A revolução de Fiumani é feita de rostos, luta diária e arte na rua

"A rua merece muito mais do que algo meramente estético - dou cada vez mais importância à mensagem".

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16 Maio 2018, 8:34am

"Mais um dia nesta vida". É assim que começa o texto que narra o vídeo de Filippo Fiumani (a.k.a MANI), no qual o artista - italiano há muito a viver em Portugal e habitual colaborador da VICE - percorre Lisboa a colar as suas peças nas paredes - rostos repletos de críticas sociais, mas também carregados de esperança na mudança, de um desejo incontrolável de ver uma sociedade que se valoriza não pelo dinheiro, mas pelo amor, pela arte, pelas capacidades de cada um... pela união.

"Untitled Project", o vídeo (que podes ver acima) é "um hino a todos aqueles que lutam todos os dias para se manterem autênticos e verdadeiros numa sociedade cada vez mais ilusória e construída". Aos artistas independentes e aos "heróis da classe trabalhadora".

Mais um dia nesta vida. Em que a crise dos refugiados é vista por tantos como um mal para a economia e não como um problema humanitário. Em que acordamos todas as manhãs com mais notícias de bombardeamentos, com mais guerras e destruição, com mais homens ao estilo de Trump a conquistarem fama e poder.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Mais um dia nesta vida. Uma vida frenética de trabalhos mal pagos para conseguir viver em casas que são pouco mais do que merdosas. De estudantes que investem todo o seu dinheiro e tempo em cursos e mestrados, para acabarem a ser considerados todos parcamente iguais, presos num círculo vicioso de procura de trabalho, em que lhes é tão difícil destacar-se e em que tão raramente se sentem recompensados.

Mais um dia nesta vida. De preconceitos e injustiças, de conflitos e ódios, de crises económicas escondidas nos cantinhos refundidos do capitalismo. De bancos mentirosos e de empresas aldrabonas, de gente que tem tanto para dar, mas a quem não se lhes dá oportunidades. Uma vida com as prioridades trocadas, em que dinheiro se sobrepõe à felicidade - ou é visto como sinónimo da mesma - e em que todos nós dizemos que a vida é para ser aproveitada, mas acabamos a passá-la por inteiro fechados em escritórios, a tomar banhos de luz artificial.

Mais um dia... mas hoje, Fiumani pede-nos mais - um pouco mais de nós. Pede-nos um olhar mais crítico, pede-nos que nos auto-avaliemos, que tentemos ser melhores - fazer melhor, dar um bocadinho mais de nós ao Mundo. Pede-nos uma revolução.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

No vídeo acima, Fiumani mostra-nos um olhar sobre um projecto que é, em si, um apelo a essa revolução. Um mini documentário produzido pelo próprio e pelo irmão, com a participação da sua companheira e actriz Irma Dali, de Carolina Deslandes, de Blaya, Paulo Pascal e Soraia Tavares, entre outras pessoas que com ele partilharam histórias e medos e que inspiraram a sua arte e a sua luta por um Mundo melhor. Falámos com Filippo sobre essa luta, desejos revolucionários e sobre como é que a arte urbana pode ser uma ferramenta para trabalhar a mudança.

VICE: De onde te veio a inspiração para este projecto?

Filippo Fiumani: Este projecto é um olhar sincero sobre questões sociais, sobre como vivemos nesta selva de cimento. Às vezes a pintura não chega para exteriorizar tudo o que sinto e o que imagino, por isso desta vez escrevi um texto. Não é um statement, está aberto a interpretações e chega até a ser um pouco poético, mas deixa claras as questões que considero fundamentais.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Que tipo de situações fazem com que sintas esse desejo de mudança, talvez um tanto revolucionário, contra o status quo? Quais são os males para os quais queres chamar a atenção?

Os males no Mundo são vários, por isso ainda bem que perguntas no plural. No caso deste trabalho, acredito que o mais relevante – ou o que mais me toca como pessoa, assim como a muitas pessoas com quem falei – é o custo de vida. Lidar com custos que não param de subir enquanto os salários mínimos não acompanham esta subida.

Outro é a dificuldade que temos em pensar numa direcção para a humanidade, porque nos é mais fácil perder o tempo a falar sobre o último produto lançado no mercado. Sinto que vivemos numa sociedade onde ninguém se sente responsável pelo dia de amanhã e isto, a meu ver, cura-se com uma revolução interna, em que cada um de nós tenta evoluir, oferecendo o melhor à comunidade.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Quais são as principais mensagens que queres passar?

Ter esperança na humanidade e a necessidade de acreditar no nosso potencial, como indivíduos e como sociedade. Acho que isso nos tornará mais conscientes do barco onde todos estamos metidos. Nós não somos Portugal, somos o Mundo. As fronteiras são linhas imaginárias, criadas para nos diferenciar. Quanto melhor percebermos isso, menos violência e injustiças teremos.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Como é que surgiu a ideia de apresentar o projecto através de um vídeo, ainda por cima narrado?

Normalmente, a minha necessidade de exteriorizar o que penso sai em forma de telas no meu estúdio ou de trabalhos pelas ruas. Desta vez quis experimentar algo mais completo, portanto escrevi um texto para me tentar ajudar a mim próprio a reflectir sobre algumas questões. Não gostei do primeiro esboço que escrevi, porque quando se fala em problemas sociais é muito fácil perdermo-nos na negatividade, por isso esforcei-me para procurar soluções e não apenas críticas.

Acabei por reduzir muito o texto e tornou-se quase num poema. Mostrei-o aos meus irmãos Mattia Fiumani (realizador e editor do vídeo) e Lorenzo Fiumani (sound designer) e à minha namorada Irma, que é actriz. Foi aí que surgiu a ideia de fazer um vídeo narrado para acompanhar o trabalho de rua. Hoje em dia, todos nós passamos muito tempo na Internet, por isso um vídeo pareceu-me o instrumento indicado para comunicar com mais pessoas. Os meus irmãos vieram de Itália para Portugal para passar uma semana comigo e dar vida ao projecto. O Mattia e a sua câmara seguiram-me em noites de colagens e o Lourenzo, para além de me ajudar a criar as peças, andou por Lisboa a gravar sons para, depois, montar a malha do vídeo. Trabalhamos juntos de vez em quando, sob o nome Fiumani Video Producer e já produzimos para algumas labels de música como a Ninja Tune, em Los Angeles, e a Enchufada, em Lisboa.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Podes explicar como é que foi o processo criativo, visto que envolveu não só street art como vídeo e escrita?

Foi muito interessante e duro ao mesmo tempo, até porque o clip foi produzido de forma independente, saiu tudo do nosso bolso, sem nenhum esquema lucrativo – aliás, a ideia sempre foi consciencializar, por isso a nossa moeda foi a criatividade e as muitas horas de dedicação.

Também nunca tinha tido alguém a seguir-me com câmaras durante a noite - felizmente as coisas correram lindamente! – o que, do ponto de vista criativo, é muito puxado, porque para além de pensar na colagem da peça em si temos que avaliar o enquadramento da filmagem. Por outro lado, por ter sido um projecto maioritariamente feito na rua, permitiu-nos conhecer muitas pessoas, conhecer as suas histórias e incorporá-las na nossa narrativa.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Como criador de arte urbana, o que é que a rua significa para ti?
Para mim a rua é um ponto de encontro, de trocas de ideias e de inspiração. Só que a rua também tem espaços à venda, que acabam por a transformar numa manifestação de capitalismo - mas a realidade é que a rua é nossa, acredito que merece ser mais do que um supermercado ou uma galeria de “arte ornamental”.

Na minha imaginação, a rua é como um livro onde as pessoas podem partilhar experiências e inspirar-se umas com as outras. Como um sítio em que se pode pensar e não apenas absorver publicidade ou informações desnecessárias. Escrever o próprio nome na cidade não chega na street art. Com os anos apercebi-me de que a rua merecia muito mais do que apenas o meu nome, ou algo meramente estético. Dou cada vez mais importância à mensagem.

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

O que sentiste ao trabalhar com as pessoas que se envolveram e foram alvo do projecto?

Foi inspirador e uma grande ajuda para acreditar no que estávamos a fazer. As caras que estão coladas na rua têm os olhos e bocas de muitas pessoas amigas, que partilharam comigo histórias e dificuldades que a vida lhes deu. Se tudo isto está a acontecer, é a prova de que há esperança.

O que achas desta aparente explosão da arte urbana? Parece que agora toda a gente está interessada nos artistas de street art e no que eles fazem. Apropriação ou evolução natural da arte?

Essa explosão do interesse na arte urbana é óptima! É muito positivo ter interesse no que se passa nas ruas, desde que haja uma mensagem concreta e clara na arte que oferecemos às pessoas.

Não sou fã de arte ornamental ou “bonita” e, às vezes, parece-me que este interesse das pessoas na arte é mais uma moda do que um interesse genuíno no que se passa. Isto leva-me a pensar que nós, artistas, somos os responsáveis pela arte enquanto instrumento de comunicação. Eu, como criador e pessoa, devia ter sempre como foco ajudar as coisas a melhorar – não deveria ser esse, afinal, o papel da arte?

Foto cortesia Filippo Fiumani / Fiumani

Mas, vês alguma coisa errada no facto de artistas trabalharem para marcas, por exemplo?

Cada caso é um caso, mas no geral não. Acho que podem ser oportunidades para o artista evoluir e consciencializar. Pessoalmente, sempre trabalhei mais com músicos do que com marcas, sinto-me mais em sintonia ao trabalhar com outro artista (de música, neste caso). Contudo, principalmente como designer, percebo que é complicado não aceitar trabalhos com marcas – no fim de contas, o nosso ordenado depende disso.


Podes acompanhar o trabalho de Filippo Fiumani no seu site e no Instagram.

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