Crime e Castigo no Brasil

O Motoqueiro da Morte de Goiânia

Tiago Henrique Gomes da Rocha matou mais de 20 pessoas entre 2011 e 2014 por conta de um “ódio profundo”.
3.6.18
Ilustração por Luiza Formagin.

A repórter Marie Declercq é fascinada por histórias de crimes bizarros. Começou com os romances de detetive, mas depois ela sacou que a realidade sempre vence a ficção no quesito crueldade. A cultura da violência do Brasil infelizmente é um terreno fértil, e aqui você vai conhecer os crimes mais bizarros e brutais da história do país.


“Cara polícia de Goiânia, venho através desta, comunicar a vocês que nos próximos tempos os senhores terão muito trabalho a fazer. Quem vos fala é um cidadão cujo único objetivo é matar. Serei direto: sou um assassino em série ou se preferir podem me chamar de serial killer, até agora matei apenas 11 pessoas, mas estou evoluindo muito bem. Matei de todas as formas, mas o meu método é esfaquear até a morte, e garanto a vocês que todos os casos não resolvidos de homicídio por esfaqueamento certamente fui eu. Não tentem me parar pois vou até o fim disso. Boa sorte à vocês!. Ass: Facada.”

Entre janeiro e março de 2013, a Delegacia Estadual de Investigação de Homicídios (DIH) da cidade de Goiânia recebeu duas cartas de um sujeito que se dizia um prolífico serial killer autonomeado “Facada”. Para uma cidade com um índice de criminalidade considerável, pouco tinha o que fazer a polícia na época a não ser descartar a mensagem como obra de algum doidinho querendo chamar atenção. A carta também trazia outra coisa esquisita estando datada de 2012, porém os investigadores só receberam elas em mãos quase um ano depois dela ser digitada.

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A mensagem macabra acabou sendo esquecida, virando apenas mais um fato curioso de uma delegacia movimentada de homicídios. Quase um ano depois, em 2014, o autor da carta foi descoberto da pior forma, confessando 39 homicídios realizados entre 2011 e 2014.

A morte raspa a placa no asfalto

A população de Goiânia passou boa parte de 2014 com medo. De janeiro até outubro, mais de 20 pessoas foram executadas em locais públicos, sem qualquer aviso ou explicação. A suspeita de ser um serial killer não foi levantada pela polícia, mas sim por um áudio de Whatsapp que listava as mortes e dizia que o responsável era um motoqueiro de capacete e moto preta. Todas as vítimas foram encontradas ainda com seus objetos de valor, descartando a possibilidade de ser um latrocínio.

A áudio de Whatsapp dizia o seguinte: “Tem um serial killer solto em Goiânia. E é serial killer mesmo. Ele tem uma moto preta e capacete preto. Em qualquer lugar, seja lugar que tem muitas mulheres, estabelecimentos, residências, enfim, ele aborda a pessoa na rua e pede o celular armado. Quando a menina vai dar o celular, ele atira na menina, ele não rouba e foge. Ele já matou 12 meninas aqui em Goiânia. Geralmente os ataques estão acontecendo no Jardim América, Sudoeste e na Nova Suíça.”

A primeira vítima de 2014 foi Bárbara Luíza Ribeiro Costa, uma estudante de 14 anos, executada com um tiro no peito quando esperava pelo avô em uma praça no Setor Lorena Park. No dia seguinte, Beatriz Cristina Oliveira Moura, de 23 anos, foi morta da mesma forma quando ia comprar pão. Dez dias depois, Arlete dos Anjos Carvalho, 16, foi alvejada e deixada na rua com todos seus itens de valor.

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E assim esse misterioso motoqueiro matava livremente vítimas cujo único erro era estarem no lugar e hora errada. A maioria das mortes era de jovens mulheres de boa aparência, entre 14 a 54 anos e que não tinham nenhuma ligação entre si. A polícia chegou a desconsiderar que as mortes seriam cometidas por um assassino em série, mas o modus operandi idêntico em vários casos não deixava eles limarem a possibilidade.

Foi em agosto que a polícia finalmente montou uma força-tarefa para solucionar as mortes do motociclista, após a estudante de 14 anos Ana Lídia Gomes ser executada à luz do dia enquanto esperava o ônibus próximo de casa. O crime gerou um forte clamor público e uma pressão gigante da imprensa. Por conta disso, 25 delegados, 95 agentes e 30 escrivães foram designados para investigar o que contabilizavam como 16 mortes até aquele momento.

A identificação do assassino era o maior desafio da polícia. Além do capacete que cobria o rosto, ele sabiamente usava motos roubadas ou com placas frias para cometer os crimes e também disfarçava a cor do tanque da moto usando uma capa preta. Cada vez que a polícia descobria uma moto era mais um beco sem saída. Para piorar, muitas vítimas pareciam ser escolhidas pelo acaso.

Em outubro, a polícia finalmente chegou na primeira pista que pudesse identificar o responsável pelas execuções por conta de uma tentativa de homicídio que deixou informações nas câmeras da rua. Uma multa de trânsito cometida por um motociclista próximo ao local de uma das mortes também ajudou.

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A investigação foi um trabalho de formiguinha onde foram ouvidas 200 pessoas, analisadas 576 placas de veículos suspeitos e 50 mil fotografias de infrações de trânsito, além de mais de 300 horas de câmeras de segurança que passaram por processos de melhoramento de imagens, segundo o delegado Deusny Aparecido, coordenador da força-tarefa.

Em 16 de outubro de 2014, a polícia divulgou finalmente a captura de Tiago Gomes da Rocha, um vigilante noturno de 26 anos e responsável pelas mortes na cidade. Durante os interrogatórios, Tiago não só confessou a morte das vítimas que eram investigadas pela força-tarefa, como também disse ter matado gente desde 2011 e que as mulheres não foram suas primeiras vítimas.

Assim o Brasil descobriu um dos maiores assassinos em série da sua história.

Ódio

(…)

Mutilei-me tentando acertar
Sobre o erro me curvei
O muro era outro
Tentando pular o muro
Caí mais fundo

Meu mundo ficou mais imundo
O outro tinha nome
O outro tinha história
O outro tinha família
O outro tinha sonhos
O outro não era eu

(…)

- Carta escrita por Tiago Gomes da Rocha para os jurados que julgaram o assassinato de Wesley Alves Guimarães, 39 anos, morador de rua morto com um tiro da cabeça por Tiago enquanto dormia debaixo de uma marquise no dia 9 de fevereiro de 2013, na Avenida C-4, no Setor Jardim América, Goiânia.

Tiago foi exibido por agentes policiais fortemente armados com máscaras cobrindo o rosto para uma multidão de jornalistas e fotógrafos que disparavam perguntas para entender as motivações daquele homem. No meio da multidão dentro da delegacia, familiares das vítimas choravam e gritavam “Assassino!” em direção do homem que não parecia exprimir qualquer tipo de emoção ou temor. De camiseta vermelha e colete a prova de balas da Polícia Civil, chocou todos pela aparência: Tiago era um homem bonito.

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Assim como Ted Bundy, que além de ter sido bonito usava sua aparência para facilitar os assassinatos de universitárias de cabelos longos e pretos, a beleza de Tiago foi algumas vezes citada pela imprensa e familiares das vítimas com um tom de indignação e até de curiosidade.

“Raiva generalizada” é como Tiago descreve o sentimento que o fazia procurar vítimas nas ruas. Afirmava ver flashes do passado, momentos ruins que ele viveu que afloravam naquele momento. Quando ele olhava para a pessoa, ele sabia que seria ela a vítima. Muitas vezes Tiago se embriagava na tentativa de amenizar essa raiva, mas acabava se enfurecendo mais ainda. A morte era a única forma de acalmar, segundo o vigilante noturno.

Tiago Henrique Gomes da Rocha nasceu em 4 de fevereiro de 1988 em Vera Cruz II, um conjunto de moradias populares localizado na periferia de Goiânia. Sua mãe, Sônia Gomes da Rocha, teve o filho ainda adolescente, aos 17 anos, e não contou com a ajuda do pai desde o nascimento do filho. Sozinha, Sônia trabalhava todos os dias como empregada doméstica para sustentar o filho e o irmão mais novo, deixando os filhos sob os cuidados de sua avó materna. Contra a sua vontade, foi uma mãe ausente de um filho que nunca conheceu o pai.

Tiago durante um dos seus julgamentos. Foto: Tribunal de Justiça de Goiás.

Tiago teve uma infância de ausências não só dos pais, como também de recursos. Sua família era simples e não era raro passar por necessidades financeiras. Tiago, que já era visto como uma criança quieta e introvertida, seguiu com essas características até a fase adulta.

A sorte dele era a aparência. Desde pequeno, a família e vizinhos diziam com convicção que o menino se desenvolveria em um homem bonito. E a profecia se cumpriu: Tiago tem 1,86m, porte atlético, cabelos castanhos bem cortados e olhos castanhos profundos que fazem qualquer um gastar mais de alguns segundos para encará-lo. No entanto, apesar da beleza, todos os conhecidos de Tiago o conheciam como um homem muito tímido, introvertido e que nunca olhava diretamente nos olhos das pessoas quando precisava conversar.

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Ele não parecida ter uma vida social agitada e nem era visto com mulheres. Quase não bebia publicamente e mal era visto saindo de casa, por causa da mãe evangélica. Chegou a ter um caso com a vizinha casada que o conhecia desde pequeno. Em uma entrevista, ela disse que ele pedia “calma” na hora do sexo. E que também era um homem carinhoso. Outra ex-namorada o descreveu como um “enigma”.

O isolamento na infância e juventude pela ausência da mãe, a falta de dinheiro e o fato de nunca ter conhecido seu pai desenvolveu em Tiago, o que ele mesmo descreve como um “ódio incontrolável”. Em depoimentos ele também chegou a dizer que foi abusado sexualmente por um vizinho e que também sofreu bullying na época da escola. Suas atitudes nunca despertaram qualquer suspeita da família, vizinhos ou amigos.

Durante o interrogatório, o delegado Douglas Pedrosa perguntou para Tiago se ele poderia contar quem foi a primeira menina quem ele matou. A resposta foi inesperada. “Eu não comecei matando menina.”

A primeira vítima de Tiago foi o estudante de 16 anos Diego Martins Mendes, morto em 9 de novembro de 2011. Em uma entrevista, ele conta que se aproximou e puxou assunto com adolescente em um ponto de ônibus sabendo que ele era homossexual. Assim, Tiago atraiu Diego para uma mata fechada e lá o estrangulou. Abandonou seu corpo num lugar tão escondido que o próprio assassino não encontrou anos depois, após a confissão.

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Depois disso, as mortes viraram uma espécie de conforto para ele amenizar esse tal ódio que nem a bebida aplacava. Suas primeiras vítimas foram homens gays, trabalhadoras sexuais e moradores de rua.

Esperto, ele sabia mirar em pessoas cuja morte não despertaria o interesse da população e muito menos da Polícia Civil. Cada categoria de vítimas tinha um modo diferente de matar. Os gays eram estrangulados. As prostitutas, esfaqueadas. Os moradores de rua, alvejados na cabeça enquanto dormiam. Entre 2011 e 2013, Tiago diz ter matado 16 pessoas – muitas delas sequer foram identificadas até então.

Antes de ser preso, o último emprego de Tiago foi como vigilante noturno no Hospital Materno Infantil (HMI), onde ele trabalhava desde 1º de agosto de 2014. Ele fez um curso e testes psicológicos para portar uma arma no trabalho e passou em todos os requisitos sem maiores problemas. Foi no trabalho que descolou o revólver .38 que usava para executar algumas das vítimas na rua. Para justificar o sumiço, Tiago roubou uma arma no armário dos vigilantes e escreveu uma carta aos seus chefes dizendo que ele e outros colegas descobriram que o armário foi arrombado e uma arma desapareceu. Nos exames de confronto balístico dos projéteis encontrados na cena do crime, a arma usada por Tiago bateu com os projeteis usados nos assassinatos de Ana Lídia Gomes, 14 anos; Isadora Cândido, 15; Juliana Dias, 22; Rosirene Alberto, 29; Thaynara da Cruz, 13 e Thamara Conceição, de 17.

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Ele também acompanhava as mulheres que trabalhavam no hospital até os seus carros ou ponto de ônibus na saída do trabalho, já tarde da noite. Justificava a preocupação dizendo que um matador de mulheres estava à solta pela cidade e que as mulheres deveriam tomar cuidado redobrado. Posteriormente, quando Tiago foi capturado, os seus colegas de trabalho afirmaram até suspeitar de que o vigilante poderia ser o tal serial killer de Goiânia. E tiveram motivos para tal, visto que Tiago esfaqueou o segurança Aleandro Santos Miranda, de 35 anos, que trabalhava na mesma emprega de segurança do assassino em série. Tiago confessou o crime, mas disse não se lembrar dos detalhes. Aleandro foi esfaqueado até a morte.

“Foi todo um processo que me levou a tomar essa atitude”, explicou o próprio Tiago ao jornalista Domingos Meirelles do Câmera Record em 2017. “No momento que saí em busca da primeira vítima eu estava fora de mim. (…) Não deu para segurar, foi irresistível.”

Durante os interrogatórios, Tiago se mostrou inteligente, pragmático e nada arrependido pelas mortes, mas sim por ter sido capturado. Apesar de ter confessado a autoria da carta enviada à delegacia em 2013, pouco se sabe se ele queria parar de fato ou só exibir seus feitos. Também sabia exatamente a ordem das mortes e as denominava como “Vítima 1”, “Vítima 2” e assim por diante. Além das mortes, Tiago também assaltou farmácias usando seu capacete de motociclista, além de caixas eletrônicos e lotéricas.

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O fato das vítimas serem jovens foi mencionado por Tiago como um erro de leitura. No momento das mortes, ele sabia quem seria sua próxima vítima seja pelo olhar ou pelos longos cabelos castanhos – características que o atraíam. Numa entrevista, disse que não mataria pessoas tão jovens e sim escolheria pessoas mais velhas para serem suas vítimas.

Um dia depois da sua captura em 2014, cortou os pulsos na cela, tentando se matar. Quando questionado sobre a tentativa, disse que apenas tinha se cortado superficialmente. Na entrevista ao Câmera Record, Tiago parece mais magro do que quando foi pego, falando baixo, devagar e evitando olhar para o jornalista que o entrevistava. Também pediu para a câmera filmar um lado de seu rosto, uma atitude que foi classificada como “vaidosa” pela reportagem e os delegados.

“(…) Dos machucados não saíram sangue, saíram interrogação”

Passado a fase de investigação e confissão de Tiago, foi a hora do assassino em série passar por uma série de julgamentos por todas as mortes que admitiu autoria. Do momento que foi preso até os mais de 31 julgamentos no Tribunal do Júri que respondeu, Tiago mudou repentinamente de atitude. Antes, estava agressivo, tentou se matar na cela, agrediu um jornalista e parecia mais revoltado com a sua captura do que com todas as mortes que levavam seu nome. Já nos julgamentos, olhava para baixo, quase não respondia as perguntas da acusação e chegou a demonstrar remorso pelas vítimas.

Em um dos julgamentos, Tiago escreveu uma longa carta endereçada ao corpo de jurados pedindo desculpas pelos “erros do passado”. O efeito dela foi mais negativo do que positivo, já que Tiago não mencionou mortes ou tentativas de homicídio no seu texto. Parecia mais um cara malandro pedindo desculpas por vacilos sem importância. A polícia, os promotores e os jurados não se convenceram.

No laudo psiquiátrico, Tiago foi diagnosticado como um psicopata e portador de transtorno de personalidade. Elaborado pelos psiquiatras Léo de Souza Machado e Diego Franco de Lima, apesar da psicopatia de Tiago, os médicos concluíram que ele estava totalmente ciente de suas ações, além de ser um homem desprovido de afeto e que foge do convívio interpessoal. A falta de perfil exato nas vítimas também foi analisado pelos psiquiatras, os quais escreveram que “os crimes ocorrem por vontade própria, sem influência de nenhuma doença mental”.

Por conta disso, a psicopatia não convenceu na alegação de insanidade mental da defesa, por ter sido provado que ele sabia exatamente o peso dos seus atos. A mudança de comportamento foi justificada por alguns como uma tranquilidade do assassino, como um ciclo que se fecha e uma missão que terminou. Talvez, para Tiago, toda a razão de estar no mundo cessou com as mortes e por isso não haveria mais nada a ser feito a não ser aceitar ficar preso.

Após 31 julgamentos entre 2015 e 2017, três dos quais Tiago foi absolvido por falta de provas, a soma de todas as penas pelos crimes de Tiago contabilizou 656 anos de prisão em regime fechado. Vale dizer que não foi possível provar algumas mortes que o próprio confessou e também o próprio assassino em série voltou atrás de seu depoimento e afirmou que a polícia de Goiânia empurrou algumas mortes na sua conta.

Em uma entrevista ao jornal O Popular, disse que não pensava no que faria quando saísse da prisão em respeito às famílias das vítimas. Tiago segue preso em regime fechado e seus crimes foram um dos incentivos a aprovar a inclusão do crime de feminicídio no Código Penal Brasileiro.

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