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A China está a criar um exército de baratas para comer restos de comida

Os insectos são mantidos em instalações próprias e alimentados com toneladas de lixo através de canos. Especialistas dizem que seria uma catástrofe se escapassem.

Por Gavin Butler
13 Dezembro 2018, 9:34am

Imagem via YouTube/South China Morning Post.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

A China tem um problema com lixo. A crescente população do país está a produzir mais restos de comida do que aquilo que os aterros sanitários do país conseguem absorver. Recentemente, o NewsCorp informou que Pequim produz mais de 25 mil toneladas de lixo por dia, enquanto o South China Morning Post relatou que os habitantes da cidade produziram nove milhões de toneladas de lixo apenas no ano passado – um número que só tem tendência para crescer. E, no meio desta crise de lixo, cidadãos empreendedores pensaram num método inovador de eliminação de resíduos urbanos: estão a dar lixo às baratas.

Milhares de milhões de baratas são mantidas em instalações na China, onde são alimentadas com toneladas de restos de alimentos e lixo de cozinha, segundo a Reuters. Num destes espaços – comandado pela Shandong Qiaobin Agricultural Technology Co, localizada em Jinan, capital da província de Shandong, leste do país – mil milhões de baratas consomem aproximadamente 50 toneladas de lixo por dia. A comida chega antes do amanhecer e é entregue nas celas das baratas através de canos. A Shandong Qiabin espera abrir mais três instalações semelhantes no próximo ano que vem e projecta que será capaz de processar um terço do lixo de cozinha produzido na cidade de mais de sete milhões de habitantes.


Vê: "A Ilha de Lixo"


E a operação não acaba aí: as baratas mortas são aproveitadas para o fabrico de alimentos nutritivos e fontes de proteínas para porcos e outros animais. Num país onde usar restos de comida para alimentar porcos é proibido por causa de surtos de febre suína africana, esta é uma solução útil – “como transformar lixo em recursos”, conforme salienta a presidente da Shandong Qiaobin Li Hongyi.

Outras instalações chinesas criam baratas exclusivamente por esta razão: para usar como alimento de pecuária. Mas, a praga tão odiada é também considerada um ingrediente útil em vários medicamentos e produtos de saúde, segundo o South China Morning Post. Uma instalação na cidade de Xichang, província de Sichuan, no sudeste do país, alcançou tantos “avanços científicos e tecnológicos” com o seu programa de criação de baratas, que o governo da província afirma que merecem um prémio nacional de ciência.

A fábrica produz uma poção feita de baratas, que são esmagadas em máquinas depois de atingirem o tamanho e peso desejados. Mais de 40 milhões de pacientes que sofriam de doenças gástricas, respiratórias e outras terão alegadamente sido curados depois de tomarem o milagroso produto de barata e a fábrica estará a vender a substância para mais de quatro mil hospitais da China. Jornais de medicina chineses já sugeriram que a medicação pode ser eficaz na estimulação do crescimento de tecido danificado, tratamento de queimaduras e inflamações estomacais sérias.

“A nossa droga é utilizada em hospitais há muitos anos e estabeleceu um grande número de adeptos”, garante Han Yijun, representante da Gooddoctor Pharmaceutical Group em Pequim, que fabrica os medicamentos de barata. E acrescenta: “Toda a gente sabe que os nossos produtos são feitos a partir de baratas. É um insecto nojento, mas há poucas drogas nas prateleiras que tenham o mesmo efeito”.


Vê: "Os 'super ratos' invencíveis geneticamente resistentes ao veneno"


E assim, a humilde baratinha acaba por ser muito mais do que aquilo que poderia parecer à primeira vista. As baratas são fonte de alimento, um ingrediente medicinal e um “caminho de biotecnologia para converter e processar resíduos de cozinha”, segundo Liu Yusheng, presidente da Shandong Insect Industry Association. Mas, especialistas sugerem que ainda deveríamos ser cautelosos com estes novos "senhores dos insectos", tendo em conta as implicações do que pode acontecer se estes milhares de milhões de baratas conseguirem escapar deste tipo de instalações.

A professora Zhu Chaodong, cientista-chefe de estudos de evolução de insectos da Academia Chinesa de Ciências, alerta para o facto de que uma fuga em massa de milhares de milhões de baratas seria uma “catástrofe” para o meio ambiente local.

“É preciso ter várias linhas de defesa funcionais para evitar o desastre de uma libertação acidental”, salienta, apontando que estes insectos se multiplicam rapidamente no tipo certo de ambiente e podem infestar um bairro inteiro em pouquíssimo tempo. O South China Morning Post sublinha que também há preocupações de que a reprodução intensiva e a triagem genética nas instalações podem dar um empurrão à evolução das baratas e produzir um exército de “super baratas”, anormalmente grandes e viris.

Zhu, todavia, assegura que é improvável que isso aconteça.


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