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Como a cocaína e a erva afectam a memória

Estudo mostra que efeitos das substâncias vão mais além do cliché das amnésias e lesões.

Por Shayla Love; Traduzido por Madalena Maltez
28 Setembro 2018, 12:54pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

É geralmente aceite que o consumo de canábis está associado a alterações na memória. Há toda uma literatura de piadas que diz que, quanto mais frequente o seu uso, pior é a capacidade de te lembrares das coisas.

Mas, a memória está longe de ser uma coisa só. Ou um único processo. Alguns estudos têm observado a forma como a erva afecta a capacidade de relembrar palavras ou informações, ao passo que uma nova investigação publicada no Journal of Psychopharmacology analisou os efeitos da droga numa espécie de “memória futura”, conhecida como previsão episódica, descrita como a capacidade de viajar no tempo mentalmente, vivendo um evento futuro novo que acontecerá contigo, como explicado por uma das autoras do estudo, Kim Mercuri, psicóloga da Universidade Católica Australiana.


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Pode parecer esquisito usar a palavra memória para falar de pensamentos futuros, mas investigadores deste campo fazem-no, porque perceberam que o propósito da memória não é relembrar nostalgicamente eventos da infância ou da adolescência. As lembranças servem para que criemos um banco de dados de experiências, para que nos possamos preparar para eventos vindouros. Moshe Bar, professor de neurociência cognitiva e director do Centro de Pesquisa Cerebral Multidisciplinar Gonda de Israel, que não esteve envolvido na investigação mencionada anteriormente, afirma que o cérebro é um órgão extremamente predictivo, valendo-se do passado para prever o futuro.

Para pôr em prática a tal previsão episódica, ou a “viagem no tempo” mental, primeiro é preciso contar com a memória episódica, que possui este nome por ter a ver com relembrar episódios ou eventos específicos. “É algo pessoal”, afirma Bar. E prossegue: “É autobiográfico, é o teu pequeno-almoço ou a tua conversa de ontem à noite”.

Isto difere da memória semântica, que seria como pedir-me para descrever o “pequeno-almoço". Eu posso citar ovos mexidos e torradas, com base na minha memória do que é um pequeno-almoço normal, mas caso me perguntassem sobre o meu pequeno-almoço, a resposta seria completamente diferente, considerando que comi uma tigela de frutas com granola, algo específico meu, um episódio unicamente meu.

Bar afirma que existem casos em que um tipo de memória, semântica ou episódica, acaba por ser afectada e a outra não. Isso sugere que, apesar de haver alguma espécie de sobreposição, essas duas memórias distinguem-se, pelo menos parcialmente, uma da outra. Memórias episódicas, na opinião de Bar, são mais significativas. “Essa é como se fizesse mais parte da tua identidade”, afirma. E acrescenta: “Geralmente, digo que a tua memória é a tua identidade, quando dou palestras sobre o assunto, por mais clichê que pareça. A tua história, os teus desejos, os teus medos.”

Já Mercuri comenta comigo que estudos prévios mostraram que o uso de erva pode prejudicar a memória episódica. Considerando que a nossa capacidade de previsão toma por base o banco de dados da memória episódica, seria ela afetada pelo consumo de canábis também?

Estudos demonstram que, quando as pessoas são questionadas sobre eventos do passado, ou solicitadas para que imaginem acontecimentos futuros, partes semelhantes do cérebro entram em acção. Já no caso de pessoas com amnésia, que perderam a capacidade de relembrar o passado, estas não se conseguem imaginar no futuro. Tendo em conta esta correlação, Kim e os seus colegas decidiram verificar como a erva afectaria a previsão episódica.


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O novo estudo observou 57 consumidores de canábis, 23 dos quais afirmaram usar a droga de maneira recreativa e os restantes 34 garantiram realizar um consumo frequente da mesma, comparando com os outros 57 participantes no grupo de controlo. Os consumidores que relataram uso recreativo de erva disseram que a consumiam “uma vez por semana ou menos”, já os frequentes declararam fumar pelo menos três vezes por semana.

Foi pedido a todos os participantes que descrevessem eventos passados e futuros em potencial, tendo como base palavras como aniversário, férias, pesadelo, táxi ou banco. Havia uma série de palavras negativas, positivas e neutras. Posteriormente, o número de detalhes pessoais que cada pessoa mencionava era contabilizado e descobriu-se que consumidores frequentes de canábis não eram capazes de mencionar tantos detalhes sobre si mesmos quando lhes era pedido para imaginarem cenários futuros. Os resultados, de acordo com Mercuri, mostram que o uso mais frequente de canábis afecta em maior grau tanto a memória episódica como a previsão episódica.

“A memória episódica é como uma base para a criação de um evento futuro, para a realização desta viagem no tempo mental”, afirma Mercuri. E justifica: “Para avançar, é preciso primeiro retroceder”. Investigadores observaram anteriormente a redução na massa cinzenta de consumidores de canábis a longo prazo, bem como outros danos em áreas do cérebro, como o hipocampo e amígdala. Há que mencionar, contudo, que boa parte dos estudos com canábis não são muito consistentes, havendo alguns que indicam mudanças no cérebro relacionadas com o uso da droga, mas sem déficit comportamental, ao passo que outros não demonstram qualquer mudança.

Dito isto, continuar a estudar o tema pode ajudar na descoberta de onde no cérebro é que estes processos se dão. Num ensaio de 2014, Mercuri e os seus colegas descobriram que consumidores de opióides também tinham problemas com previsão episódica, porém apresentavam desempenho semelhante aos membros do grupo de controlo quando se pedia que relembrassem eventos passados. “Há maior densidade de receptores canabinoides nas áreas responsáveis por lembranças, o que faz com que consumidores frequentes de erva sejam especialmente vulneráveis a problemas com memória episódica”. Já o novo estudo oferece uma possível hipótese.

Se uma droga é capaz de afectar a nossa capacidade de prever o futuro, será que outra poderia aprimorá-la? Na mesma edição do periódico, outra pesquisa fez esta mesma pergunta só que com cocaína. Nadia Hutten, autora do artigo e neuropsicóloga da Universidade de Maastricht, afirma que um dos motivos pelos quais estudaram o tema prende-se com o facto de estimulantes serem muitas vezes usados por estudantes de forma a melhorarem as suas funções cognitivas, o que a deixou curiosa: será que o uso destas drogas melhora mesmo a tua memória? Então descobriu-se que uma dose única de cocaína poderia aprimorar algo conhecido como memória prospectiva, outro tipo de memória futura.

Há pequenas diferenças entre a previsão episódica e a memória prospectiva. Hutten diz-me que a memória prospectiva tem mais a ver com relembrar actividades e acções no futuro, no momento ou no contexto certos. Algo como lembrares-te de que tens uma consulta no médico pela tarde, ou do que precisas de ir às compras, enquanto a previsão episódica tem a ver com imaginar um evento futuro, não lembrares-te de fazer algo tem a ver com a memória prospectiva.

“O que é interessante sobre esta coisa da memória prospectiva é que eu diria que é um dos modos de pensamento futuro no qual nos envolvemos que oferece consequências imediatas”, afirma Karl Szpunar, professor-assistente da Universidade de Illinois em Chicago e director do laboratório de memória da mesma instituição. E acrescenta: “Sendo assim, geralmente, ao pensarmos no futuro, vem-nos à cabeça algo muito mais distante, já no caso da memória prospectiva, caso te esqueças de dizer a algum colega algo importante e acabes por o encontrar numa reunião posteriormente, aquilo pode ter consequências reais”.

No estudo de Hutten, as pessoas recebiam um placebo, erva ou cocaína e depois era-lhes solicitado que desempenhassem alguma coisa ligada à actividade prospectiva. Era-lhes pedido que fizessem algo, enquanto pensavam noutra coisa, que só seria feita posteriormente, com o grupo sob efeito de cocaína a sair-se melhor que os outros dois.

Szpunar, que não teve envolvimento algum com o estudo, comenta não ter a certeza de que a actividade proposta no estudo tenha de facto envolvido a memória prospectiva. Ele crê que os participantes possam ter sido levados a agir rapidamente, de forma que não estariam a usar este tipo de memória e sim a vigilância, a sua capacidade de prestar atenção. “Com a memória prospectiva é, geralmente, assim: tens que te lembrar de fazer algo, esquecer aquilo por alguns momentos e, então, aquilo salta na tua mente mais uma vez”, afirma.

Bar diz não ter tido problema com a actividade, já Hutten comenta que atenção e excitação foram medidas separadamente, descobrindo então que a melhoria notada não poderia ser inteiramente atribuída ao quanto alguém prestava atenção. Parte desta melhoria, diz, deve estar relacionada com o efeito directo da cocaína na memória prospectiva.

É necessário realçar que, no estudo de Hutten, estamos a analisar doses únicas de cocaína, com os testes a serem conduzidos enquanto os indivíduos ainda estavam sob o efeito da droga. Muitas pesquisas mostram que pessoas que usam cocaína e outros estimulantes apresentam défice em diversas áreas da memória, mesmo na prospectiva. “Pode ser que o uso frequente de cocaína leve a danos a longo prazo”, afirma Hutten. E salienta: “Além disso, pode ser que o uso de cocaína entre os participantes seja diferente. Seria algo interessante de se analisar, quando os efeitos benéficos da cocaína começam a tornar-se um problema”.

Ela comenta ainda que gostaria de poder estudar a fundo de que forma é que uma dose única de cocaína afectou a memória positivamente. Teria afectado a criação da memória em si? A reaquisição dessa memória? A investigadora afirma não saber para já, mas tais descobertas podem ajudar a fornecer bases gerais de como drogas afectam diversos tipos de memória.

Mercuri acredita que, compreender os efeitos das drogas nestes tipos de memórias futuras, é essencial para ir além do básico já conhecido pela ciência. A memória prospectiva garante que não te vais esquecer de algo da tua lista de afazeres, mas há motivos para crer que, algo como a previsão episódica, tem ainda maior importância para questões de sobrevivência. Se és capaz de ensaiar mentalmente situações antes de que elas ocorram, é possível tomares melhores decisões.

A investigadora trabalha com vício e afirma que grande parte do tratamento está focado no planeamento futuro: como uma pessoa negará drogas quando as encontra no mundo real, na comunidade ou como esta mesma pessoa traçará metas para o futuro. A especialista comenta que saber mais sobre os efeitos da erva nessa capacidade de traçar planos futuros pode ajudar a conduzir o tratamento. “Podemos traçar um objetivo próximo ao presente”, afirma. E sublinha: “O que podias fazer agora para te sentires melhor em vez de te focares num futuro mais adiante. Esse tipo de informação pode ajudar-nos na forma como lidamos com pacientes no que toca aos seus objetivos, com sorte melhorando os resultados mais adiante”.

Szpunar menciona uma investigação feita num campo semelhante, chamado desconto temporal, que é quando se opta por uma recompensa mais imediata, deixando algo de melhor de lado, porque só ocorreria no futuro. Por exemplo, se eu te desse 10 dólares agora, ou 100 dólares na próxima semana, possivelmente esperarias pela próxima semana. Mas, e se os 100 dólares viessem só daqui a três meses? De acordo com Szpunar, muitos aceitariam os 10 dólares agora em vez de esperarem.

Tudo isto dá-se no quotidiano de forma mais subtil, como no caso da nossa saúde. Vais comer duas fatias de pizza às duas da manhã, ou vais aguentar-te porque tens um peso que queres que seja atingido no futuro? Vais fumar esses cigarros ou não, já que esperas ter mais saúde daqui a 30 anos? O evento repete-se também noutras áreas. Focar-se no futuro é tentar prever o sucesso no emprego, no casamento e, de acordo com Szpunar, “na vida, quem pensa mais adiante parece dar-se melhor, no geral”.

Muita gente não pensa no futuro distante, mas há estudos que indicam que, caso faças as pessoas pensarem mais adiante nas suas vidas, isso acaba por ajudar a que se comportem de forma menos displicente com o futuro, o que nos traz de volta às descobertas da pesquisa com canábis. “Se existem certas drogas capazes de afectarem a nossa capacidade de imaginar o futuro, estas podem atrapalhar as pessoas nas suas intenções de se tornarem mais centradas nos seus futuros”, afirma Szpunar. E assegura: “Sabemos que pensar no futuro pode fazer-nos focar mais nele, mas se consumimos drogas que nos impedem de imaginá-lo em detalhe, talvez as coisas não saiam tão bem para algumas pessoas quando comparado com outras”.

A canábis também tem vindo a ser explorada na medicina para o tratamento de doenças e Mercuri afirma ser importante conhecer todos os efeitos cognitivos colaterais da droga, para que as pessoas tenham noção de como o seu consumo pode afetar a sua tomada de decisões e memória. “Há diversos benefícios em potencial por viada estrutura da erva, mas há coisas ali que não são muito boas”, afirma. E justifica: “Isolar o benéfico sem afectar o desempenho cognitivo é algo que ainda está longe de dominarmos, há muito a ser feito ainda”.

Nada disso é trivial, de acordo com Bar. A previsão episódica é uma parte fundamental da vida quotidiana. “Não se trata de algo exótico desempenhado raramente pelo cérebro; cada decisão que tomamos – e tomamos centenas dessas por dia – envolve algum tipo de previsão, alguma simulação futura. Até o simples feito de escolher o que vamos almoçar”, explica.

É possível que estudar os efeitos nocivos das drogas nestes tipos de memória nos ajude a compreender exactamente como elas funcionam nos nossos cérebros, já que, pelo menos, temos noção de como e onde reagem. Ao saber o quão benéfica tal tipo de memória é, pergunto-me se devíamos ou poderíamos torná-la mais forte, em termos hipotéticos, para nos tornarmos ainda mais hábeis neste processo de imaginação do futuro.

Como quase tudo no mundo, não ter muita capacidade pode ser tão danoso quanto ter demasiada. Pensa como seria a experiência constante de te imaginares no futuro, deixando de ser algo adaptativo e tornando-se numa espécie de ansiedade, algo que é plausível para Szpunar: “Creio que as pessoas estariam interessadas num equilíbrio. Porque é que alguns usam tal capacidade de maneira a se adaptarem e outros acabam por esbarrar naquilo que devia ajudá-los a ter uma vida melhor?”.

Toda esta conversa faz-me pensar na moda actual de nos focarmos no agora, sem pensar no que vem depois. Eu tenho TOC e consigo dizer com toda a certeza do mundo que gostaria de poder deixar de pensar tanto nos meus possíveis futuros. “A resposta para qualquer coisa que pesquisemos é que tudo depende e é isso que estamos a tentar entender, que contingências do nosso quotidiano tornam as coisas assim”, declara Szpunar. E conclui: “Quando é que é bom viver no presente? Quando é que é bom estar com a cabeça no futuro? E quão importante é seres capaz de alternar entre estas perspectivas?”.


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