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O massacre continua em Ghouta Oriental, na Síria

A ONU convocou um cessar-fogo, mas no terreno a mortandade não parou. Há ainda suspeitas de utilização de armas químicas por parte do regime de Bashar Assad.
Na imagem, cedida em Setembro de 2017 pelo Ghouta Media Center, vê-se fumo e detritos, depois de um bombardeamento por parte do governo sírio ao bairro de Jobar, em Damasco, controlado pelas forças de oposição ao regime (Ghouta Media Center, via AP)

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News.

Os aviões de guerra russos e sírios continuaram na segunda-feira, 26 de Fevereiro, a atacar o já devastado enclave rebelde de Ghouta Oriental, mesmo depois de a ONU ter aprovado unanimemente uma resolução de cessar-fogo, “sem atraso”. O ataque intensificado, que começou há pouco mais de uma semana, prolonga um dos episódios mais sangrentos destes sete anos de guerra civil na Síria.

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Pelo menos 550 pessoas - entre as quais 120 menores - foram mortas nos últimos oito dias nesta zona dos subúrbios de Damasco, capital síria, onde vivem mais de 400 mil pessoas, segundo o gabinete de informação Syrian Observatory for Human Rights, sediado no Reino Unido. O número de vítimas inclui 24 pessoas que morreram já durante as 24 horas seguintes à ONU ter pedido o cessar-fogo, no sábado, 24 de Fevereiro.

O ataque do governo sírio, liderado por Bashar Assad e pelo seu maior aliado estrangeiro, a Rússia, é já considerado um dos mais violentos desde o início da guerra civil. Mais de 250 pessoas foram mortas nas primeiras 48 horas, marcando a taxa de mortalidade mais alta no espaço de dois dias desde o ataque de armas químicas em 2013, na mesma região, segundo o Observatory. A Amnistia Internacional diz que estes bombardeamentos se devem somar aos crimes de guerra e, no último fim-de-semana, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, implorou aos combatentes que “acabassem com este inferno na Terra”.


Vê: "A luta pelos sírios desaparecidos"


Apenas minutos depois do Security Council da ONU ter convocado o cessar-fogo de 30 dias para poder enviar ajuda humanitária, os aviões de guerra já estavam novamente a sobrevoar a região, segundo conta uma testemunha local à Reuters. Apesar da espiral de violência, não foram reportadas quaisquer conquistas substanciais de território.

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Ainda na segunda-feira, 26, a Rússia anunciou um intervalo diário de cinco horas nos bombardeamentos, das nove da manhã às duas da tarde, a começar na terça-feira, 27. No entanto, Jonathan Allen, deputado embaixador inglês para as Nações Unidas, diz que uma pausa diária não significa nada. “Isso não é o cumprimento daquilo que foi acordado no sábado. Contudo, mostra que a implementação é possível”, salienta Allen em declarações aos jornalistas.

A pausa diária irá coincidir com a abertura de um corredor de ajuda humanitária dedicado a ajudar os civis a sair do terreno, segundo avança a Tass, a agência pública de notícias russa. Uma mudança que, todavia, não vai ser suficiente para permitir que essa ajuda entre na região devastada para aliviar a catástrofe, garante à VICE News uma das trabalhadoras humanitárias baseada em Damasco.

A enorme complexidade do conflito sírio - no qual múltiplos grupos de rebeldes e militares estrangeiros estão em confronto directo numa espiral ascendente de caos – está a bloquear o alcance dos esforços humanitários dada a dificuldade de garantir um cessar-fogo por parte de todos os grupos, salienta a mesma fonte. O Comité Internacional da Cruz Vermelha, por exemplo, não consegue acesso directo ao terreno em Gouhta Oriental desde Novembro de 2017.

“Não conseguimos fazer o nosso trabalho”, explica à VICE News Ingy Sedky, porta-voz do comité. E acrescenta: “O problema é não termos o consentimento de todas as partes que estão a lutar no terreno na Síria, ou em Ghouta Oriental neste caso particular. Não conseguimos enviar um comboio de ajuda nesta situação".

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Para além da infração à ordem de cessar-fogo, novos relatórios têm circulado nestes últimos dias sobre a continuação do uso de gás de cloro como arma química, apesar de Sergei Lavrov, ministro dos negócios estrangeiros russo, assegurar que "estas alegações são uma farsa".

No domingo, através do Twitter, a Syrian American Medical Society revelou que tinha registo de 16 pacientes a sofrerem de exposição a armas químicas o que, segundo o grupo, representa a 197ª vez que armas químicas foram usadas na Síria desde 2011 e a 70ª vez que foram usadas em 2018.


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