Publicidade
Saúde

Como fazer o auto-exame do tipo mais letal de cancro de pele

Os casos de melanoma têm aumentado nos últimos 20 anos.

Por Virgie Townsend; Traduzido por Madalena Maltez
31 Julho 2018, 9:50am

Dimitri Otis/Getty Images

Este artigo foi originalmente na nossa plataforma Tonic.

A minha prima de 23 anos, Tarlie Townsend, reparou que lhe tinha aparecido uma nova pinta na bochecha direita enquanto viajava pelo Camboja, durante um programa de intercâmbio de estudantes, em Fevereiro de 2014. Estava na casa-de-banho numa zona rural quando viu o seu reflexo num pequeno espelho pela primeira vez em dias. No mesmo instante, ficou chocada com aquilo. Parecia uma espinha ou um papiloma.

“Lembro-me de olhar-me ao espelho e ficar meio tipo ‘de onde é que isto veio?’”, conta-me. A sua família materna tem um histórico de cancro de pele, portanto, desde pequena, aprendeu a procurar sinais da doença. Ao regressar ao Vietname, onde vivia durante o programa, procurou por traços de melanoma e examinou o local com um sistema comum de auto-exame chamado ABCDE. Em inglês, o acrónimo refere-se a formato irregular, extremidades irregulares, cores múltiplas ou irregulares, diâmetro maior do que a borracha de um lápis e formato, tamanho, cor ou qualquer outra característica em evolução.

A nova pinta de Tarlie não se encaixava nestes critérios: tinha um formato de domo, a cor era semelhante à da sua pele com tons rosados e extremidades regulares. Não se assemelhava às outras que já tinha.


Vê: "Matar o Cancro"


Quando observou tabelas que comparavam fotos de sinais benignos e malignos na pele, fiou aliviada ao perceber que o sinal na primeira página se assemelhava ao seu.
Seriam necessários 10 meses e diversos médicos em três países diferentes para que a pinta fosse diagnosticada correctamente como melanoma nodular – um tipo de cancro de pele invasivo, de rápida evolução, semelhante a uma pinta ou uma espinha.

A remoção completa de melanomas antes que se enraízem na pele, pode ser uma opção de tratamento, mas, devido às complicações de diagnóstico do melanoma nodular, o melanoma de Tarlie já tinha chegado aos gânglios linfáticos quando foi diagnosticada em Dezembro de 2014. Tinha melanoma de terceiro grau, com probabilidades de cinco anos de sobrevivência na casa dos 59 e 78 por cento - ou seja, essa percentagem indicava a probabilidade de permanecer viva cinco anos após o diagnóstico. Estava na casa dos vintes e nunca tinha sofrido nenhuma complicação séria de saúde.

O número de casos de melanoma tem vindo a crescer nos EUA ao longo dos últimos 20 anos. Estima-se que um em cada 54 norte-americanos correm risco de desenvolver algum tipo de cancro de pele agressivo ao longo da vida. A ocorrência de melanoma em jovens também se tem mostrado bastante frequente: em 2009, a incidência da doença em mulheres de idades entre 18 e 39 anos era oito vezes maior do que nos anos 1970, em parte graças ao bronzeamento artificial. Em homens na mesma faixa etária, a incidência mostrou-se quatro vezes maior.

[Em Portugal, o melanoma é o cancro da pele cuja taxa de incidência tem vindo a aumentar de forma mais rápida, atingindo as pessoas adultas na sua fase mais produtiva (35/55 anos). É um tumor altamente maligno que, se não for diagnosticado e tratado a tempo, resulta numa elevada taxa de mortalidade. Todavia, se for detectado na sua fase inicial, as probabilidades de cura são muito elevadas. No nosso país a taxa de incidência já ultrapassa os 8/100.000, ao passo que há 40 anos era inferior a 2/100.000. Ou seja, a incidência do melanoma em Portugal quadruplicou desde o final da década de 1970].


Vê: "Como conseguir que toda a gente viva até aos 100 anos"


Ainda que apenas 15 por cento dos melanomas sejam do tipo nodular, estes estão ligados a 50 por cento das mortes, pois penetram a pele mais rapidamente do que os outros tipos de cancro de pele, atingindo desde logo os gânglios linfáticos. Entre 1978 e 2007, o número de casos de melanoma nodular e índices de sobrevivência permaneceram inalterados.

O diagnóstico dos melanomas nodulares também é dificultado, porque não se encaixam no método ABCDE de detecção de cancro. Na maior parte dos casos, os nódulos apresentam-se simétricos, de diâmetro reduzido e numa só cor. Muitos são escuros, mas cinco por cento apresentam tons avermelhados ou rosados, assemelhando-se a infecções ou espinhas.

Em 1998, o dermatologista francês Jean-Jacques Grob propôs um novo sistema de identificação de melanomas que passam despercebidos pelo método ABCDE. Grob reparou que uma pessoa geralmente produz pintas semelhantes umas às outras, portanto uma lesão que não se assemelha ao padrão do corpo pode ser cancerígena ou pré-cancerígena, mesmo que não apresente os indícios clássicos de cancro de pele. Grob referiu-se a este tipo como “sinal do patinho feio”.

Ashfaq A. Marghoob, director de dermatologia clínica do Memorial Sloan Kettering Skin Cancer Center Hauppauge, de Nova Iorque, nos EUA, está a empreender esforços para incluir o tal "sinal do patinho feio" em directrizes de auto-exame. Ele e outros investigadores desenvolveram novos critérios de detecção que combinam o ABCDE clássico com o "sinal do patinho feio", referindo-se aos novos critérios pelo nome DUC, ou “Do U C Melanoma?” ["Vês melanoma?" em tradução livre], cuja sigla em inglês também significa “diferente de outros sinais”, “características desiguais” (incluindo o ABCDEs mencionado anteriormente) e “mudança ao longo do tempo”.


Vê: "Os virus que matam superbactérias resistentes aos medicamentos"


“Sentíamos que o sistema ABCDE não contemplava todas as características necessárias para detecção de melanoma, então queríamos descobrir se haveria um método mais simples que pudéssemos utilizar?”, explica Marghoob. Com base no método ABCDE, o sinal de Tarlie não apresentava nenhum risco, já sob o DUC, talvez fosse caso para alerta. Em vez disso, o melanoma de Tarlie acabou por ser diagnosticado erroneamente como infecção e, como não desapareceu no decorrer de algumas semanas, ela acabou por ir a uma dermatologista em Hanói, que lhe prescreveu antibióticos. “A médica não mencionou nenhuma grande preocupação”, recorda Tarlie.

Os antibióticos não deram em nada, portanto em Junho Tarlie fez outro exame. Antes de partir para Xangai, encontrou um dermatologista local que tinha estudado nos EUA e que lhe tinha sido recomendado para o tratamento de ocidentais. Este especialista não acreditou que se tratasse de uma infecção, mas sim de um emaranhado de vasos sanguíneos que tinham rebentado; sem demonstrar grandes preocupações, sugeriu retirá-lo com laser para fins cosméticos e fazer uma biópsia apenas das camadas superiores. Por mais que as tais biópsias superficiais apresentem grandes índices de precisão, podem não conseguir suficiente tecido para revelar a profundidade de um cancro de pele e não removem o nódulo por completo. “Se ele tivesse feito uma biópsia mais extensa, talvez tivesse descoberto antes o que estava a acontecer”, comenta Tarlie.

O resultado da biópsia revelou um nódulo de risco baixo a moderado. O dermatologista afirmou não ser caso de urgência, mas sugeriu que ficasse atenta ao nódulo. Com base neste conselho, ela decidiu fazer um terceiro exame ao voltar aos EUA em Setembro, só que o dermatologista não ligou muito e mostrou-se até pouco disponível para o seu caso.

“Ficou bastante chateado e não sabia o que fazer com o facto de algumas das informações que lhe apresentei estarem em chinês. Basicamente, disse-me que não me podia ajudar, porque não entendia a língua”, sublinha.

Foram necessários três meses para a consulta com um cirurgião plástico, agendamento e cirurgia de remoção. Ao longo destes três meses, o melanoma regressou aos poucos. Desta vez amorfo e plano, como uma ameba. Ainda assim, Tarlie não estava preocupada, afinal, tinha consultado três dermatologistas em três países diferentes e nenhum destes tinha considerado aquele sinal perigoso. Além disso, a biópsia superficial realizada não indicava nada de grave. “Fui reassegurada pelos dermatologistas, consulta após consulta, não tinha com o que me preocupar”, explica Tarlie. E acrescenta: “Só em Outubro é que percebi que havia algo de errado, mas, ainda assim, não estava com muito medo, porque confiava no sistema. Tinha consultado médicos de excelente formação na China e nos EUA. Pensava que, se fosse um caso em evolução, eles demonstrariam uma maior preocupação”.

A remoção

Um cirurgião plástico removeu o melanoma a 11 de Dezembro, 10 meses após o seu aparecimento no Cambodja. Uma semana depois, Tarlie recebeu uma mensagem de voz do cirurgião, que pedia que ela entrasse em contacto. Ao marcar o número, ficou surpreendida ao reparar que ele lhe tinha dado o seu telefone pessoal. “Pareceu-me meio frustrado quando me identifiquei e disse do que se tratava”, relembra Tarlie. E adianta: “Deu para perceber que estava no aeroporto e meio esgotado. Disse-me ‘ah sim, és tu. Infelizmente os resultados chegaram e aquilo era um melanoma. Tenho que desligar agora, mas quero que vás ao site cancer.gov e confiras o teu prognóstico”.

Ao desligar, Tarlie visitou o cancer.gov, mas não teve forças para conferir as informações. Estava sozinha em casa. Começou a tentar freneticamente falar com a sua mãe, que estava no trabalho, e começou a mandar mensagens para amigos. Assim que entrou em contacto com a mãe, foi ao chão. “Disse-lhe ‘é melanoma’. Ela perguntou ‘do que é que estás a falar?’ E eu disse ‘é melanoma, é melanoma’”, recorda. De Dezembro de 2014 a Fevereiro de 2015, Tarlie passou por três cirurgias para remoção dos gânglios linfáticos do seu rosto e pescoço que poderiam ser afectados pelo cancro. No total, 20 gânglios foram removidos e o melanoma tinha atingido pelo menos dois.

“Cada minuto parece um dia inteiro quando estás na lista de espera para ser operada, ou quando esperas pelos resultados de cada cirurgia”, conta. E salienta: “Era como se alguém tivesse atirado um cobertor ao sol, um daqueles sonhos em que corres sem sair do lugar. Tudo passa devagar, com um clima de desespero no ar e não há muita luz”.

As cirurgias deram cabo de quaisquer resquícios do melanoma e Tarlie está assintomática há três anos. Infelizmente, o melanoma conta com uma alta taxa de reincidência, por isso submete-se a exames regulares para além de cuidar sempre da saúde e não se esquecer nunca do protector solar.

Tarlie é agora candidata a PhD em sociologia e políticas de saúde e está a considerar os próximos passos da sua carreira. Também vai passar o Verão a viajar pela Europa e pelos EUA. Acredita que , se possível, as pessoas devem procurar informações sobre o histórico de melanoma na família, bem como sobre melanoma modular e o "sinal do patinho feito". O melanoma, sim, pode ser prevenido. Proteger a pele dos raios ultravioletas e estar a par de métodos e técnicas de detecção pode ajudar a salvares a tua própria vida. “A probabilidade de reincidência diminui com o passar dos anos, mas nunca chega a ser insignificante”, afirma. E conclui: “Estou longe de estar segura”.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.