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Saúde

Achares que és mau a matemática causa um tipo específico de ansiedade

Há muitas pessoas que precisam de superar o que é conhecido como “trauma matemático”.

Por Jennifer Ruef; Traduzido por Madalena Maltez
14 Maio 2019, 11:24am

Westend61 / Getty Images 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Eu ensino pessoas a ensinarem matemática e trabalho nesta área há 30 anos. Ao longo destas décadas, conheci muitas pessoas que experimentam graus variados do que é conhecido como trauma matemático – uma forma de desconexão mental debilitante quando se trata de fazer contas.

Quando as pessoas partilham as suas histórias comigo, surgem sempre alguns temas em comum: alguém lhes disse que “não eram bons a matemática”, entravam em pânico nos testes ou ficavam presos num tema e sofriam para o superar. Esses temas variam muito, desde fracções até disciplinas inteiras, como álgebra ou geometria. A noção de quem é – e não é – uma "pessoa matemática" é o foco da investigação que desenvolvo com os meus colegas.


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Um dos maiores desafios dos educadores de matemática é ajudar um grande número de professores do ensino básico que estão a lidar com trauma matemático. Imagina teres que ensinar matemática a crianças quando esse é um dos seus maiores medos pessoais. O trauma matemático manifesta-se como ansiedade ou pavor, um medo debilitante de estar errado. Esse medo limita a escolha de certos caminhos de vida a muitas pessoas, incluindo decisões de ensino e carreira profissional.

O trauma matemático tem origem em várias fontes, mas há algumas delas em que pais e professores têm o poder de influenciar directamente: ideias datadas do que significa ser bom a matemática, por exemplo. Isso inclui velocidade e precisão, que eram importantes nas décadas passadas quando os humanos precisavam de ser os computadores. No entanto, as investigações confirmam o que muitas pessoas partilham frequentemente quase como anedota: ligar velocidade à computação debilita os alunos. Pessoas que sofrem para completar um teste de matemática no tempo certo geralmente experimentam medo, o que acaba por lhes desligar a memória operacional. Isso torna impossível pensar e acaba por lhes reforçar a ideia de que são simplesmente más a fazer contas – que não são uma “pessoa matemática”.

Mais. Estudantes que têm sucesso em provas de matemática cronometradas podem acreditar que ser bom a matemática é simplesmente ser rápido e preciso nos cálculos. Essa crença leva a uma identidade matemática frágil. Os estudantes têm medo de revelar que não sabem alguma coisa ou que não são assim tão rápidos, o que pode afastá-los de trabalhos mais desafiantes. Ninguém sai a ganhar.

O mito de que lembrares-te rapidamente de factos matemáticos básicos é bom para a aprendizagem tem raízes profundas e perniciosas. Vem da melhor das intenções – quem é que não quer que os seus filhos sejam bons em cálculo? Mas, os estudos mostram que essa fluência factual (a habilidade de te lembrares facilmente de factos, como 3 x 5 = 15) desenvolve-se melhor quando se percebe primeiro o sentido das operações aritméticas. Por outras palavras, o primeiro passo para construir uma memória matemática é entender como é que a matemática funciona.

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Um entendimento mais profundo de conceitos como multiplicação e divisão permite que as pessoas vejam padrões em números. Por exemplo, 3, 5 e 15 estão numa relação triangular, onde 3 x 5 = 15, 5 x 3 = 15, 15 ÷ 5 = 3 e 15 ÷ 3 = 5. Jennifer Ruef, CC BY

Saltar o passo de perceber o sentido da matemática resulta numa compreensão frágil e numa memorização cognitivamente dispendiosa. Quando a pessoa apenas decora, cada novo facto é como uma ilha isolada do resto, tornando-o mais fácil de ser esquecido. Em contraste, entender os padrões nos factos matemáticos comprime a carga cognitiva exigida para os relacionar. Perceber o sentido promove uma compreensão mais profunda, robusta e flexível, permitindo que a pessoa aplique o que sabe a novos problemas. Mas, o que é que pais e professores podem fazer para apoiar essa fluência factual?

Primeiro, encontrar a maravilha e o prazer: jogos e quebra-cabeças que fazem com que as pessoas brinquem com números, como Sudoku, KenKen ou certos jogos de cartas, criam uma necessidade intelectual de utilização de factos matemáticos, o que ajuda as crianças a desenvolverem fluência factual. Pedir às crianças para explicarem o seu pensamento – por palavras, imagens e objectos – valida a importância das suas ideias.

Enfrentar os erros como explorações. Não ter uma resposta correcta não significa que todo o raciocínio estava incorreto. Pedir às crianças para explicarem o seu raciocínio também ajuda para perceber o que elas sabem e o que podem aprender em seguida. Questionar uma criança sobre como é que chegou à resposta pode fazê-la pensar sobre o que não funciona e vale a pena ser revisto. Para fazer essas perguntas, convém usares a tua melhor poker face - se transmites que a resposta está errada ou certa, podes estar a reforçar a crença de que só a resposta certa é que conta.


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Segundo, não prejudiques. É importante que os pais evitem passar aos filhos a mensagem de que eles não são pessoas matemáticas. Isso pode ter um impacto negativo nas crenças da criança sobre a sua própria aptidão de aprendizagem. Além disso, cuidado com as afirmações de que é preciso sofrer para aprender matemática.

Para muitos adultos, as aulas de matemática de hoje são muito diferentes das que eles tiveram. As escolas norte-americanas, por exemplo, distanciaram-se da velocidade e precisão – algo às vezes chamado de “drill and kill” – tendo passado a ter mais em conta a discussão e o sentido da matemática. Formadores de professores de matemática concordam que isso foi uma mudança boa. Procura pelo sentido profundo do que teu filho está a aprender, sabendo que esse conhecimento profundo vem de interligar várias maneiras de resolver problemas.

Se reconheces que passaste, ou estás a passar, por um trauma matemático, acredita em mim: não estás sozinho e há formas de superar esse trauma, a começar com a noção de que a matemática é ampla e bela. A maioria das pessoas é muito mais matemática do que pensa.

Jennifer Ruef é professora de estudos de educação da Universidade do Oregon. Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation sob licença Creative Commons. Lê o original aqui.


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