Mundial de Futebol Feminino 2019

Um problema de dinheiro: o futebol feminino é mais popular que nunca, mas a igualdade salarial ainda está longe

Há cada vez mais selecções nacionais forçadas a levar a tribunal as suas federações numa luta pela igualdade.

Por Florence Lloyd-Hughes; Traduzido por Madalena Maltez
11 Junho 2019, 2:28pm

Foto por Daniel Bartel/Icon Sportswire via Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

O futebol feminino tornou-se mainstream. Hoje, finalmente, faz parte de um debate desportivo mais alargado e espera-se que o Mundial de França - que arrancou na sexta-feira, 7 de Junho e se prolonga até 7 de Julho - seja a mais celebrada edição da história do torneio. Pela primeira vez, as marcas querem investir no jogo, não apenas para se sentirem melhor, mas porque há potencial de retorno do investimento. A Nike lançou os seus primeiros kits específicos para mulheres e o banco Barclays assinou, recentemente, um contrato de três anos e 10 milhões de libras [mais de 11 milhões de euros] para ser o primeiro patrocinador da Super League (WSL) de Inglaterra.

No entanto, apesar de toda a histeria e emoção em torno do torneio em França, ainda há um elemento-chave do futebol feminino que está a quilómetros de distância do masculino e que é muito improvável que se venha a tornar igual ou sequer a aproximar num futuro próximo. Em 2017, um relatório da FIFPro, uma organização internacional representante de jogadores, descobriu que a maioria das mulheres na Super League do Reino Unido ganha menos de 18 mil libras [cerca de 20 mil euros] por ano; na gigante capitalista que é a Premier League masculina, o salário anual médio dos jogadores é de cerca de 2.6 milhões de libras [2.9 milhões de euros].

Muitas das mulheres que jogam na WSL - e a maioria das jogadoras de segunda divisão do Championship - são forçadas a complementar os seus ordenados com segundos empregos. Gilly Flaherty, capitã do West Ham United Women, é dona de um centro de crioterapia em Essex, enquanto Shannon Maloney, do Lewes FC, da segunda divisão, trabalha como professora. [Nota do editor: em Portugal o panorama é ainda mais dramático, como se pode facilmente depreender de uma breve leitura deste artigo publicado pelo Expresso o ano passado, com base no mesmo relatório acima citado e que, entre outros dados, revela que apenas 7,3 por cento das jogadoras da Liga portuguesa são profissionais e que 58,1% nem sequer recebem qualquer remuneração].


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O Lewes FC, de Maloney, liderou os pedidos para que a Associação de Futebol de Inglaterra aumentasse o dinheiro do prémio da Women’s FA Cup. De momento, a equipa vencedora ganha apenas 25 mil libras [28 mil euros], enquanto o campeão masculino factura 3.6 milhões de libras [cerca de quatro milhões de euros]. O Lewes pode falar porque, pelo menos, é um clube que tenta cumprir o que apregoa. Em 2017, o clube decidiu pagar à equipa feminina o mesmo que à masculina, como parte da campanha Equality FC.

Foi a primeira vez que um clube de futebol profissional tomou esta decisão. No entanto, por mais admirável que tenha sido, vale a pena notar que a equipa feminina do Lewes é consideravelmente mais bem sucedida do que a dos seus pares masculinos. No ano passado, os homens do Lewes terminaram em 11º na sétima divisão do futebol inglês, enquanto a equipa feminina terminou em nono no Championship.

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Megan Rapinoe. Foto: Mike Lawrie / Getty Images

Na Dinamarca, a selecção masculina ofereceu-se para tentar acabar com a discrepância de ordenado servindo de intermediária entre a equipa feminina e a Federação Dinamarquesa de Futebol (DBU). Em 2017, a equipa feminina da Dinamarca acabou por faltar a um jogo amigável contra a Holanda e sofrer uma derrota contra a Suécia num jogo de qualificação para o Mundial, porque estava em greve, numa tentativa de desafiar a DBU a rever o estatuto laboral e salarial.

A equipa masculina ofereceu-se para doar cerca de 67 mil euros para tentar acabar com o impasse, mas a Associação de Futebol dinamarquesa recusou. O lado das mulheres acabou por concordar com um acordo melhorado, no qual o investimento na equipa feminina aumentou em cerca de dois milhões de coroas dinamarquesas (cerca de 266.000 euros) e que prevê um aumento salarial na ordem 60 por cento em caso de a equipa conseguir ser classificada para um grande torneio.

A Suécia conseguiu uma vitória por 3-0 no jogo a que a Dinamarca faltou e as dinamarquesas não conseguiram ser classificadas para o Mundial de 2019, perdendo para a Holanda nas semifinais dos playoffs.


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Mas, a mudança que é necessária em todos os desportos vai precisar de esforços de mais do que apenas um corpo governante: há toda uma mudança de atitude na maneira como entendemos o progresso que tem de acontecer. Para chegar Às taxas de direitos televisivos e, portanto, a uma maior remuneração para as jogadoras, o futebol feminino precisa de ser correctamente comercializado. Precisa de ser apresentado como um produto atraente, que as televisões queiram disputar. As jogadoras de futebol feminino não estão a chorar por salários como o do Neymar - elas querem apenas comprometerem-se a serem atletas profissionais, a tempo inteiro, sem terem que manter um segundo emprego. A única maneira pela qual uma mulher neste desporto pode aspirar a ter uma vida decente se as coisas continuarem assim é se tiverem um contrato central com a sua equipa nacional e alguns acordos de patrocínios, que não sejam somente receberem chuteiras grátis.

"Em última análise, estamos a fazer o mesmo trabalho que os homens, mas percebo que não estamos a encher os estádios", disse recentemente Fran Kirby, do Chelsea e Inglaterra, quando jornalistas lhe perguntaram se as Lionesses deveriam receber o mesmo que a equipa masculina de Inglaterra. Kirby acrescentou que as coisas podem melhorar se a Inglaterra vencer o Mundial de França - mas, basta-nos olhar para o exemplo desta equipa feminina que ganhou o torneio não uma, mas três vezes, tendo ganho mais do que o lado masculino alguma vez ganhou, para perceber que isso, provavelmente, é apenas a esperança a falar.

Em Março, a selecção nacional feminina dos EUA entrou na justiça com uma acção por discriminação de género contra a Federação Americana de Futebol (USSF), acusando-a de "discriminação de género institucionalizada". A acção citava o facto de que o desempenho da equipa feminina "tinha sido superior ao dos jogadores do sexo masculino - sendo que as jogadoras, ao contrário dos jogadores do sexo masculino, foram campeãs mundiais".

A equipa feminina dos EUA tem quatro títulos olímpicos a fazerem companhia aos seus troféus do Mundial e já há algum tempo que são a equipa número um do Mundo. Por outro lado, os homens não conseguiram ser classificados para o Mundial de 2018 na Rússia e desde 1930 que não conseguem passar dos quartos de final nos torneios mundiais para os quais se classificam.

E esta nem sequer a primeira vez que as mulheres norte-americanas decidiram lutar por um acordo melhor. Há 19e anos, a equipa entrou em greve e boicotou um torneio na Austrália pouco depois de conquistar a sua famosa vitória no Mundial de 1999. Em 2016, cinco jogadoras cruciais da equipa - Carli Lloyd, Megan Rapinoe, Rebecca Sauerbrunn, Hope Solo e Alex Morgan - também apresentaram uma queixa por discriminação salarial na Comissão de Oportunidades Iguais de Emprego dos EUA. Essas jogadoras acabaram por desempenhar um papel de protagonistas na vitória dos EUA no Mundial de 2015 e queriam pressionar a EEOC a investigar a estrutura de pagamentos do FSU, sendo que, na época, os salários eram 40 por cento mais baixos que os da equipa masculina.

Este caso legal continua por resolver, mas a EEOC emitiu cartas no mês passado nas quais daria a todas, excepto a Solo - que já não joga pelos EUA - o direito de processar a entidade. Recentemente, Solo, comemorou a sua própria vitória contra as autoridades: no ano passado, ela apresentou uma queixa contra o USSF junto do Comité Olímpico dos EUA, alegando que a federação de futebol não estava a apoiar financeiramente as suas atletas femininas e os membros das equipas paralímpicas. Um painel de árbitros independente determinou que o USSF está a violar a Lei de Desportos Olímpicos e Amadores de Ted Stevens, que protege atletas individuais.

A equipa feminina australiana, conhecida como Matildas, encenou uma luta parecida, porém menos divulgada, contra a Federação Australiana de Futebol após o Mundial 2015. No torneio, as jogadoras receberam apenas uma bonificação de 500 dólares australianos por jogo (309 euros], muito abaixo dos 7.500 dólares australianos [4.628 euros] que a equipa masculina recebe em eventos semelhantes.

A acção judicial ajudou a que a Matildas conseguisse exercer pressão sobre o seu corpo de gestão e acabou por concordar com um novo acordo de negociação colectiva com a FFA, o que significa que o pagamento de salários deixou de estar sob o regulamento de salário mínimo da Austrália. Segundo o novo acordo, as principais jogadoras da Austrália recebem 41 mil dólares australianos (25.300 euros por ano), enquanto as mais secundárias recebem 30 mil dólares australianos (18.500 euros), bem como prémios do jogo. Isto é quase o dobro do salário base anterior, de apenas 21 mil dólares australianos (13 mil euros). Também houve melhorias nas despesas e salários dos jogadores por parte dos clubes domésticos. A FFA lançou uma campanha em nome da equipa, pedindo a duplicação do prémio da equipa no Mundial de 2019.

As Reggae Girlz da Jamaica foram dissolvidas em 2010 devido à falta de apoio por parte da sua Federação de Futebol, mas este ano a equipa chegou pela primeira vez ao Mundial através de doações e do apoio da filha de Bob Marley, Cedella, que entrou como embaixadora em 2014. Não seria uma surpresa se a equipa - que deve ser uma favorita dos adeptos em França - receba uma súbita explosão de apoio do órgão nacional após este Verão, já que o seu apelo, sucesso e status estão a crescer rapidamente.

Megan Rapinoe, a líder norte-americana nos relvados e responsável pela luta da equipa pela igualdade, culpou a FIFA numa recente conferência de imprensa, alegando que a organização poderia facilmente garantir a igualdade do futebol feminino, mas que não quer saber. "O tipo de mudança incremental que vimos não é suficiente", considera Rapinoe. E realça: "Eu gostaria de ver uma grande mudança de paradigma, uma grande reformulação. Houve tanta falta de investimento ao longo de todos estes anos, tal falta de cuidado e atenção, que dobrar e triplicar ou quadruplicar o investimento, o cuidado e a atenção ao jogo das mulheres seria o apropriado. Fazer mudanças incrementais, obviamente, deixa todos os envolvidos no desporto a quererem mais e, neste momento, essas mudanças estão longe de serem suficientes".

Tal como a FA, a FIFA irá alegremente vangloriar-se de o facto do prémio em dinheiro do Mundial ter duplicado para cerca de 3.5 milhões de euros este ano, mas ainda é significativamente mais baixo do que os mais de 30 milhões que a França levou para casa depois de vencer o Mundial Rússia 2018. A FIFA recupera milhares de milhões da venda de direitos televisivos do Mundial masculino. A emissora norte-americana Fox pagou 425 milhões de dólares para garantir os direitos dos torneios de 2018 e 2022. A FIFA facturou 1,85 mil milhões de dólares só na receita dos direitos de marketing para o ciclo do Mundial de 2015-2018 - dinheiro que poderia ser melhor investido para ajudar no crescimento do futebol feminino. A UEFA, órgão que comanda o futebol europeu, pretende mudar isso com o recente alargamento de patrocínios e oportunidades de marketing para as competições femininas. Mas, a maioria dos direitos de televisivos continuam intocáveis.

Ainda assim, nem tudo são más notícias. Existem algumas federações nacionais que tentaram pagar o mesmo às suas equipas masculina e feminina. A Federação de Futebol da Noruega decidiu em 2017 pagar o mesmo às equipas masculinas e femininas, cerca de 674 mil euros por equipa. O acordo significou que os homens tinham que sofrer um corte salarial. Até então, eles recebiam cerca do dobro do salário da equipa feminina. Foi decidido que uma contribuição comercial de 500 mil euros seria passada para as mulheres, que tinham mais do que merecido depois de se apresentarem em oito Mundiais - ganhando o título em 1995 - e 11 Campeonatos Europeus. por outro lado, a equipa masculina nunca passou dos oitavos-de-final em nenhum dos três Mundiais em que entrou e só tem uma única campanha do Euro de que se vangloriar.

Em finais de Maio, a Associação Sul-Africana de Futebol anunciou que vai igualar o salário de homens e mulheres para o Mundial e para a próxima Taça das Nações Africanas. Embora estes gestos não devam ser descartados, ainda parecem um pouco vazios. As equipas femininas da Noruega e da África do Sul estão, actualmente, a superar as dos homens.

A dinâmica subjacente a tudo isto é que o futebol há muito que não tem a ver com justiça, ou nunca teve. O futebol é sobre dinheiro. E, por enquanto, o dinheiro está nos bolsos das ligas masculinas, jogadores masculinos e federações de futebol dirigidas por homens. Todavia, se a equipa feminina dos EUA conseguir vencer a luta que está a travar nos tribunais, talvez isso mude o desporto para sempre.


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