Analisando Cenários Do Apocalipse

ENTREVISTAS POR JESSE PEARSON

FOTOS CORTESIA DA NASA E DA PESQUISA GEOLÓGICA DOS EUA

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BURACOS NEGROS 
 

Mark Reid é um rádio astrônomo do Observatório Astrofísica Smithsonian do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica. Ele é especialista no que muitos consideram o bicho-papão alfa do apocalipse astrofísico — o buraco negro.

Vice: Eu sempre quis pedir para algum astrofísico me explicar os buracos negros como se estivesse explicando para uma criança de dez anos. Você pode me explicar com os termos mais simples possíveis? 
Mark Reid: 
Trata-se de algo que tem tanta massa em um volume tão pequeno, uma densidade tão alta — mas não sei se essa é uma pala-vra boa para uma criança de dez anos — que nada escapa de seu alcance gravitacional. A luz não pode sair dele. Objetos que caem lá também não saem. 

E como os buracos negros são criados? 
Existem dois tipos no universo, até onde sabemos. Um deles chamamos de buraco negro estelar, que vem da explosão de uma estrela, como uma supernova. Quando uma estrela explode, muita coisa sai, mas as coisas no interior implodem — fica tão denso que se torna um buraco negro. Supostamente eles estão em toda a galáxia. É provável que existam dezenas de milhares deles. 

O outro tipo é o que chamamos de supermassivo. Esses estão sempre no centro das galáxias — a Via Láctea tem um. 

Ele se chama Sagitário A, certo?
Sim. E em geral eles têm entre 1 milhão e 1 bilhão de vezes a massa de uma estrela como o nosso sol. Não sabemos de fato os detalhes de como se formam. Presumivelmente, uma estrela muito maciça jovem explodiu, e então acumulou matéria. 

Como um buraco negro acumula matéria? 
Poeira e gás podem cair dentro dele. Se uma estrela se aproxima demais, pode ser esticada pelo buraco negro e depois ser retalhada, e o gás que fica cai dentro dele. E a outra possibilidade para o crescimento de buracos negros tem suas raízes no começo do universo. Acredita-se que galáxias como a Via Láctea crescem pegando pequenas subgaláxias, pequenos grupos de estrelas, e fundindo-as. Você tem dois grupos de estrelas e gás que podem ter 1 milhão de massas solares, e elas podem colidir, se fundir e se tornar uma nuvem de 2 milhões de massas solares. Se isso acontecer muitas vezes, especialmente em hierarquia, por exemplo, duas de 2 milhões resultam em 4, é bem rápido. 

É um tipo de crescimento exponencial.
Sim. É mais ou menos assim que se acredita que as galáxias se formam. E você pode fundir buracos negros no centro de outras subgaláxias conforme elas se fundem. Então você teria buracos negros de 2, 5, 10 milhões de massas solares em duas subgaláxias diferentes e, conforme elas se fundem, você dobra a massa do buraco negro. 

E a localização do nosso buraco negro supermassivo, Sagitário A, é determinada pelo comportamento das coisas ao seu redor, certo? Parece haver uma força gravitacional em torno da qual as estrelas ao redor da constelação de Sagitário estão girando? 
Sim, mas existem duas maneiras de localizar Sagitário A. Se você é um rádio astrônomo, como eu, na verdade o que você procura é uma fonte de rádio muito forte. Existe essa força de ondas de rádio que podemos detectar com facilidade, podemos dizer que está exatamente no centro da Via Láctea e não está se movendo. Isso é uma evidência bastante clara de que se trata de um buraco negro supermassivo. Se não fosse supermassivo, estaria se movendo com bastante rapidez. 

Se você é um astrônomo do infravermelho, pode ver que algumas estrelas estão orbitando ao redor de algo que não é muito visível e pode descobrir qual é o centro da órbita, e então o centro da órbita dá a posição de Sagitário A. E se você comparar o rádio e o infravermelho, vai ver que as duas posições são as mesmas. 

Então, se há estrelas orbitando ao redor de algo que não é visível, é uma boa aposta de que tem um buraco negro ali. 
Isso mesmo. Em infravermelho é quase invisível. Às vezes eles podem ver algo naquele local. Mas basicamente as observações de infravermelho, que fornecem a órbita das estrelas, nos dizem que existe algo com 4 milhões de vezes a massa do sol no centro dessas órbitas. 

Existe uma obsessão da cultura pop e da ciência pop com buracos negros, de que são assustadores. 
Sim, tenho de explicar para minha mãe o tempo todo que não vamos cair dentro de um. Ela está muito preocupada com isso. Toda vez que eu menciono buracos negros, ela faz uma careta e se preocupa. 

De onde você acha que vem essa reputação? 
Acho que é o nome, sabe? Como o Buraco Negro de Calcutá. Soa muito assustador, não? 

Com certeza. Você pode me dizer quais são os cenários potencialmente catastróficos em torno dos buracos negros supermassivos? Existe algum cenário catastrófico realista?
Bem, eu não sei quanto aos supermassivos. Eu diria que o cenário mais assustador — e mais realista, mesmo que as chances sejam astronomicamente baixas—seria irmos ao encontro de um buraco negro que esteja se movendo pela Via Láctea. Existem muitos deles, não sabemos o número exato, flutuando invisíveis pela Via Láctea. Podemos pensar neles como asteroides gigantes, só que muito mais maciços. Se tivéssemos muito azar e colidíssemos com um, então, sim, isso destruiria a Terra [risos]. 

Qual seria a natureza da destruição? Como funcionaria? 
Se fosse uma colisão direta — o que é quase impossível —, a Terra seria esticada e estilhaçada, e então toda a corporeidade cairia dentro do buraco negro e nunca mais seria vista. 

E existe algum tipo de quantificação da probabilidade de isso acontecer algum dia? 
Ah, eu nunca calculei. Detestaria chutar um número sem fazer o cálculo. Mas eu diria que aconteceria uma vez no universo. Ou não, talvez mais do que isso. Mas existe outro cenário. Se nos aproximássemos o suficiente de um, mesmo sem colisão direta, se um entrasse no sistema solar, seria como ter outra estrela aqui, e isso provavelmente ejetaria a maioria dos planetas do sistema solar para o epaço e então não teríamos mais uma estrela. 

Nesse ponto nos tornaríamos uma rocha congelada. 
Exatamente. E também é possível que os planetas possam trocar de órbita — em vez de girar ao redor do sol, começaríamos a orbitar ao redor do buraco negro como se fosse uma estrela, e o buraco negro não vai nos fazer nenhum bem porque não emite nenhuma luz. 

Existem outros cenários astrológicos apocalípticos mais prováveis do que os relacionados aos buracos negros? 
O único cenário super-realista seria sermos atingidos por um asteroide enorme.

Mas podemos ficar tranquilos em relação aos buracos negros? 
Sim. As chances de um problema relacionado a um meteorito são infinitas vezes mais prováveis que as de um buraco negro. 

Quais são os tópicos atuais discutidos entre os especialistas em buracos negros? 
Bom, Sagitário A é tão aceito como buraco negro supermassivo, eu diria, em termos de astrofísica, quanto qualquer outra coisa. Os físicos que não vêm todas as informações podem ser um pouco mais céticos, mas é bem certo. E se Sagitário A não for um buraco negro supermassivo, trata-se de algo ainda mais interessante. Teria de ser algum material que não conhecemos, algum tipo de matéria que funciona como um buraco negro, mas não é. Isso seria ainda mais estranho. Existe um grupo na África do Sul sugerindo que pode se tratar de algo que chamamos de bola de férmion, como uma grande nuvem de elétrons ou algo assim. Então existem coisas mais exóticas chamadas estrelas de bósons. Bósons podem ser tão compactos quanto um buraco negro, basicamente. Do ponto de vista da física, se você pegar todas essas partículas elementares chamados bósons e enfiá-las em um espaço muito pequeno, isso resultaria em algo que teria, aproximadamente, a massa correta, se conseguisse colocá-las naquele volume. 

A astrofísica é uma ciência interessante porque muita coisa é baseada em hipóteses e teorias. 
Sim, não podemos fazer experiências. Basicamente, fazemos observações. 

Os buracos negros têm uma espécie de expectativa de vida? Quero dizer, existe um fim para os buracos negros? 
Os tipos de buraco negro de que estamos falando devem continuar crescendo. Enquanto orbitam pela Via Láctea ou no centro da galáxia, eles vão acumulando a matéria que encontram e vão crescendo. 

Sendo assim, então daqui a bilhões de anos os buracos negros vão consumir o universo? 
Levaria mais do que bilhões de anos. 

O sol vai morrer muito antes disso, então. 
Ah, sim, com certeza. Sabemos que dentro de 4 ou 5 bilhões de anos, o sol vai se tornar um gigante vermelho e estaremos muito perto de estar dentro dele. 

Eu gostaria de estar por aqui para ver isso. 
Tem um episódio de Dr. Who, a nova versão, em que ele leva a namorada para ver o fim da Terra, o dia em que o Sol se torna um gigante vermelho. 

Que romântico. 
Sim, e isso vai acontecer. Existe uma piada antiga sobre isso. Um astrônomo está dando uma palestra para um grupo e diz que em 4 ou 5 bilhões de anos o sol vai se expandir e engolir a Terra. Uma mulher no fundo da sala desmaia. Eles a reanimam, e ele diz: “Bom, hum, falta muito tempo. Não se preocupe”. E ela pergunta: “O que você disse?”. Ele diz: “4 ou 5 bilhões de anos”. E ela diz: “Ah! Achei que você tinha dito milhões”.

 


ERUPÇÕES DE RAIOS GAMA 
 

Jonathan Katz é professor de astrofísica na Universidade de Washington em St. Louis e autor do livro The Biggest Bangs, que trata de erupções de raios gama. 

Vice: Por favor, explique o que é uma erupção de raio gama.
Jonathan Katz: 
Elas foram descobertas quase 40 anos atrás, são breves estouros — “breves” significa qualquer coisa entre décimos de segundo e alguns minutos — do que chamamos de raios gama, que podemos considerar basicamente como versões da energia que sai da máquina de raio-X do seu dentista, proveniente de fontes astronômicas distantes. Por muitas décadas, essas fontes não eram identificadas. Agora sabemos que vêm de galáxias muito distantes ou de componentes de galáxias muitos distantes.

Quando estão acontecendo, as erupções de raios gama são mais poderosas do que toda luz habitual de uma galáxia. Claro, em geral, só entram em erupção por décimos de segundos. Há mais ou menos dez anos, foi descoberto que as erupções são seguidas por uma emissão de luz visível que enfraquece no decorrer de algumas horas ou dias. Mas por um período de horas ou um dia ou dois, a luz visível é praticamente tão brilhante quanto uma galáxia inteira. 

Como isso poderia ser uma ameaça para nós? 
As pessoas costumam perguntar o que aconteceria se houvesse uma erupção na nossa própria galáxia. Bom, a primeira coisa a lembrar é que isso não acontece com muita frequência. Em uma galáxia de tamanho razoável como a em que estamos, acontece aproximadamente uma vez a cada 1 milhão de anos. Por um lado, isso significa que essas erupções acontecem com pouca frequência, por outro, nossa galáxia tem cerca de 10 bilhões de anos, então isso significa que já aconteceram mais ou menos 10 mil vezes. A idade do nosso sistema solar é aproximadamente a metade disso, então aconteceram 5 mil erupções em nosso sistema solar. Na verdade, os números são pouco precisos, mas podemos dizer que está na casa dos milhares. Essas erupções, é claro, estão perto de nós, então podemos nos perguntar se poderiam nos afetar. 

E poderiam? 
A galáxia é como um disco. Muitas estão do outro lado e algumas estão do nosso lado. Dessas aproximadamente 10 mil, algumas é claro que acontecem relativamente perto de nós. Mas “relativamente perto” nesse caso significa centenas de anos luz de distância. Para criar uma escala, a estrela mais póxima — fora o sol — está a cerca de quatro anos luz de distância. Então como terá sido quando explodiu? Bem, deve ter sido a coisa mais brilhante no céu. Mais brilhante que Vênus, mas não tão brilhante quanto a lua. Algo que você certamente notaria, mas nada muito fascinante. 

Quanto tempo teria durado no céu?
Teria enfraquecido em alguns dias. Existem as chamadas supernovas, estrelas que explodem que também podem ser mais brilhantes que Vênus. Isso aconteceu duas vezes cerca de 500 anos atrás, foi visível durante o dia e à noite ficou visível por meses a olho nu. Isso tudo foi antes dos telescópios. Aliás, não houve nenhuma na nossa galáxia desde a invenção do telescópio, o que é uma pena. Também dá uma ideia da frequência com que explodem perto de nós. 

Então, suponhamos que uma dessas erupções de raio gama aconteça perto da nossa galáxia, como nunca antes na história. Ela provavelmente seria visível durante o dia. Não seria tão clara quanto a lua, mas seria bastante clara. Agora, e os raios gama? Bem, a atmosfera da Terra os absorve, principalmente no topo mais alto da atmosfera. Quem estuda raios gama precisa colocar seus instrumentos em satélites. Antigamente, os colocavam em balões que flutuavam muito próximos do topo da atmosfera. De qualquer maneira, no advento de uma erupcão de raios gama não seríamos exterminados pela radiação. Se acontecesse realmente perto, formaria ozônio extra na camada superior da atmosfera. Mas isso também acontece quando o sol entra em erupção em explosões solares.

 


Certo. Algumas pessoas temem que isso também possa causar o fim do mundo. 
É algo bastante comum, nada tão extraordinário. As outras coisas com que as pessoas às vezes se preocupam são partículas muito energéticas, que chamamos de raios cósmicos. É possível que alguns deles sejam produzidos em erupções de raios gama. Ninguém sabe ao certo. Eles podem ser muito penetrantes — temos raios cósmicos que atingem o chão — e, aliás, muito da dosagem de radiação regular que as pessoas recebem vem dos raios cósmicos. O restante, quase tudo, vem da radioatividade natural nas rochas. 

Interessante. 
Sim. E se você voar em uma aeronave de alta altitude, recebe uma dose extra considerável de raios cósmicos. Se você mora no Colorado, recebe uma dose extra considerável. 

Então os pilotos e comissários de bordo recebem doses constantes de raios cósmicos? 
Ah, sim, recebem. Eles têm uma exposição total à radiação muito maior que o resto de nós que vivem no solo e só ficam no ar algumas vezes por ano. Não parece prejudicá-los, mas certamente é mensurável. 

Existe uma hipótese de que uma das menores extinções da Terra — o evento Ireviken no Silúrico — tenha sido causada por uma erupção de raios gama. 
Sim, as pessoas disseram isso, mas é difícil compreender como ela teria destruído as coisas. E deixe-me destacar uma coisa: supostamente, os raios de uma erupção de raios gama vêm de uma vez, e todos em uma direção. Então, o outro lado da Terra, por assim dizer, o lado que está do lado oposto da explosão, está completamente protegido. Ele não é nem um pouco afetado. Se você quer saber a minha catástrofe cósmica preferida, é o cometa, asteroide ou meteorito. 

O nosso especialista em buracos negros disse a mesma coisa. 
Foi o que extinguiu os dinossauros 65 milhões de anos atrás. Mais cedo ou mais tarde, algo vai atingir a Terra. É como colocar uma venda e atirar dardos em um alvo. De vez em quando você acerta. 

Certo. 
A verdadeira catástrofe cósmica com a qual eu me preocuparia é o cometa, mais do que o asteroide, pela seguinte razão: você pode rastrear um asteroide com muita antecedência. Mas os cometas não são detectáveis até alguns meses antes de entrarem no sistema solar. Os asteroides estão em órbitas que vão até Marte e talvez parte do cami-nho até Júpiter e assim por diante, então eles nunca estão muito longe do sol e nunca são inacreditavelmente escuros, você pode observá-los usando telescópios modernos. Gradualmente, você faz um catálogo cada vez mais complicado de asteroides cada vez menores e mede as órbitas com cada vez mais precisão e, no futuro teremos todos aqueles grandes o suficiente para realmente nos colocar em risco catalogados e iremos rastreá-los com mais cuidado. 


Mas cometas não têm órbitas tão pequenas. 
Os cometas vêm de longe, de fora do sistema solar, muito além da órbita de Plutão, e de maneira totalmente imprevisível. Nessa distância, eles são tão escuros que é impossível observá-los, porque não há muita luz do sol lá. Então nós não os descobrimos, e eles podem vir de qualquer direção. 

Então, um cometa entra no nosso sistema e nós dizemos: “Bom, temos cerca de dois meses”? 
Algo assim. E se estiver num curso de colisão conosco, provavelmente não é tempo suficiente. Mesmo se estivermos preparados, mesmo que tenhamos um foguete em algum lugar com um explosivo nuclear e estejamos todos prontos para isso, é provável que não haverá impulso suficiente. Lembre-se, quanto mais próximo você o detecta, maior tem de ser o impulso. 

OK, então só para confirmar: como alguém que sabe muito sobre erupções de raios gama, você está me dizendo que objetos próximos da Terra são um cenário de apocalipse muito mais viável. 
Sim, eles são um problema muito mais sério. Os cometas em especial. Provavelmente a chance é uma em 100 milhões em um ano. 

Foi um momento epifânico quando você decidiu se tornar astrofísico? 
Eu era estudante de graduação na Cornell quando pulsares foram descobertas. São estrelas com mais ou menos a mesma massa que o sol, mas com apenas cerca de 10 km de diâmetro. Então são muito densas, muito pequenas, e sua rotação é muito rápida. Elas emitem pulsos regulares de radiação de rádio. A analogia que as pessoas sempre usam, e ela é boa, é que é como uma luz em um farol, um feixe que fica girando. 

Então, como um farol, é rítmico e mensurável. 
Sim, muito periódico. Isso foi descoberto no meu primeiro ano de faculdade, e no fim das contas um monte de gente que estava estudando astronomia teórica estava na Cornell. Na verdade eu estava mais interessado em física na época, mas isso foi muito empolgante. Os pulsares não foram descobertos na Cornell, foram desobertos na Inglaterra, mas foram imediatamente estudados com o maior telescópio de rádio do mundo, que a Cornell coordenava. Cornell tornou-se um centro de estudo teórico, além do estudo experimental-operacional para essas coisas. Estar no centro da interpretação de uma descoberta enorme foi muito empolgante. 


Então, a princípio, você não ia se formar em astrofísica? 
Eu estava cursando física. Mas entre a física e a astronomia, existe uma grande sobreposição. A maioria das pessoas que estavam trabalhando nisso eram físicos. Fui atraído e acabei fazendo minha carreira na área. Agora, estou trabalhando em problemas de física aplicada bem diferentes hoje. 

Qual é o seu foco agora? 
No momento, estou envolvido em uma colaboração que está fazendo uma experiência sobre o fluxo de lama de perfuração em poços de petróleo. 

Falando em catástrofes e apocalipse. 
Sim, é bem atual. Conseguimos prever que quando a BP tentou fazer pela primeira vez [no Golfo do México] o que chamam de “top kill” não funcionaria porque aquilo que foi injetado iria se espalhar. E foi exatamento o que aconteceu. Agora que o poço está bem tampado, nada pode se espalhar. Vai funcionar e tudo está sob controle. 

Quando eu estava pesquisando sobre você antes de nos falarmos, li um artigo que você escreveu 11 anos atrás chamado “Don’t Become a Scientist” [Não Vire um Cientista]. Fala sobre um tipo diferente de catástrofe, que é o encolhimento da comunidade científica em termos de empregos. 
Sofremos com o fato de haver um esforço enorme por parte de todo tipo de líderes de comunidade para tentar levar os jovens para as ciências. O tempo todo: “Precisamos de mais pessoas estudando ciência”. Blá, blá, blá. E agora pessoas demais querem se tornar cientistas, mas não faz sentido treinar pessoas para uma área em que não há empregos. É como formar médicos se não vai haver pacientes. Não faz sentido. Criamos uma situação em que existe uma fonte excessiva permanente porque, convenhamos, a sociedade não precisa de tantos cientistas. Precisamos de um certo número, mas mais do que isso não é melhor, é pior, porque isso cria uma luta desordenada terrível por empregos, e significa que as pessoas melhores e mais ambiciosas não vão para as ciências porque as perspectivas de emprego são muito dúbias. 

Então você ainda defende aquele artigo 11 anos depois? 
Totalmente! Ainda é válido, e uma das piores consequências de formar cientistas demais é que não transformamos as poucas pessoas que realmente devem se tornar cientistas em cientistas. Recebo e-mails uma ou duas vezes por semana de alguém que leu o artigo. “É tão ruim assim?”, perguntam. Eu digo: “Sim, é”. Os mais tristes são as pessoas que dizem: “Você arruinou meu sonho”. Bom, sinto muito. É melhor que o sonho seja arruinado pelos dez minutos gastos lendo os meus artigos do que passando dez anos da sua vida tentando arrumar um emprego fixo. 

Você é realista.
Acho que preciso ser. É disso que a ciência deveria tratar. Do mundo.


EXPLOSÕES SOLARES

Markus Aschwanden é autor de Physics of the Solar Corona. Ele é professor adjunto de física e astronomia na Rice University. Entre 2004 e 2005, ele foi membro da equipe do “Sun-Earth Connection Roadmap” da NASA.

Vice: Você pode me dar um curso básico e rápido sobre explosões solares?
Markus Aschwanden:
 O sol não tem uma superfície sólida. Ele gira em diferentes velocidades em diferentes latitudes. Essa é uma das razões pela qual tem campos magnéticos muito mais fortes que a Terra, e pela qual processos tão violentos acontecem quando o campo magnético enlouquece. Dentro do sol, existe um dínamo que cria constantemente novos campos magnéticos — campos muito fortes, que borbulham na superfície e criam campos magnéticos bipolares que saltam e parecem lindos laços. Depois, eles são constantemente torcidos e cortados e, quando ficam torcidos demais, eles se quebram, e nesse ponto criam quantidades enormes de energia magnética e elétrica. É por isso que existem explosões solares. Os campos que criam são tão fortes que as partículas se aceleram a energias muito altas, e algumas escapam do sol e viajam para a Terra. Os astronautas não devem receber doses altas dessas partículas de alta energia. Elas podem derrubar satélites ou GPS.

Com que frequência acontecem? 
Bom, elas vêm em grupos. A coisa vai aumentando até chegar ao máximo solar, que ocorre aproximadamente a cada 11 anos. Essa é a frequência com que o campo magnético se inverte no sol. É fascinante — o dínamo solar criar campos magnéticos loucamente, e o campo meio que se rompe e o Sul e o Norte se invertem. 

Então, quando a inversão polar acontece no sol, o ciclo recomeça e reconstroi ao máximo solar?
Certo. Além disso, as rotações dentro do sol são muito complexas. Diferentes camadas giram em diferentes velocidades. Isso gera muita fricção e produz o campo elétrico, esse é o dínamo solar. 

O dínamo é uma espécie de bateria do sol? 
Sim, exatamente. E ele se recarrega constantemente conforme as camadas giram em diferentes velocidades. 




O que você acha dos cenários apocalípticos criados em torno de explosões solares? É só sensacionalismo ou existe algo de real? 
Às vezes ocorrem eventos realmente enormes. O pior que pode acontecer é que talvez a rede elétrica aqui na Terra seja interrompida, ou as comunicações sejam cortadas por poucas horas. Também derrubaram satélites. 

É mais ou menos como um pulso eletromagnético?
Sim, porque as partículas entram nessas correntes na ionosfera, e essas correntes carregam os satélites. 

Sabe, muitos dos sobrevivencialistas mais extremados acreditam na possibilidade de uma explosão solar interromper a rede elétrica do mundo ocidental, e a sociedade ser levada ao caos como resultado disso. 
Existem muitos sistemas de segurança que dependem da nossa rede elétrica. E é raro que uma ondulação paralise algo, mas acontece de vez em quando. Cinco anos atrás houve uma ondulação na Costa Leste americana que apagou um terço das redes elétricas. Mas não foi causada por uma explosão solar.

Eu moro em Manhattan e estava aqui durante o blecaute. As pessoas simplesmente lidaram com a situação. A sociedade não entrou em colapso. 
Certamente não é uma ameaça à vida. É mais um incômodo. Mas a questão é que estamos vulneráveis porque temos muitos aparelhos eletrônicos que são controlados a partir de naves espaciais. Vinte anos atrás não éramos tão dependentes. Mal havia um satélite de telecomunicação lá em cima. Mas agora GPS, celulares… tudo depende de satélites. 

Estou tendo a sensação, depois de falar com diversos astrofísicos sobre suas áreas de especialidade, de que não temos muito a temer com esses fenômenos astrofísicos. 
Não, todos eles estão muito distantes. 

Quando você decidiu se tornar astrofísico? 
Quando eu era adolescente, eu e um amigo construíamos telescópios juntos. Tínhamos curiosidade com o que havia no espaço. Era fascinante o fato de alguém com 100 dólares poder construir um telescópio e ver a lua 100 vezes maior, ver cada cratera. 

Qual é a sua relação com a ficção científica? 
Quando eu era adolescente, lia tudo de ficção científica que conseguia. Era muito inspirador. Mas então, mais tarde, quando me tornei cientista, também fiquei mais interessado na coisa real. Mas meus fi-lhos ainda preferem a ficção. Digo a eles: “Posso mostrar uma gravação de uma explosão solar de verdade”, e eles dizem, “Ah, não, preferimos Star Trek”.


OBJETOS PRÓXIMOS DA TERRA 

Dave Williams trabalha no Goddard Sp

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