O que aconteceria se padres católicos pudessem fazer sexo
Imagem por Nico Teitel.
Sexo

O que aconteceria se padres católicos pudessem fazer sexo

Com a Igreja sob escrutínio por escândalos sexuais em todo o mundo, isso pode acontecer antes do que você pensa.
NT
ilustração por Nico Teitel
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor
1.10.18

Em 1521, quatro anos depois que um padre chamado Martinho Lutero pregou suas Noventa e Cinco Teses na porta da Igreja de Todos os Santos em Wittenberg, na Alemanha, o fora-da-lei se retirou para o Castelo Wartburg para se esconder de seus inquisidores. Lá, ele traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão e começou um período a que ele se referia como seu “Patmos” – uma alusão à pequena ilha grega onde o Apocalipse teria sido escrito. Ele mergulhou em seus estudos, refinando polêmicas contra a venda de indulgências (pagar a Igreja em troca da salvação) e a ideia de sola fide, que Deus perdoa só pela fé (independente das “obras” da pessoa).

Essas se tornariam as divisões mais conhecidas entre o Catolicismo e o Protestantismo. Mas o que às vezes é esquecido, entre o caos político geral na Europa que se seguiu, é onde o teólogo chegou em se tratando de sexualidade e casamento. Em Wartburg, ele escreveu para Nicolas Gerbel, um jurista e acadêmico de leis cânones, deixando suas visões claras.

“Beije e beije sua esposa”, ele insistia. “Deixe ela amar e ser amada. Você tem sorte de ter esse resultado, por um casamento honrado, pois o celibato em alguém é uma presa para fogos devoradores e ideias pouco claras. Esse estado infeliz de uma pessoa solteira, homem ou mulher, revela a mim cada hora do dia de muitos horrores, que nada soa aos meus ouvidos tão ruim quanto o nome de um monge, freira ou padre. A vida de casado é um paraíso, mesmo quando tudo mais falta.”

Como muitos aspectos da fé católica, a exigência de celibato para padres é protegida por séculos de tradição. Mas a ideia vem sendo desafiada quase desde que surgiu. Nos últimos anos, enquanto a Igreja Católica aguenta onda após onda de controvérsias sexuais (uma nova está surgindo agora na Alemanha), alguns chegaram a questionar, no contexto da piedade religiosa ou não, se viver uma vida de celibato é realmente possível. E com a Igreja encarando mais investigações do que nunca por padres pedófilos – que podem custar bilhões de dólares a ela – o fim do celibato para padres pode estar mais perto do que você pensa.

Afinal de contas, deixando de lado questões científicas da sexualidade, sabemos que é possível para a Igreja Católica sobreviver sem a restrição. Como ela já fez antes.

"O celibato não é uma doutrina na Igreja Católica" - Padre Thomas Reese

“O precedente [de celibato] na Igreja Católica data da Reforma Gregoriana do século 11”, me disse Julie Byrne, professora de religião da Hofstra University. “O Papa Gregório VII instituiu muitas mudanças. Celibato obrigatório para padres foi instituído então, e claro, estamos falando sobre um arranjo de sociedade que era muito diferente do nosso – então isso foi parcialmente estabelecido para os padres poderem realizar suas tarefas, e em parte sobre as terras que os padres tinham, para que elas voltassem para a Igreja em vez de ir para seus herdeiros. Então, se um padre não tinha filhos, era melhor para a Igreja.”

A noção de celibato como questão religiosa data de além disso. Kim Haines-Eitzen, professora de religião da Cornell, explica que isso tem raízes no surgimento do asceticismo, uma prática geralmente associada aos monges. Haines-Eitzen escreveu muito sobre a história do celibato, oferecendo uma linha do tempo que toca a introdução de padres na hierarquia da Igreja, a influência da filosofia greco-romana, e as visões eventuais dos cristãos sobre sofrimento e perseguição. O que fica claro é que a instituição do celibato para os sacerdotes não veio num vácuo, e nem de um único momento.

“Para simplificar o escopo histórico”, me disse o Padre Thomas Reese, analista sênior da Religion News Service, e ex-editor-chefe da revista America, “geralmente digo: 'Tivemos cerca de mil anos de sacerdotes casados, e agora mil anos de celibato'”.

Então o modelo de não exigir celibato dos padres está ali. Por exemplo, Pedro, o primeiro papa, era casado, se considerarmos as Escrituras – e as mais de duas dúzias de igrejas católicas orientais, que estão em plena comunhão com o Papa Francisco, permitem a ordenação de homens casados, assim como igrejas católicas independentes que não têm afiliação com o Vaticano. Também há dezenas de padres católicos nos EUA que se converteram de volta para a fé católica romana do Episcopalismo e tiveram passe livre.

A questão é se a Igreja Católica Romana pode reverter para sua posição anterior, como isso poderia acontecer, qual seria o resultado e por que isso pode acontecer agora. As mecânicas da mudança não são tão complicadas quanto parecem.

“A possibilidade de afrouxar as regras do celibato, sobre padres não poderem casar, seria possível, porque a disciplina é mais aberta para mudança do que uma posição doutrinal”, disse Anthony Petro, professor da Universidade de Boston que estuda a intersecção de sexualidade e religião, numa entrevista. “A disciplina do celibato, esse tipo de coisa, pode mudar. O Consílio Vaticano II [nos anos 1960], por exemplo, mudou muito sobre a disciplina de como a missa é feita. Ela precisa ser feita em latim? Como a eucaristia acontece?”

Há uma diferença sutil entre como “doutrina” e “disciplina” católicas são definidas, mas, resumindo, “doutrina” se relaciona com ensinamentos da Igreja sobre fé e moral (que vêm de Deus) e “disciplina” são reconhecidas como regras feitas pelo homem e sujeitas a mudanças na prática. É uma diferença escorregadia – mas importante.

“Celibato não é uma doutrina da Igreja Católica”, Reese explicou. “É uma lei. E pode mudar. E pessoas como eu, digamos, são a favor de partir para o celibato opcional – minha principal razão sendo que precisamos de mais padres.”

De fato, a Igreja vem passando por uma falta de padres há anos, especialmente nas Américas Latina e do Sul. Como o Wall Street Journal apontou em fevereiro: “No mundo todo, a proporção de católicos para padres aumentou significativamente nas últimas décadas, de 3.100 para 1 em 2015 quando era de 1.900 para 1 em 1980, segundo estatísticas do Vaticano. Essa proporção é especialmente alta na América do Sul – 7.100 para 1, quase quatro vezes mais alta que na América do Norte”. A lógica é: Se deixarmos os homens que querem fazer sexo e casar se tornarem padres, mais homens podem querer se tornar padres. O Papa Francisco insinuou que é a favor de discutir a ideia, e, em outubro de 2019, bispos da Amazônia devem viajar para o Vaticano para um sínodo que pode finalmente colocar padres casados na agenda.

“Se a maioria dos bispos pedir, então acho que o papa vai conceder”, disse Reese, sugerindo que isso pode ter um efeito dominó, e que casamento de padres pode começar localmente antes de se espalhar para outras regiões.

Mas a urgência do debate, claro, não é só sobre o suprimento de padres minguando. Essa tem sido uma temporada particularmente escandalosa para a Igreja Católica. A discussão em torno do celibato e se padres poderem fazer sexo pode permitir comportamento predatório – ou se uma vida de celibato já foi mais atraente para homens gays num mundo que era inseguro para eles – pode levar a associações sem base e adivinhações. (Byrne, a professora da Hofstra, me disse, por exemplo, que acha que a questão cercando o celibato deveria ser totalmente separada de como a Igreja lida com a epidemia de abuso sexual infantil.)

Mas o tratamento dos direitos gays e homossexualidade no sacerdócio está no coração da divisão entre facções mais tradicionais da fé e abordagem mais progressiva de Francisco. Carlo Maria Viganò, provavelmente o crítico mais proeminente de Francisco no planeta, achou um jeito de culpar homens gays do clero pela saga de abuso sexual quando pediu a renúncia do pontífice pela crise. Francisco, por outro lado, tem se mostrado disposto a reconhecer algo que lembra uma concepção moderna de sexualidade – e parece evitar totalmente confundir homossexualidade com pedofilia. (Em agosto, o papa disse a repórteres que os pais não deviam “condenar” os filhos se eles são gays, mas depois entrou numa diatribe sobre psicologia. A Igreja continua firme contra igualdade de casamento.)

Talvez o argumento menos bombástico e mais cheio de nuances contra o celibato, e como isso contribuiu para a crise atual, é que isso vai fundamentalmente contra abertura e transparência – e portanto pode servir para fomentar predadores.

“Celibato”, escreveu Jason Berry para o New York Times enquanto a Igreja Católica de Boston enfrentava a crise Spotlight em 2002, “fez crescer uma cultura de segredo onde comportamento sexual de qualquer forma deve ser escondido”. Segundo o Guardian, mais de uma década depois, em 2017, um estudo abrangente descobriu que “o celibato obrigatório e uma cultura de segredo criada por papas e bispos são os principais fatores para taxas tão altas de abuso infantil na Igreja Católica”. (Esse relatório foi criticado por sugerir que padres que confundem sua orientação sexual eram parte do problema.) Talvez mais notável, o falecido A.W. Richard Sipe, um ex-padre que se tornou psicoterapeuta e um dos pesquisadores mais importantes a investigar as ligações entre celibato e abuso sexual de menores na Igreja, argumentava que o voto “cria um sistema de hipocrisia e segredo onde o abuso de menores pode acontecer”. Segundo o New York Times, ele também concluía “que 6% de todos os padres eram perpetradores de abuso sexual de crianças”, e “que em qualquer época, só 50% dos padres são celibatários”, uma estatística que a igreja insiste ser exagerada.

“Não quero me juntar ao tipo de retórica que diz que algo como o celibato ser um aspecto perverso da sexualidade”, me disse Petro, professor da Universidade de Boston, quando perguntei o que ele achava da relação entre celibato e segredo em se tratando do sexo. “De uma perspectiva política, você poderia estar dizendo 'Se é assim que alguém quer viver, ótimo'. Mas o jeito como isso se torna uma regra, e quando pessoas tentam viver fora disso, ou reconhecer que relacionamentos podem acontecer, toda a rede de segredo em torno disso é perigosa. A questão não é tanto o celibato, mas a exigência de obediência.”

"A Igreja Católica sempre foi, em sua história, capaz de sobreviver e continuar tão grande quanto é, por sua habilidade de se adaptar." - Warren Goldstein

Entre outras coisas, esse culto de obediência pode dissuadir vítimas de dar queixa.

Mas não importa sua posição sobre a Igreja Católica ou questões cercando celibato e pedofilia, está claro que permitir que padres casem não vai magicamente resolver o problema do abuso sexual da Igreja. E nem, nessa questão, produziria uma torrente de candidatos a padre chegando nas portas dos seminários. De fato, se mesmo os ramos mais conservadores da fé se oporem à mudança, largar o celibato não afetaria, aparentemente, a religião em si tanto assim.

“Se o celibato para aqueles que presidem a eucaristia na Igreja Católica ocidental desaparecesse amanhã, seria só mais uma situação onde teríamos que descobrir Deus nas nossas vidas cotidianas”, me disse Thomas O'Loughlin, professor de teologia histórica da Universidade de Nottingham na Inglaterra, por e-mail. “Haverias pontos altos e baixos práticos nessa decisão, mas a vocação para cada membro da Igreja descobrir e seguir não mudaria.”

Os dados de pesquisa limitados (e pouco científicos) que existem desde o começo dos anos 2000 sugerem que muitos padres americanos há tempos estão abertos para um diálogo sobre o assunto. E isso está na mesa, como sugestão realista, desde o Vaticano II, quando as disciplinas que Petro mencionou (tirar o latim e assim por diante) foram moldadas, e havia alguma esperança de que o Papa João XXIII pudesse considerar revisitar o assunto. “A maioria das outras religiões não proíbe o casamento [de sacerdotes]”, me disse Warren Goldstein, diretor executivo do Center for Critical Research on Religion. “A Igreja Católica sempre, em sua história, conseguiu sobreviver, e continuar tão grande quanto é, por sua habilidade de se adaptar.”

De sua parte, o Padre Reese reconheceu que há argumentos importantes contra relaxar a regra do celibato – o fardo financeiro que os católicos encarariam para sustentar a família de um padre, a ideia de que padres celibatários podem ser mais sagrados que sacerdotes casados. (“Não compro essa ideia”, ele disse. “Há muitos casais que são mais sagrados que eu.”) Mas ele sugere que pequenos problemas – padres tendo que cuidar de seus filhos por exemplo – podem ser superados, e que o celibato opcional pode acontecer realisticamente nos próximos anos.

“Não acho [que se livrar do voto de celibato] seria tão problemático como teria sido, digamos, 100 anos atrás”, concordou Kathleen Grimes, professora-assistente de religião na Universidade Villanova, que, entre outras áreas, estuda a intersecção de teologia e ética. “Porque acho que, agora, vemos uma vida de casado como um caminho positivo para o sagrado.”

Se isso acontecer ou não, e por qualquer razão que seja, cortar o celibato representaria obviamente um passo para a reforma – um passo da Igreja em direção à abertura e transparência. Seria uma concessão de que vivemos na era moderna. Opcional ou não, padres casados poderiam representar uma evidência de progresso – e ajudar os católicos a sentir que sua igreja está respondendo a uma crise existencial.

“O Papa Francisco disse a padres e bispos para não agir como príncipes”, ou como se fossem melhor que os outros, disse Reese. “Essa é a mudança que precisamos. Você é o servo, ele disse, das pessoas de Deus. Você está aqui para servir, não para reinar.”

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