Alan Yang, de 'Master of None', não acha graça das suas piadas com asiáticos
Entrevista

Alan Yang, de 'Master of None', não acha graça das suas piadas com asiáticos

O co-criador da série fala sobre Trump, humor e representatividade.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

A aguardada segunda temporada de Master of None, a comédia do Netflix de Aziz Ansari e Alan Yang, continua no mesmo caminho que a tornou queridinha da crítica durante sua estreia em 2015. A partir do final da última temporada, Dev (Ansari) está na Itália, solteiro e comendo muito; quando ele volta para Nova York, a série aborda temas indo da origem muçulmana da família de Ansari até a experiência de várias pessoas de diferentes etnias dentro da indústria de serviços. A segunda temporada de Master of None chega a uma conclusão que é tanto inevitável quanto surpreendente, apresentando um Dev mais melancólico e resignado.

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Depois de fazer um perfil de Ansari para VICE em 2015, falei com Alan Yang, 34, cocriador da série, que também é produtor-executivo e roteirista. Comendo sisig (porco frito) e dasilog (peixe-leite frito), falei com o nativo de Riverside, na Califórnia, sobre a excelente nova temporada, sair com menos pessoas brancas e quão políticos são os objetivos da série.

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VICE: Um dos episódios mais interessantes da segunda temporada é "New York, I Love You", que acompanha pessoas de diferentes etnias que trabalham na indústria de serviços — um porteiro, um balconista de loja de conveniência e um taxista. Como vocês bolaram esse conceito?
Alan Yang: Antes da primeira temporada, Aziz e eu estávamos andando por Nova York tentando imaginar como a série seria. Tínhamos acabado de pensar no episódio "Pais", que abriu nossos olhos para que o programa poderia ser sobre qualquer coisa. Passamos por um cara vendendo óculos escuros no St. Mark's Place e pensamos "Como será a vida desse cara? E se a gente seguisse a esse cara por um episódio inteiro?" Sempre fazemos piada com esse filme da Jennifer Aniston, em que ela entra no prédio do seu apartamento e o porteiro diz "Oi, Sra. Shelton!", e essa é a única fala do cara no filme. E se a gente acompanhasse ele pelo filme inteiro?

O ímpeto por trás do episódio é que cada ser humano no mundo é o astro da sua própria série. Ninguém é coadjuvante. Queríamos pensar em histórias que fossem tão engraçadas, satisfatórias, simpáticas, interessantes e cheias de nuances quanto as histórias do Dev. Pensamos em várias histórias diferentes e jogamos a maioria fora, porque o padrão sempre era "Se escrevêssemos isso para o Dev, isso entraria na série?" E geralmente a resposta era não. Fizemos uma história sobre a vida na casa de uma senhora chinesa que trabalhava como garçonete. Escrevemos essa e pensamos "Não ficou tão boa", então não usamos.

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Quão importante é mostrar esse tipo de representação para o público?
A primeira coisa que pensamos é: Essa é uma história que nos interessa? "Religião" retrata a família e os pais de Aziz, que são atrapalhados, carinhosos, amorosos e severos — e por acaso muçulmanos. Não fazemos esses episódios com mensagens especificamente políticas ou de representação.

Eu sempre quis fazer um episódio sobre religião, porque achava interessante que o astro da série tinha pais muçulmanos. Acho que as pessoas não sabiam isso sobre o Aziz — elas presumiam que ele era hindu, ou sei lá o quê. Acabamos com um episódio que não é sobre religião ou o islã, mas sobre falar com seus pais e aceitar quem você é como adulto, além do quanto você está disposto a revelar a eles. A gente tinha uma montagem com pessoas sendo escrotas com o Dev por ele ser indiano. Filmamos uma dessas cenas um dia depois da eleição de Trump, e foi realmente angustiante e estranho. Tive que pedir para o ator gritar "Terrorista!" para o Aziz na manhã depois da eleição.

Boa parte da temporada já estava escrita antes de Trump ser eleito, certo?
Quando ele ganhou, entramos em pânico. Dissemos: "Precisamos abordar isso? Precisamos escrever coisas novas?" Pedimos aos nossos amigos do The Daily Show e [ Last Week with] John Oliver para mandar vídeos de islamofobia. Fizemos pesquisas, e isso não pareceu certo.

Tem um texto do New York de Collier Meyerson chamado "Chega de caras brancos pra mim?", sobre como a vitória de Trump afetou a vida amorosa dela. Eu sempre namorei garotas brancas, e agora penso "Talvez meus relacionamentos devessem combinar com a minha política".
Tive esse pensamento, mas sem relação com Trump, tipo "São tantas mulheres brancas". Falei sobre isso com o Aziz. A maioria das pessoas que conhecemos na rua ou através de amigos são brancas. Mais da metade das pessoas que você conhece em Nova York são brancas.

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Especialmente nas nossas indústrias.
Você sabe quantos roteiristas asiático-americanos existem no entretenimento? Pouquíssimos. Muitos asiáticos, indianos e negros vieram falar comigo sobre a série, e fico feliz que eles tenham gostado. Se posso dar a um garoto negro em Montana uma gota de otimismo, ótimo. Você pode se sentir muito isolado num lugar onde ninguém parece com você.

Você se sente pessoalmente focado em alcançar esse garoto negro alienado em Montana?
Tudo isso é subconsciente e acontece abaixo da superfície. Aziz e eu estamos escrevendo para nós mesmos, e fomos garotos que cresceram assim. Algumas das coisas que gostamos — piadas ou experiências específicas que colocamos na série — provavelmente são específicas de pessoas que parecem conosco, mas muito disso é universal, sobre anseio, arrependimento ou alienação. Solidão é uma coisa grande nessa temporada. Quem nunca sentiu solidão? Até o Ryan Reynolds já sentiu. Acho.

"Solidão é uma coisa grande nessa temporada. Quem nunca sentiu solidão?"

No livro de memórias de Sherman Alexie, ele fala sobre nunca ter lido outro autor nativo norte-americano até ter 20 e poucos anos. Não li nada de um autor asiático até estar na faculdade. Você também passou por isso?
Li The Joy Luck Club quando era garoto. Ang Lee estava dirigindo coisas. Claro, não posso apontar uma série que fosse "dirigida por asiático-americanos". As pessoas me perguntam "Você não mencionou Long Duk Dong no seu discurso [no Emmy]. Você já foi comparado com ele?" Não! Isso foi muito antes da minha época. Algumas vezes as pessoas mencionam Bruce Lee, que é muito legal, mas igualmente ruim porque era o único asiático famoso daquela época. Fico ressentido com isso, então não assisto Bruce Lee. Quando as pessoas fazem esses sons de "ching chong" com movimentos de luta, eu penso "Bom, não quero assistir esse filme". Faz tempo desde que tivemos uma figura heroica asiática-americana. Cadê nosso Harrison Ford, nosso DiCaprio? Eu aceitaria um Chris Pine asiático. Eles não precisam ser a maior estrela do mundo. Só relativamente grandes. Mas estamos dando nossos passos — tem os caras de Crazy Ex-Girlfriend e 13 Reasons Why. Está acontecendo.

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"Cadê nosso Harrison Ford, nosso DiCaprio? Eu aceitaria um Chris Pine asiático. Eles não precisam ser a maior estrela do mundo. Só relativamente grandes"

Seus pais apoiaram sua escolha de carreira?
Tenho muito que agradecer a eles. Eles são muito mente aberta e progressistas, mesmo que não expressem isso na superfície. Eles não são "descolados", mas são legais. Quando eu disse que queria me mudar para Los Angeles e tentar ser roteirista, eles disseram "Sim, OK". Tenho certeza que eles estavam muito preocupados por dentro. [Mas] eles simplesmente me levaram até lá e disseram "Certo, colega. Você está por sua conta agora". Eles não me pressionaram, e ainda não pressionam. Eles me deixaram fazer o que eu queria. Tenho muita sorte nesse sentido. Acho que isso não é muito comum entre pais asiáticos.

Seus pais assistem a série?
Sim, minha mãe tem muito orgulho dela. Ela é professora de colégio, e todos os garotos assistem a série e gostam de discutir os episódios com ela. Depois da primeira temporada, minha mãe mandou uma mensagem dizendo "Tenho muito orgulho de você. Sei que você trabalhou duro nessa série". Meu pai fez algo similar. Ele me mandou um e-mail muito legal. É um grande passo para eles. Logo eles vão conseguir dizer "Eu te amo". Eles já escrevem isso. Estamos chegando lá.

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A segunda temporada de Master of None já está disponível na Netflix.

Tradução: Marina Schnoor

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