Como mulheres trans e drag queens abrem os caminhos na música pop brasileira
Mel Gonçalves. Foto: Kel Lima/VICE
Semana do Orgulho 2018

Como mulheres trans e drag queens abrem os caminhos na música pop brasileira

Mel Gonçalves, Lia Clark e Aretuza Lovi falam sobre a necessidade de naturalização da arte LGBT+.
31.5.18

Em agosto de 2017, Pabllo Vittar passou das 100 milhões de visualizações no YouTube com o megahit “K.O.”. O sucesso do som foi um marco não apenas para Pabllo, mas para drag queens do mundo inteiro, visto que nem Alaska Thunderfuck, nem Adore Delano, nem mesmo RuPaul com seu gigantesco “Sissy that Walk” tinham produzido um hit tão grande quanto a cantora maranhense.

Pabllo se tornou, seguramente, a maior drag queen cantora do mundo. Nos meses seguintes, ela veio a trabalhar com Anitta, Diplo, ganhar um Prêmio Multishow, ter correntes de fake news com seu nome no WhatsApp, aparecer em programas na TV aberta — basicamente, fazer um barulho gigantesco num país que mata por homofobia a cada 19 horas.

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Pabllo não foi a primeira representante do movimento LGBTQ na música brasileira, mas talvez seu sucesso estrondoso seja o sinal do poder de influência que essa comunidade vem angariando sobre a cultura. Na Semana do Orgulho LGBTQ 2018, o Noisey conversou com mulheres trans e drag queens cantoras que, da década passada pra cá, mas principalmente a partir da metade desta, têm aberto espaço para si na música pop.

Uma das pioneiras desse movimento foi a goiana Mel Gonçalves, que você talvez conheça por Candy Mel, ex-integrante da Banda Uó. Desde 2011, com o lançamento de “Shake de Amor”, o trio formado também por Davi Sabbag e Mateus Carrilho preencheu um espaço do pop-funk-brega que, antes deles, foi ocupado por bandas como o Bonde do Rolê, mas dessa vez com um forte apelo com o público LGBT. Mel, no entanto, demorou para falar publicamente que era uma mulher trans. “Quando eu cheguei, não existia nada disso. Era tudo muito complicado, era complicado falar sobre ser uma mulher trans. Eu ainda não tinha coragem de dizer,” falou durante uma entrevista feita em seu apartamento, no centro de São Paulo.

A Banda Uó foi formada em 2009 em Goiânia, mas o contato de Mel com a música vem desde infância, na igreja evangélica, quando cantava junto da avó. No começo da adolescência, quando começou a se identificar “de um jeito diferente”, a família religiosa não podia saber que ela era fã de artistas como Britney Spears e Christina Aguilera. “Eu colecionava álbuns de fotos, CDs. Ouvia no meu discman. Mas era tudo escondido.”

Mel Gonçalves. Foto: Kel Lima/VICE

A profissão de cantora, no entanto, só surgiu quando ela virou membro e "musa inspiradora", em suas próprias palavras, do grupo goiano que, após diversos hits como "Faz Uó" e "Catraca", chegou ao fim após o carnaval de 2018. A cantora, que agora usará seu nome verdadeiro Mel Gonçalves, está trabalhando num álbum solo cuja introspecção vai para além do nome artístico e pretende falar sobre questões de sua vida pessoal — inclusive, mas não apenas, sobre ser trans. “Eu sempre busquei falar da minha forma sobre os problemas que as pessoas trans sofrem, mas não necessariamente isso está embutido na minha música. É um viés.”

Atingindo um relativo sucesso em 2012, Mel admite, hoje, que foi uma das primeiras mulheres trans a despontar na música pop para um público majoritariamente LGBT. “Eu não sou a primeira mulher trans do Brasil a ter alguma voz, mas eu respeito o lugar que eu alcancei. Acho muito importante a história que eu tracei, e que venham outras junto comigo”, fala.

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O desejo de Mel já, de alguma maneira, se concretizou: Liniker fez de sua identidade de gênero um assunto amplamente discutido ao longo dos últimos anos, As Bahias e a Cozinha Mineira já contam com dois discos de sucesso sob seu nome. Até no hip hop abriram-se caminhos para MCs trans, como Linn da Quebrada e a paulistana Danna Lisboa.

Danna emplacou o hit "Quebradeira", com a participação de Gloria Groove, nos últimos meses, mas sua primeira letra data de 2004. Crescendo com um irmão MC e um DJ na zona norte de São Paulo, Danna conheceu os bailes black e rolês de rap da capital paulista bem no começo da adolescência — as referências de Wu-Tang Clan, Tupac e Biggie eram tão fortes quanto as de Britney e Destiny's Child. “Acho que sempre transitei em várias linguagens da música, escuto um pouco de tudo. Então faço isso na minha própria música, procurando trazer elementos de vários estilos pra não cair num lugar só”, falou a cantora durante uma entrevista feita na Associação Santa Cecília, antes de um ensaio.

Danna Lisboa. Foto: Larissa Zaidan

Depois de transicionar, Danna passou a escrever poesias sobre as dificuldades que enfrentou quando precisou começar a se prostituir, “porque a aceitação da transexualidade era muito restrita.” Mas o primeiro caminho escolhido pela cantora para se introduzir ao mundo da arte não foi o da música, mas o da dança. Conhecida na noite LGBT como Danna Black, ela chegou a participar do clipe de "Tombei", da Karol Conká. Nessa época ela conheceu o produtor Nelson D e deu forma ao seu primeiro single, "Trinks".

A cantora, que recentemente venceu um concurso da Laboratório Fantasma curado por Fióti pela oportunidade de gravar no Original's Studios, também fala em motivar mais mulheres trans — especialmente no hip hop. “As mulheres são muito resistência dentro do rap. Fico orgulhosa delas, e quero ter orgulho das minhas manas trans também”, fala. “O preconceito vai sempre existir. Mas só pelo fato de você ver uma travesti no palco, cantando, executando arte pra qualquer tipo de pessoa, você já tira ela de uma sub-existência.”

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Os caminhos abertos por mulheres trans e outros artistas LGBT na música foram o pano de fundo para o boom drag, como assim é chamado principalmente por suas maiores estrelas. Além de Pabllo Vittar, Gloria Groove e Aretuza Lovi são apontadas como as maiores representantes desse movimento e, juntas, gravaram "Joga a Bunda", que Aretuza define como um "hino" das drag queens brasileiras.

Aretuza Lovi. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Aretuza se chama Bruno Nascimento e é originalmente do interior do Goiás, mas saiu de casa aos 16 anos para “viver no mundo da música”, trabalhando como produtor e camareiro de bandas do Recife, Palmas, Belém do Pará e Brasília antes de conhecer a arte drag e embarcar na carreira de músico. Quando Aretuza Lovi surgiu, impulsionada por uma brincadeira com amigos, trabalhava na noite LGBT de Brasília como apresentadora e humorista.

“O personagem caiu no gosto do público. Não tinha esse boom drag, mas eu já comecei a gravar música e fazer minhas coisas. Nenhuma bombou até ‘Catuaba’”, me contou Aretuza, durante uma entrevista em São Paulo entre uma prova de roupa e uma viagem a Maceió. Quando ela começou a fazer som, no início da década, investia no tecnobrega que tinha conhecido no Belém do Pará, mas acabou desistindo do gênero num momento de crise. Em julho de 2016, ela estava disposta a largar a carreira de cantora quando, voltando de uma inscrição no vestibular, se deparou com um cartaz que divulgava Catuaba. Dentro do ônibus, escreveu a letra toda do que mais tarde se tornou um hit com a participação de Gloria Groove.

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Do boom que produziu ainda outros hits, como "Open Bar" e "Dona", surgiu também Lia Clark, que ao contrário de suas contemporâneas investe num som talvez menos esperado para artistas LGBTs: o funk. Em seu maior hit, "Chifrudo", de janeiro de 2017, Lia se junta à funkeira trans MC Pepita. MC Trans também é um nome proeminente na cena. Lia conta, quando a entrevistei no apartamento de seu produtor Pedrowl, no centro de São Paulo, que o interesse por funk veio naturalmente, já que, como Rhael de Oliveira, cresceu no bairro do Macuco, periferia da cidade litorânea de Santos. “Os carros passavam tocando funk na época do Furacão 2000. Era muito fã de Gaiola das Popozudas, Tati Quebra Barraco. Depois veio essa nova geração, Anitta, Ludmilla, Valesca solo. Foi tudo me interessando.”

Lia Clark. Foto: Larissa Zaidan

Já como Lia Clark, ela passou a ser conhecida nas boates como "a drag que tocava funk". “Em algum momento, pensei assim: por que eu não toco um funk meu? Por que eu não posso ter um funk?” Depois de conversar com Pedrowl, que também estava começando a produzir, surgiu "Trava Trava" no começo de 2016.

Com já alguns outros hits em seu nome (inclusive "TOME CUrtindo", com participação da Pabllo Vittar), Lia atribui seu sucesso ao público LGBT e diz não ter tanto interesse em expandir seu som para além dele. “Meu som é um pouco segmentado. Atualmente eu faço mais pro pessoal que já me conhece, não fico sonhando muito. Estou pé no chão, fazendo mais por diversão e porque virou um trabalho.” Ela também reconhece e aprecia a influência que Pabllo teve em impulsionar sua carreira e a de outras drag queens que vieram e estão por vir.

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“A gente vê a Pabllo aí cantando no Faustão, ganhando prêmio no Luciano Huck, apresentando programa no Multishow e acho que isso, além de encorajar quem já está no meio, encoraja todas as outras drags que querem começar”, fala. “As drags tão sendo vistas não só como uma arte de boate à noite, tá virando uma coisa muito maior. Existem drags que fazem trabalhos como modelos, apresentadoras, cantoras, atriz. É uma arte que está sendo ampliada – não só as drags, mas os LGBTs estão sendo reconhecidos como pessoas talentosas hoje em dia.”

Por mais que a comunidade LGBT tenha ganhado força e aumentado o alcance de suas vozes com a ascensão dessas cantoras, todas comentaram sobre a necessidade de naturalização da música e arte feita por gays, lésbicas, bissexuais, travestis, homens e mulheres trans e drag queens. aEnquanto Mel Gonçalves fala sobre o comportamento transfóbico da indústria da música num geral, Aretuza questiona a rotulação de "cantora drag queen". “Por que eu tenho que ser ‘a drag Aretuza’? Não podem me chamar só de Aretuza? Eu sou diferente dos artista porque eu me visto de mulher? Ser drag é uma arte, eu sou um ator. Essa denominação, esse rótulo, não tem que existir.”

Danna complementa: “Fazer música, para nós, não é só uma vontade artística. Existe uma necessidade de naturalização das pessoas trans no universo, seja musical ou no cotidiano. E o melhor caminho para isso é pela música e pela arte.”

Esta matéria faz parte da nossa série especial pra Semana do Orgulho 2018.

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