​Gal Costa. Foto: Gabriela Batista/VICE
Gal Costa. Foto: Gabriela Batista/VICE
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Gal Costa: "O Brasil encaretou"

Em seu novo disco, 'A Pele do Futuro', a veterana dança em tempos de crise e fala sobre a onda conservadora que afeta a arte no Brasil.

No show que fez no palco do Lollapalooza em março desse ano, Mano Brown deu um conselho para a plateia do Boogie Naipe. "Se possível, em tempos de crise, dance", disse, depois de cantar a música "Dance, Dance, Dance", uma parceria com Seu Jorge. Parece ter sido com esse mote em mente — vindo de ninguém menos que Brown, um dos artistas cuja voz política é uma das mais relevantes no Brasil — que Gal Costa, cuja voz também teve e tem importância artística e política incalculável, criou A Pele do Futuro, disco lançado em outubro.

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Trigésimo disco de estúdio da cantora baiana, que chega 51 anos depois do primeiro de sua carreira, A Pele do Futuro realiza um sonho antigo: fazer um disco todo inspirado na dance music, principalmente a música disco. Imagine essa cena: segundo um dos produtores do álbum, Marcus Preto, que também trabalhou com ela em Estratosférica, Gal ligou para Guilherme Arantes e pediu uma música que fosse "tipo Earth, Wind & Fire". O resultado foi "Puro Sangue (Libelo do Perdão)", sexta faixa do disco.

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Foto: Gabriela Batista/VICE

Na sexta-feira anterior ao lançamento do disco, no dia 21 de setembro, conversei com Gal e Marcus para entender como foi o processo de criação de A Pele do Futuro. A cantora explicou que, além de se inspirar na dance music, o disco também pretendia ser uma homenagem à Amy Winehouse, artista de quem Gal é muito fã. Durante o processo criativo, porém, A Pele acabou tomando vida própria e se transformando num amalgamento de não só dance music, mas MPB, samba e até baladas românticas.

Isso se mostra no time de compositores que participou do disco. Além de Guilherme Arantes e outros veteranos, tanto da voz de Gal quanto da música brasileira num geral, como Gilberto Gil e Djavan. Mas nomes novos também não estão em falta: além de uma composição de Tim Bernardes ("Realmente Lindo"), A Pele também conta com uma letra de Marília Mendonça, que também participa da faixa "Cuidando de Longe" cantando.

Gal conta que Marília participou do disco a seu pedido. "Marília é uma coisa especial dentro da música sertaneja. Ela tem um canto rasgado, um jeito de compôr muito intuitivo e popular", fala. "Tive a ideia de chamá-la porque queria cantar uma sofrência como dance music. Queria cantar uma música de sofrimento, mas que ao mesmo tempo que você está cantando, está dançando."

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A cantora também se diz muito fã do feminejo, e enxerga Marília como peça fundamental desse quebra-cabeça. "Só tinha homem, né? Agora as mulheres estão chegando. E ela chegou com tudo, ela é a rainha", diz.

O feminejo e seu mote da presença, voz e ponto de vista feminino no sertanejo foram uma mudança política sutil, mas importante: um som que era o símbolo perfeito do homem-hétero-padrão brasileiro (e cujos muitos grandes artistas declararam apoio aos "valores tradicionais" do presidenciável Jair Bolsonaro) foi tomado pelas mulheres que falam de infidelidade e amor à sua maneira e se colocam, inclusive, contra esses valores — Marília Mendonça se juntou à campanha #EleNão, contra Bolsonaro (e foi atacada e ameaçada por tal atitude).

De certa forma, essa foi a atuação política que Gal buscou durante algumas décadas de sua carreira, em suas próprias palavras: "Meu jeito de fazer política nunca foi militante. Foi mais do lado transgressor, maneira de vestir, jeito de fazer música. Mais comportamental do que militante. Já apanhei muito e já fui muito elogiada por essa razão, mas é uma coisa que me dá prazer porque se arriscar é importante, revolucionário e renovador pra mim mesma. Quando dá certo, é uma guerra que você vence."

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Foto: Gabriela Batista/VICE

Mas, comparando a recepção de seus riscos artísticos em outras épocas e a resposta que esses novos artistas recebem hoje, Gal chega a uma conclusão infeliz. "O Brasil encaretou muito. Sempre teve gente careta, mas o mundo está muito esquisito. As pessoas são intolerantes, não respeitam os outros, agressivas", fala. "Elas têm que aprender a conviver com o amor, com as diferenças e respeitar o outro como ele é e quer ser. O mundo tá parecendo que quer acabar."

Perguntada se sente influenciada por algum novo artista da música popular brasileira, Gal responde que não, mas que se enxerga em muitos deles. "Minha influência é consequência desses anos todos de carreira que tenho, fiz muita coisa. Tive várias fases e comecei a experimentar coisas diferentes, ousar mais. Cantar diferente de tudo o que eu imaginava que seria a vida inteira", completa.

A Pele do Futuro é nada mais que uma representação de todas essas facetas de Gal e uma retrospectiva dessas mais de cinco décadas de carreira numa roupagem nova. Além de, claro, uma imagem palpável da Gal de 2018: a que dança em tempos de crise.

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