novo?

Voltei pro Reino Unido e comecei a comprar cocaína de novo. Eu estava cheirando mais de dois gramas por dia. Por isso quis traficar outra vez. Simples assim. Eles me contataram pelo celular descartável e combinamos as viagens. Eu não via isso como algo sério, eu estava cheirando muito na época, então a oportunidade me pareceu uma benção dos céus. Me enganei pra pensar que assim eu nunca teria que trabalhar. Sou bem preguiçoso, então sempre fui atraído por dinheiro fácil e arriscado em vez de dinheiro suado livre de riscos.

Quantas vezes você acabou contrabandeando drogas?

Sete ou oito vezes, por uns seis meses. O tamanho dos trabalhos foi aumentando gradualmente, enquanto eles começavam a confiar mais em mim: de 2 quilos para 7, depois 12 quilos. Era muito divertido. Eu ficava em hotéis bacanas por toda a Europa, mesmo que por pouco tempo. Eles me davam dinheiro além das taxas dos trabalhos. Dinheiro para pagar os hotéis, táxis e baladas.

O que você tem que entender sobre mulas brancas de classe média é algo chamado “pele limpa”, porque não temos ficha suja e parecemos inocentes, o que é o verdadeiro trunfo pra esses caras. Ninguém te revista, a polícia não tem um perfil seu, e somos raros. Eles vão te tratar como um rei porque querem te manter trabalhando pra eles, você não se sente tão descartável quanto seria de se imaginar.

Até acabei repreendendo eles por serem incompetentes às vezes, e eles se desculpavam – tipo, quando uma entrega era pública demais ou algo assim.

Qual o tamanho da operação da qual você era parte?

Difícil dizer, e não quero falar muito sobre isso. Só interagi com as pessoas diretamente acima de mim, e muitos deles usavam nomes falsos. O negócio era comandado por caras de Gâmbia. Mas quero deixar claro que as pessoas pra quem trabalhei não tinham uma vida particularmente luxuosa ou sórdida, eles só estavam fazendo o que precisavam para viver.

E as outras mulas que você conheceu?

Eram de toda a Europa, quase exclusivamente brancas e de idades entre 19 e 25 anos. A maioria era viciada em drogas, como eu, mas tinha feito dívidas com gente barra-pesada. Então eles usavam esses trabalhos para ganhar dinheiro rápido ou para sumir do país. Essa é outra parte do paradigma.

Em que países você entrou com drogas?

França, Espanha, Itália, Holanda, Suécia, Letônia, Finlândia, Islândia, Estônia. Acho que até mais.

E era sempre com maconha?

Tinha outros trabalhos, me falavam sobre eles pelo celular descartável, pra levar heroína, cocaína, MDMA. Eles ofereciam mais dinheiro por esses. Mas recusei porque era muito mais arriscado. Fora uma vez que levei um carregamento de MDMA para a Suécia, pelo que recebi mais. Eram milhares de pílulas, e recebi € 1 mil extras por essa entrega. De novo, eu deveria estar com medo, mas não estava. Eu era muito bom em me distanciar do que estava fazendo.

Como você acabou sendo pego?

Não sei exatamente. Aconteceu no aeroporto de Varsóvia. Quando fui pegar minha mala, ela não estava na esteira. Fui idiota e perguntei na companhia se eles tinham visto, e eles disseram que iam averiguar. Eu devia ter calado a boca e ido embora, mas…

Quando voltei no dia seguinte, eles tinham encontrado a mala (com 12 quilos de maconha dentro) e foi isso. Não pensei que eles iam abrir a bagagem.

Quanto tempo você ficou preso?

Peguei cinco anos de sentença suspensa, o que foi algo muito brando para os padrões judiciais, e fui liberado depois de 150 dias de prisão preventiva. Me deram um defensor público que era muito bom e já tinha trabalhado em casos parecidos. Eu era réu primário, então recebi uma sentença leve.

Quando me pegaram, eu só conseguia pensar em como esconder a coisa toda dos meus pais. Eu pensei, tipo, “se eu voltar em algumas semanas ou um mês eles não vão saber o que aconteceu”. Mas não funcionou assim.

Um amigo acabou avisando minha família que eu estava desaparecido e eles chamaram a polícia. Não que eles tenham feito muita coisa – acho que pararam de me procurar depois que descobriram que eu tinha problemas com drogas. Depois de duas semanas preso, me deixaram entrar em contato com a minha mãe. A primeira reação dela foi só ficar aliviada porque eu estava vivo, ela não tinha ideia onde eu tinha me metido. Meus pais acabaram sendo muito mais compreensivos do que eu poderia imaginar.

Ficar numa prisão estrangeira foi difícil?

Eles basicamente me jogaram na solitária, porque acho que olharam pra mim e tiveram certeza que eu não duraria um dia com criminosos de verdade. Foi bondade deles, acho que não seria assim numa prisão britânica ou americana. Algumas vezes tive colegas de cela, mas eles eram de boa.

A prisão em si era extremamente monótona. Você mora na sua pequena cela, do tamanho de um banheiro grande, e pode sair uma hora por dia, mas o “lado de fora” é só uma cela com o teto aberto – só dava pra andar um pouco.

Acabei lendo muito, li todos os trabalhos de Shakespeare que minha mãe me mandou. Fiz um pincel com meu cabelo, que endureci com leite condensado da bandeja de almoço.

Se pudesse voltar no tempo, você faria algo diferente?

Bom, estou limpo agora, o que é bom. Mas não, acho que eu precisava que tudo desse errado. Eu tinha uma visão ridícula da vida, que dinheiro e oportunidades iam cair no meu colo. A coisa toda me ensinou que ações têm consequências. Mas isso magoou minha família e amigos, o que me deixa triste. Queria ter poupado eles da preocupação.

O que você faz da vida hoje em dia?

Tenho um trabalho de meio período numa loja de artigos de segunda mão. Estou indo devagar enquanto tento trabalhar as experiências do último ano. Estou gostando muito.

*O nome foi mudado para proteger a identidade do entrevistado.

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