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Finanças

A insana saga do falso príncipe saudita que enganou ricos e famosos de Miami

Burlão de carreira, Anthony Gignac acabava sempre desmascarado, mas continuou a encontrar novas formas de se dar bem na capital norte-americana da fraude.

Por Francisco Alvarado
23 Julho 2018, 2:17pm

Arte por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Anthony Gignac passou boa parte da sua vida adulta a fingir ser um príncipe saudita, a abrir caminho para estadias grátis em hotéis de cinco estrelas, a roubar artigos de lojas de luxo e até a conseguir dar a volta a uma grande universidade para que a instituição lhe fizesse uma transferência de 16 mil dólares (cerca de 13 mil 650 euros). Ainda assim, a 4 de Março de 2014, o colombiano, então com 43 anos, disse ao juiz federal George Caram Steeh que os seus dias na pele de Khalid bin Al-Saud tinham ficado para trás.

“Eu mudei”, afirmou Gignac no tribunal em Detroit, de acordo com a transcrição da audiência. “Eu não era uma ameaça para a comunidade, meritíssimo... Tenho uma história, sim. Cometi muitos erros horríveis. O pior deles foi ser preso e não poder cuidar da minha mãe quando ela morreu. Prometi à minha mãe que nunca, nunca mais voltaria a ser preso por cometer outro crime”.


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Gordinho, com um corte de cabelo à tigela e olhos escuros expressivos, Gignac tinha sido libertado em 2012, depois de, meia década antes, se declarar culpado por fraude bancária e por se fazer passar por um diplomata estrangeiro. Agora, estava a ser julgado por violar a liberdade condicional, depois de viajar para Florida Keys sem notificar o seu oficial de condicional.

Gignac insistiu que tinha viajado para Keys para aliviar a depressão e visitar o irmão, o seu único familiar vivo. No entanto, a promotora federal Saima Mohsin disse a Steeh que Gignac estava mais uma vez a fazer das dele e à procura de novas vítimas para enganar. “Andava a encontrar-se com pessoas e a dizer ser alguém que não é, a participar em reuniões com o objectivo de fechar acordos fraudulentos para comprar imóveis no valor de centenas de milhões de dólares”, salienta Moshin. E acrescenta: “Ele tem de ser encarcerado. Menos por um ponto de vista da punição e mais para evitar que cometa mais fraudes e faça mais vítimas”.

Acontece que a perspectiva de enganar pessoas no ensolarado sul da Flórida era algo demasiado atraente para Gignac resistir – mesmo depois de passar mais 12 meses numa prisão federal por violação de condicional.

Quatro anos depois, o burlão de carreira aguarda actualmente a sua sentença em Miami, depois de se declarar culpado de se ter feito passar por um oficial de um governo estrangeiro, roubo de identidade e fraude, segundo o Washington Post. Desta vez, Gignac foi preso por enganar o dono de um hotel em Miami Beach para o presentear com bens caros e benefícios, além de sacar quase oito milhões de dólares (à volta de seis milhões e 820 mil euros) a 26 vítimas em várias partes do Mundo, de acordo com o processo que está a ser julgado num tribunal federal. Entre muitas outras armadilhas de um estilo de vida absurdo, Gignac conduzia um Ferrari com matriculas diplomáticas falsas e tinha placas em que se lia “Sultão” à porta da casa onde vivia.

Para burlões como Gignac, o sul da Flórida há muito que serve como base ideal de operações. Outros antes dele conseguiram já levar a cabo burlas espetaculares, incluindo Jimmy Sabatino, um tipo de Staten Island cujo golpe mais recente lhe valeu uma estadia numa prisão de segurança máxima. Outro mestre das falcatruas que chama Miami de lar: Haider Zafar, que se fez passar por um membro de uma família rica e influente do Paquistão, dona de hotéis, confecções e negócios de petróleo, para iludir investidores da Magic City. Entre as suas vítimas estavam os então jogadores dos Miami Heat Mike Miller, James Jones e Rashad Lewis, que juntos perderam 7,5 milhões de dólares (por volta de seis milhões e 400 mil euros).

Para Gignac, Sabatino, Zafar e outros criminosos do género, o sul da Flórida é o sítio onde te podes infiltrar por deatrás dos cordões de veludo da alta sociedade, bastando para isso exibir uma vida de luxo. “Miami não tem a mesma cultura diligente de Wall Street e Nova Iorque", explica Roben Farzad, autor de Hotel Scarface, um livro sobre a decadência e a personagens do The Mutiny Hotel em Miami, durante a era dos "Cowboys da Cocaína", nos anos 70 e 80. E acrescenta: “Se tens uma construtora e alguém te oferece dinheiro sem hipoteca e documentação envolvidas, aceitas de bom grado. Miami é a capital mundial do dinheiro suspeito”.


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O ambiente de luxo e luxúria torna o sul da Flórida um território especialmente fértil para caçar empresários e dignatários locais que, por sua vez, ganham a vida a trabalhar com pessoas ingénuas que especulam na área dos projectos imobiliários. “Se és um burlão, é um óptimo sítio para enganar pessoas que acham que podem enganar estrangeiros ingénuos e levá-los a esbanjarem o seu dinheiro”, explica Fazard. E afirma:“É até algo bonito na sua simetria”.

No caso de Gignac, ele conseguiu ofertas de donos de hotel em Miami Beach, convencendo-os de que pertencia à realeza saudita e que queria investir 440 milhões de dólares (à volta de 375 milhões de euros) para se tornar sócio das suas propriedades. Segundo o Miami Herald, as vítimas incluem membros da família Soffer, donos do mundialmente famoso hotel Fontainebleau Miami Beach. O jornal relata que os alvos perceberam que Gignac provavelmente não era legítimo quando pelo menos um deles testemunhou o falso sultão a comer bacon.

A reputação deste Estado norte-americano de fazer com que burlões de todos os géneros se sintam em casa, também não é coisa de apenas alguns casos mais conhecidos. Em 2016 e 2017, a Flórida levou a taça de capital da burla dos EUA: nesses anos, o Estado ficou em primeiro e segundo lugar, respectivamente, em queixas de fraude e roubo de identidade na Comissão Federal de Comércio. Em média, a Flórida regista 993 queixas de fraude por cada 100 mil habitantes, diz o relatório.

A Flórida - e Keys especialmente - permite que qualquer um se misture sem levantar suspeitas, porque os locais não vêem recém-chegados com cepticismo, segundo Annette Robertson, uma fotógrafa de mergulho de Key West, que diz ter testemunhado o trabalho de Gignac em primeira mão. “Podes vir para Keys e ninguém sequer olha para ti duas vezes se não te encaixas na norma”, explica. E sublinha: “Aqui não há norma. Chamo-lhe de Ilha dos Desajustados”.

Robertson estava entre os empresários de Keys com que Gignac se encontrou em 2014, segundo o seu testemunho na audiência de violação da condicional naquele ano. Na entrevista, ela recorda como conheceu Gignac em Detroit com o namorado, o artista de vida marinha Wyland. “Disse-nos que era um sultão e contou-nos várias histórias. Usava um enorme anel de diamante e disse-nos que queria construir um resort com a nossa ajuda”, recorda Robertson.

Ao longo de quase dois meses, Robertson e Wyland passaram algum tempo com Gignac, a visitar três propriedades em que ele dizia estar interessado, incluindo o exclusivo Cheeca Lodge e Spa em Islamorada. “Ele era um burlão incrível”, esclarece Robertson. E salienta: “O gerente do Cheeca Lodge tinha trabalhado em Palm Springs, Califórnia, onde conheceu alguns sheiks. Quando o gerente mencionou os nomes, [Gignac] sabia tudo sobre eles. Tinha feito a sua pesquisa”.

Ainda assim, Robertson reparou em algumas coisas estranhas nesse período. Por exemplo, lembra-se de levar uma pintura que Wyland tinha feito para a casa que Gignac dizia ser do seu irmão. Robertson estimava que a pintura de Wyland poderia valer 30 mil dólares (cerca de 25 mil 585 euros) numa galeria de arte, mas a nova casa da obra não batia exactamente bem. “Não havia nenhuma obra original naquela casa, só um monte de lixo”, diz. E adianta: “E mesmo aquela coisa de ele dizer que era um sheik e depois abraçava-me e apertava a mão a Wyland. Um sheik nunca faria isso. Tocar-te é algo abaixo deles. Ele explicava-o dizendo 'Ah, eu não acredito nessas coisas'”.

Mas, Robertson e Wyland só descobriram a verdadeira identidade de Gignac – e o seu passado crimininoso – quando um associado escreveu no Google o nome adoptado por ele. Da última vez que ela ouviu falar no burlão, em 2014, Gignac tinha sido preso por agentes federais em Keys. A fotógrafa não sabia sobre o esquema mais recente com os donos de hotéis em Miami Beach. “Não sabia, mas não me surpreende minimamente”, conclui.


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