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Drogas

A minha época como repórter na cidade mais perigosa do Mundo

O espanhol Alberto Arce fazia o que, nas Honduras, se conhece como “jornalismo vermelho”, a cobertura das notícias mais sangrentas.

Por Amelia Abraham; Traduzido por Madalena Maltez
14 Março 2018, 12:54pm

Ilustração por Germán Andino.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O jornalista espanhol Alberto Arce trabalhou como correspondente estrangeiro em 10 países, da Líbia ao México, mas Honduras, assegura, foi de longe o território mais violento onde esteve fora de uma zona de guerra. Em 2017, a média foi de 338 homicídios por mês naquele país e, entre 2012 e 2015 – quando o número era ainda mais alto – a função de Arce passava por aparecer nessas cenas de crime e extrair informação de polícias relutantes e vítimas traumatizadas. Um trabalho conhecido localmente como “jornalismo vermelho” (por causa do sangue).

No seu novo livro Blood Barrios: Dispatches from the World's Deadliest Streets, Arce leva o leitor por alguns dos crimes que investigou na capital das Honduras, Tegucigalpa, pelos seus testemunhos de violência policial, assassinatos, prisões superlotadas, crime juvenil, tráfico de cocaína e extorsão. Depois de ler as histórias do livro, de considerar o quanto a sua busca pela verdade pisava os calos de polícias e políticos corruptos, descobrir que as Honduras tem a maior taxa de jornalistas assassinados per capita (31 foram mortos entre 2010 e 2013, segundo o Jornalistas Sem Fronteiras), fica-se a imaginar porque é que Arce foi para lá - e como é que de lá saiu com vida.

Falámos com o repórter, que agora é professor, sobre a epidemia de violência nas Honduras e porque é que isso se relaciona diretamente com a forma como vivemos no Ocidente.


Vê: "Art World: Graffiti para salvar uma geração"


VICE: Olá, Alberto. Em 2012, Aceitaste um emprego como repórter para a Associated Press em Tegucigalpa, Honduras. Porque é que aceitaste o trabalho? Na época, sabias dos riscos?
Alberto Arce: Não há uma razão, tirando que foi o único trabalho que consegui naquele momento. Estava a morar na Guatemala com a minha mulher e filho e não ganhava o suficiente. Não sabia nada sobre a situação em Tegucigalpa. Quando pesquisei, percebi que era um lugar totalmente problemático para me mudar com a família, senti que seria uma tarefa muito difícil, mas quando se é um trabalhador e se precisa de um emprego, aceita-se o que vier. Portanto, levei a minha esposa e filho comigo. Não há como garantir a segurança de ninguém em Tegucigalpa – uma pessoa só pode cuidar dos seus e morar num lugar em que se sente seguro, o que não significa que se está seguro. Fiquei por lá três anos, até a empresa decidir que a minha família era um alvo muito fácil e que não queria correr o risco.

"Disse ao polícia: 'Porque é que esse homem está a chorar?', ele respondeu-me: 'Está a chorar porque sabe que, normalmente, o iríamos matar, mas que não o vamos matar porque estás aqui'".

Para alguém que nunca ouviu o termo “jornalismo vermelho”, será que podes explicar?
Se és um correspondente estrangeiro em Tegucigalpa, ou em San Pedro Sula, e queres saber o que está a acontecer, tens que estar nas ruas e seguir o crime. O que quer dizer entrar numa viatura da polícia, ou viajar atrás de uma ambulância para as cenas de crimes. Nas cenas de crime começas com a história, a fazer perguntas que te podem levar a descobrir várias mentiras e explicações do que está a acontecer no país.

Qual foi o momento em que descobriste a gravidade da situação em que te tinhas metido?
Era uma da manhã, estava a patrulhar e vi um membro do gangue MS13 a ser preso pela polícia. Ele estava de joelhos, algemado e chorava. Foi um choque para mim e disse ao policia: “Porque é que esse homem está a chorar?, ele respondeu-me: “Está a chorar porque sabe que, normalmente, o iríamos matar, mas que não o vamos matar porque estás aqui". Só estava no país há duas semanas e um policia disse-me abertamente que matavam criminosos. Naquele momento percebi no que me tinha metido, mas demorei um ano e meio para escrever sobre violência policial.

Qual era a história?
Um dia, abri um jornal e vi a fotografia de um membro de um gang a ser torturado pela polícia. No dia seguinte, comecei à procura desse gajo. Achei que ele estava vivo, porque tinha sido preso, mas depois percebi que tinha desaparecido. Descobri que a polícia tirava fotografias dessas sessões, partilhava-as com fotógrafos locais e um jornalista de um dos maiores jornais da cidade tinha publicado a foto por engano. Fui falar com ele, que me disse que estava a ser ameaçado. Há uma relação perversa entre os repórteres locais e a polícia, onde eles partilham informação e usam membros de gangs como troféus. Estão todos envolvidos: polícias, repórteres, cameramen – todos jogam o jogo da partilha de fotografias de corpos.

Porquê?
Vamos dizer que há uma crença social geral de que membros de gangs devem ser exterminados, a maioria concorda com isso: polícias que o fazem, políticos que o toleram e a sociedade em geral. E, dentro da sociedade, há jornalistas que decidem não fazer muitas perguntas aos políticos e às forças policiais, também porque acreditam nas políticas de limpeza social. Ninguém está interessado em impedir que isso aconteça.

Falas sobre quão corrupto é o jornalismo nas Honduras e como pode ser perigoso. Chegaste a ser ameaçado, ou alguma vez te tentaram subornar?
Nunca me tentaram subornar. Não sei porquê. Também não recebi ameaças directas. Mas, muitas pessoas à minha volta repetiam: “Se continuares a fazer isso, vais ter problemas”. Ouve-se isso tantas vezes que dói. Algumas pessoas dizem-to, porque se preocupam contigo, outras dizem para te assustar. Depois de dois ou três anos, muitas pessoas não queriam sequer falar comigo.

Senti-me muito isolado. Mas, em termos de perigo, o facto é que há uma realidade desconfortável nas ruas, onde muitas pessoas são assassinadas porque alguém lhes queria roubar dinheiro, o telemóvel ou a mochila. Tudo pode acontecer com qualquer um e por qualquer razão, por mais parva que seja.

Quando trabalhavas com informadores, temias meter alguém em problemas?
Fiz uma longa entrevista com um advogado de um movimento campesino que foi assassinado dois dias depois de falar comigo, mas acho que a morte dele não teve nada a ver comigo. Tenho a certeza. No entanto, habituas-te à situação em que as pessoas com quem falas são mortas mais tarde – e precisas de aprender a viver com isso. Um dos problemas nas Honduras é que ninguém sabe porque é que as pessoas são assassinadas, por causa da impunidade.

Germán Andino.

Juntamente com El Salvador, a taxa de homicídios nas Honduras é a maior do Mundo. Quem é assassinado?
Quando se vêem taxas de homicídio como as das Honduras, com sete mil mortos por ano, não se pode achar que todos os que morrem são criminosos – alguns eram só pessoas comuns, na rua errada, à hora errada. E, por outro lado, lá porque se é um criminoso não significa que se merece morrer. Não podemos julgar desta forma a decisão destes adolescentes de entrarem para o crime organizado. São pessoas que vivem na pobreza e sem escolhas de vida. Transportar um tijolo de cocaína por 10 quilómetros rende o mesmo num dia do que um ano inteiro de trabalho em turnos de 14 horas numa fábrica. Essa é a natureza do capitalismo, fazer o máximo de dinheiro com o menor esforço e no menor tempo possível.

No livro dizes que cada linha de cocaína cheirada no hemisfério norte é uma morte nas Honduras. Pode falar mais sobre isso?
Quero deixar claro que não sou um moralista e não julgo quem consome drogas – eu mesmo consumo. Mas, o nosso consumo tem consequências. As Honduras fica entre a Colômbia e a Venezuela, com os EUA a norte, o que torna o país num lugar estratégico na logística do transporte de drogas. A cocaína chega de barco ou de avião à Costa dos Mosquitos – a costa caribenha das Honduras – e toma o caminho por terra através do México até aos EUA.


Vê: "Gangs de El Salvador"


Os gangs de traficantes lutam pelo controlo das rotas, mas também compram, vendem, controlam e subornam polícias, soldados, parlamentares, ministros e presidentes, de forma a protegerem o seu lucro. Deixam estes territórios como estados falhados, onde toda a gente tenta beneficiar da extorsão, roubo e sequestro. Há, portanto, uma ligação directa entre o consumo de cocaína nas cidades norte-americanas e a violência nas Honduras. Mas, é a mesma conexão entre comprar roupas baratas na Zara ou na H&M e as pessoas que trabalham em condições horríveis para as fazer. Temos que ter consciência disso.

Com um sistema cheio de corrupção, redes de crime organizado com tentáculos por toda a parte e essa taxa de assassinatos, vês alguma forma de tudo isto melhorar?
Sou uma pessoa muito pessimista por natureza, por isso não vejo as coisas a melhorar. O que está a acontecer agora é que as Honduras está a rumar para um regime autoritário, controlado pelo exército e políticos. É uma democracia formal, mas está cada vez mais perto de uma ditadura. É algo que tem vindo a acontecer lentamente. E a coisa só está a piorar em termos de corrupção e controlo militar do partido nacional, além de no exército e com os EUA. O número oficial de mortes está a cair, mas não acredito nisso. O que precisamos é de um governo de leis, ou estamos cada vez mais perto de uma situação alienada.

Dizes que a expressão “trabalhamos para que o mundo saiba”, é uma mentira contada entre jornalistas – acreditas mesmo nisso?
Não me vou comparar com os jornalistas hondurenhos, mas cada um tem uma escolha sobre quem quer ser na vida. Não acho que faça diferença, mas estou aqui para testemunhar. Quando lês o meu livro sobre as Honduras e moras nos EUA, por exemplo, quero que percebas que essa pessoa a trabalhar num restaurante sem documentação é um cidadão com os mesmos direitos que tu – que saiu das Honduras porque não podia viver lá e que, quando políticos dizem que querem mandar imigrantes de volta para os seus países, frequentemente estão a mandá-los para a morte. Para mim, isso é fascismo.


@millyabraham

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