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feminismo

Como ser mulher, segundo as revistas femininas dos anos 50, 60 e 70

Lava bem a tua vagina, faz um curso de massagens para agradar ao teu marido e não fumes os cigarros dele, ok?

Por Caroline Thompson; Traduzido por Madalena Maltez
28 Setembro 2018, 11:14am

Colagem por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Regra geral, não curto desconsiderar revistas femininas como lixo rasca e descartável. A sociedade gosta de torcer o nariz a coisas vendidas para e apreciadas por mulheres, o que, sim, é uma grande e injusta hipocrisia. Ninguém deveria ter vergonha de ler a Cosmopolitan ou algo do tipo. Dito isto, recua um pouco no tempo e vais encontrar boas razões para criticar revistas femininas, razões que não envolvem estares-te a marimbar para quem gosta de moda, maquilhagem ou decoração.

Como aprendi num fim-de-semana a ler apenas revistas femininas dos anos 50, 60 e 70, há muitas coisas bizarras enterradas nas páginas empoeiradas dessas publicações. Por isso, vem comigo na máquina do tempo, para vermos como as mulheres eram ensinadas a serem mulheres no passado. Depois, procura a tua avó e dá-lhe um grande abraço.

Não fales sobre sexo em encontros... Não beijes no primeiro encontro... Não te vistas para acentuar a tua sexualidade

A edição de janeiro de 1957 da Ladies' Home Journal aborda uma questão que está na cabeça de todas as mães: o potencial casamento da filha adolescente. Num teste da revista, uma mulher podia ficar a saber se a sua preciosa bebé seria um dia adequada para casamento, respondendo a uma série de perguntas sobre a filha. Ela já esteve em encontros às cegas? Ela “acaricia-se quando está parada”? Ela “recusa-se a ir à igreja regularmente”? Bem, como podes imaginar, estes não são bons sinais.

Na verdade, se a tua filha se envolve em 10 ou mais práticas mencionadas no teste (perde a calma facilmente com membros da família, vai a festas ocasionalmente), a revista alerta: “Ela pode ter dificuldade em ter um casamento de sucesso”. Mas, o problema não acaba aí. “Por outro lado, se a tua filha é muito púdica, não é muito espontânea e está sempre em estado de conflito, pode também não conseguir ter um casamento feliz. Em qualquer extremo, ela precisa de mais compreensão e orientação do que a que lhe estás a dar agora”.

Faz sempre duches vaginais

Todas as edições da Seventeen, Cosmo e Ladies' Home Journal que folheei apresentavam dois ou mais anúncios de duches íntimos. Parece que os editores das revistas femininas estavam obcecados com isto. Ou viciados no dinheiro que essa publicidade trazia. De qualquer forma, a mensagem era clara: vaginas são estranhas e devem ser tratadas como um problema a ser resolvido. Claro, agora sabemos que a prática não é recomendada pelos médicos e pode levar a infecções por fungos, vaginose bacteriana e, em alguns casos, infecções de ovários e de útero.

Uma campanha da ducha Gentle Spring, à esquerda, de 1978. Uma propaganda da ducha Demure de 1969 à direita.

Para além da questionável eficácia do produto, temos a forma como era vendido nestas publicações – deixavam bem claro que não podias ser realmente bonita ou manter o teu marido se não usasses estes duches. “Mesmo os perfumes mais caros do mundo são inúteis se não estiveres segura da tua própria fragrância natural”. Coisas bem antipáticas e manipuladoras deste tipo. Mas, pelo menos as mulheres daquela época não eram encorajadas a usar desinfetante para higiene íntima. Ups, espera aí.

Aprende onde fumar

Segundo Peg Bracken, autora de I Try to Behave Myself [Tento comportar-me, em tradução livre] um guia de etiqueta para “jovens livres”, citado numa edição de Janeiro de 1964, da Ladies' Home Journal, quando uma senhora começa o hábito saudável de fumar, é importante que ela saiba quando e onde é apropriado acender o seu cigarro.

Bracken, de maneira razoável, sugere que as mulheres não devem fumar em elevadores. Mas, também sugere não fumar na rua. Tal acto, segundo escreve, “pode dar-lhe um ar de Sadie Thompson, beatnick ou lavadeira, dependendo da sua idade e constituição física”.

Além disso, escreve Bracken, uma mulher que fuma deve sempre carregar os seus próprios cigarros. E justifica: “Nenhum homem vai casar com uma mulher que está sempre a tirar-lhe os cigarros”.

Mima o teu homem

Num artigo da edição de Agosto de 1965 da Cosmopolitan, intitulado “38 Maneiras de Mimar um Homem”, temos um exemplo primordial da longa tradição de listas deste género nas páginas das revistas femininas. E algumas das sugestões são estranhas. Os destaques incluem:

Não o acordes a meio da noite para dizer que te estás a sentir solitária e insegura. Se ele tiver um dia difícil pela frente, pode precisar dormir”.

Dá-lhe aquela atenção completa, do tipo que davas antes do casamento, quando ele estiver a contar o que aconteceu no escritório”.

A ideia dele de nirvana é um vigoroso esfregão nas costas... Em vez de investires tempo nas reuniões de pais e mestres, faz um curso de massagem suíça”.

Se sabes exactamente porque é que o motor dele está lento (o motor do carro), não digas”.

Ganha dinheiro... como um homem

“A simples verdade infantil (que muitas mulheres ainda não reconhecem) é a seguinte: a forma de ganhar um salário de homem é ter um trabalho de homem”, escreve Caroline Bird na edição de Fevereiro de 1974 da Cosmopolitan. O artigo de Bird, “Como ganhar um salário de homem”, está cheio de dicas deste tipo, para além de muitos conselhos para mulheres que querem escalar a escada corporativa sem sacrificarem os seus charmes femininos. És do tipo que consegue lidar com um trabalho de homem? Bird sugere que te questiones:

“Consegue seguir em frente sem uma dose diária de elogios?".

“Consegues manipular circunstâncias a teu favor?”.

“Consegues considerar homens como pessoas em vez de objectos sexuais?”.

Juro que esta última é verdade e, sobre isso, Bird escreve: “Não te rias. O mundo do trabalho está cheio de homens e eles não estão ali para jogos de engate. Algumas mulheres usam esses meios para chegar ao topo, mas esse não é um meio confiável de mobilidade profissional”.

Hmmm... Está certo.

Além de tudo isto, percebe que a culpa é sempre tua

A Ladies' Home Journal dos anos 60 tinha uma coluna recorrente chamada “Esse casamento pode ser salvo?”, onde o terapeuta William Zehv ponderava sobre as aflições dos casais comuns. Primeiro a mulher contava-lhe a história, depois o homem e, então, o bom doutor dava o seu diagnóstico e explicava às leitoras como tudo funcionava.

Na edição de Janeiro de 1964 de “Esse casamento pode ser salvo?”, Vera, 28 anos, descobria que o seu marido, Thad, estava a ter um caso. Também é revelado que o marido, Thad – literalmente o nome dele – tinha sido reprovado na faculdade de medicina e tinha aceite um emprego como avaliador de seguros na empresa do pai da amante. Quando finalmente confrontado por Vera, Thad 1) negou tudo, 2) recusou-se a aceitar um divórcio amigável, 3) continuou a sair com a outra mulher e a mentir a Vera sobre isso.

Zehv perdoou as mentiras de Thad. Os seus erros, afinal, são resultados de uma mãe dominadora e os medos de Thad de que Vera pudesse ser diagnosticada com epilepsia (???). “A mãe de Thad criou-o para acreditar que não é masculino admitir os erros, fraquezas e ignorância em qualquer assunto”, escreve. E acrescenta: “Ela ensinou-o a considerar o fracasso como uma calamidade. Portanto, ele recusou-se a reconhecer o seu fracasso na universidade, escondendo a verdade, tal como escondia pequenas falhas à mãe na infância”.

O doutor implora para que o casal faça mais sexo. “Quando eles discutiram francamente as suas dificuldades sexuais e aceitaram alguns conselhos profissionais, as dificuldades foram gradualmente eliminadas”, escreve Zehv. E salienta: “O sexo entre eles tornou-se mutuamente prazeroso e mais frequente”. No final, todo este sexo levou à cura mais fácil para qualquer casamento problemático: um filho! O casal levou o bebé ao consultório de Zehv depois de seis semanas e o terapeuta de revista ficou feliz com o que viu. “Como terapeuta, fiquei orgulhoso, vendo o brilho nos seus rostos como prova de um casamento que vai durar”, garantiu.

E pronto! Que maravilha de conselho, Will!


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