Na ponta direita, estão Dom Vilson Dias (de mão no peito), o mentor do sistema de extorsão e o Padre Leandro, a peça central. Foto: Divulgação

O esquema de corrupção e abuso sexual montado por padres no interior de São Paulo, Brasil

Extorsão, lavagem de dinheiro, assédio e protecção em casos de pedofilia garantiam uma vida de luxo a dois sacerdotes paulistas.

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11 Março 2019, 6:00am

Na ponta direita, estão Dom Vilson Dias (de mão no peito), o mentor do sistema de extorsão e o Padre Leandro, a peça central. Foto: Divulgação

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

“O escândalo fere o irmão e prejudica a credibilidade do Evangelho. Muitas vezes, é preciso cortar na nossa própria carne...”. Foi o que disse Dom João Inácio, Bispo de Lorena, interior de São Paulo, Brasil. Ele é o encarregado do Vaticano para apurar os crimes de corrupção de Dom Vilson Dias, Bispo da Diocese de Limeira, responsável por 103 paróquias de 16 cidades da região. “Cortar na própria carne” simbolizaria destituir Vilson do cargo de Bispo que ocupa há já 12 anos. Na última quarta-feira de cinzas, 6 de Março, Dom João voltou atrás e disse que a Quaresma é “tempo de reconstruir as relações com Deus e com os irmãos”. Os dois Bispos encontraram-se, m Brasília, na Conferência Nacional dos Bispos, cujo lema foi “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27).

O padre Pedro Leandro Ricardo, reitor da Basílica de Santo Antônio de Pádua, em Americana, é apontado como a peça-chave do sistema de extorsão, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e desvios, montado pelo Bispo Vilson. Leandro tem ainda a agravante de ser protagonista pelo menos nove casos de pedofilia, além de ter assediado moral e sexualmente diversas pessoas ligadas ou não à igreja. Foi afastado da reitoria de Americana no final do mês de Janeiro. As suas vítimas de pedofilia sofrem até hoje de transtornos psicológicos e psiquiátricos.


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Os dois sacerdotes têm algumas características em comum: são homossexuais, gostam de luxo e dinheiro e deturparam a fé de milhares de fiéis. Vilson é mais reservado, relaciona-se sexualmente com padres maiores de idade, entre quatro paredes. Leandro gosta de exibir, em público, os seus amantes. Isto, por si só, já fere o direito canónico, no que diz respeito à castidade, continência e ao celibato.

O Núncio Dom Giovanni Daniello, a maior autoridade da Igreja Católica no Brasil, já tinha conhecimento de todas estas denúncias desde 2013. Vários fiéis da Diocese enviaram cartas endereçadas à sua pessoa, mas o mensageiro do Vaticano em Brasília nada fez a respeito. OPapa Francisco, no Vaticano, já tem conhecimento do caso. Giulio Ferrari, activista social e empresário, enviou as denúncias ao Papa em meados de Fevereiro.

"Dizimão"

Quem cunhou o termo “Dizimão” foi Giulio Ferrari. Ele foi procurado pelas vítimas em Abril de 2018, para ajudar no trabalho de pesquisa e recolha de provas do caso, além de pressionar as autoridades responsáveis pela investigação e apuramento do processo contra o Bispo Vilson e o Padre Leandro, que já vigora há três anos.

“Percebi que há um mecanismo: Bispo Vilson encobre relacionamentos homossexuais entre seminaristas, além de casos de pedofilia e assédio sexual, fomenta e alimenta, cria uma fábrica de potenciais abusadores dentro do seminário eclesiástico”, conta Giulio. Escolhe para futuros padres jovens oriundos de famílias pobres e disfuncionais, com pai ausente e que demonstram tendências homossexuais.

“Quando esses rapazes saem do seminário e são ordenados padres, recebem as igrejas da mão do Bispo e têm que pagar o ‘Dizimão’, quantias avultadas para uso pessoal de Vilson, reformas e compras de imóveis”, diz. E o activista acrescenta: “O Bispo faz chantagem psicológica com os jovens padres: ‘se não me pagares, eu sei o que fizeste e posso excomungar-te a qualquer momento’”.

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Vilson com o Papa Francisco, em Abril de 2018. Foto: Divulgação

Diversos padres veteranos, anteriores à nomeação de Vilson, recusaram-se a pagar o ‘Dizimão’ e foram afastados das suas paróquias originais e enviados para igrejas de baixos rendimentos. “Outros padres, de outras cidades e estados começaram a procurar-me, relatando as mesmas denúncias, então, descobri que o ‘Dizimão’ do Bispo Vilson é apenas uma franquia de um sistema muito maior no Brasil”, argumenta Giulio.

Neste jogo particular do interior paulista, Padre Leandro, que enquanto seminarista foi expulso de várias congregações por causa de casos com outros seminaristas e pedofilia, torno-seu o parceiro ideal do Bispo.

Pivôs do "Dizimão"

A Basílica de Santo António de Pádua, em Americana, é a maior igreja de estilo neoclássico do Brasil. Ocupa um quarteirão inteiro do centro da cidade. As suas amplas escadarias foram lavadas com água e sabão, num domingo, dia 7 de Fevereiro, por um grupo de fiéis que se organizou num acto simbólico para “lavar a sujidade deixada pelo Padre Leandro, sob a tutela do Bispo Vilson”.

No subsolo do salão onde acontecem os trabalhos religiosos, há uma livraria de artigos religiosos. Carlos Martins, um dos amantes de Leandro e dono da Livraria Pádua, é suspeito de ser um dos pivôs dos escândalos financeiros da dupla de sacerdotes. Carlinhos, como é conhecido, ganhou de presente a livraria já montada pelo Padre. Os móveis do estabelecimento, no valor de 150 mil reais [cerca de 34.500 euros], foram encomendados na loja de móveis da sua mãe.

A acusação trabalha com a hipótese de que Carlinhos tenha ido ao estrangeiro, no final de 2018 e início de 2019, levando dinheiro vivo do ‘Dizimão’. Ele refuta: “Essas duas viagens foram minhas, particulares”. Diz ter viajado uma única vez, como funcionário da diocese, na companhia de Padre Leandro e de uma comitiva financiada pela igreja, incluindo outros dois amantes de Leandro e a mãe do mesmo, Dona Amélia, em 2014.

Carlinhos afirma que já depôs, quebrou o seu sigilo bancário, entregou toda a documentação à polícia. Mas, à reportagem da VICE, argumenta que o dinheiro não é dele, mas fruto de extorsões, desvios de verba e apropriação ilícita, tudo muito bem orquestrado, já que todo esse dinheiro não está guardado no Brasil: “Nem sei fazer isso, depositar dinheiro no exterior”. Em Outubro de 2018, o Padre Leandro trocou a conta da igreja, depois de 40 anos no banco Banespa/Santander, para o banco Sincredi. Isto seria uma manobra para facilitar o processo executado por Carlinhos.

O outro pivô do ‘Dizimão’ seria Adalberto Aparecido Ricardo, o Betinho, irmão do Padre Leandro, agente imobiliário. O Bispo Vilson tem 10 imóveis declarados, cinco em Itanhaém, litoral de São Paulo, outros cinco em Guaíra, a sua terra natal. O Padre Leandro tem cinco imóveis declarados, todos em Americana. Por si só, tais bens são incompatíveis com o rendimento dos dois enquanto sacerdotes. No contrato, Betinho, o agente, muda o valor do imóvel para menos e os órgãos que deveriam fiscalizar a tramóia fazem vista grossa.

Betinho também é agente de dois empresários de Americana que trabalham com jogos de azar, casinos ilegais na cidade. Esta seria outra forma de lavar dinheiro, pois o fruto desses empreendimentos é todo ilegal, não passível de declaração, portanto, facilita as remessas em dinheiro vivo para o exterior.

Crimes do Padre Leandro

A Casa Paroquial da Basílica de Americana é um sobrado todo pintado de branco, com cerca de 1000 m2 de área construída, em frente à igreja. Foi nesse cenário que Dom Vilson tentou extorquir 50 mil reais [cerca de 11.500 euros] ao Padre Ângelo Rossi, antigo reitor. No ano de 2012, Ângelo foi afastado e aposentado logo após negar a quantia ao Bispo.

Em 2013, Vilson colocou o Padre Leandro no lugar de Ângelo. O Padre Ângelo deixou a caixa da igreja de Americana, em 2012, com um milhão e 200 mil reais [cerca de 276 mil euros]. Leandro disse aos fiéis que a caixa estava a zeros e pediu doações reforçadas.

Segundo um Vigário Pastoral afastado no início do ano da Basílica, Leandro seria o real mandante do ‘Dizimão’ criado por Vilson: “Tudo o que Leandro quer, o Bispo faz, conseguiu até inverter isso”. O Vigário foi afastado, pois não tinha cinco mil reais [cerca de 1.150 euros] para dar a Leandro. Ele confirma a teoria de Giulio Ferrari, de que Vilson fomentou a entrada de padres homossexuais e pedófilos em todas as 103 paróquias da Diocese.

Nas paredes laterais do salão da igreja, há telas que simbolizam episódios bíblicos das Tempestades, com Jesus Cristo, Sermão aos Peixes, com Santo António, inspirado na obra do Padre António Vieira. Próximas delas, as colunas de sustentação não respeitam o desenho original, branco revestido com desenhos dourados de ouro, o próprio metal. O Padre Leandro pintou-as com tinta para automóveis de segunda mão, passou um verniz por cima, assim como fez outras reformas não permitidas, como forma de lavar dinheiro. Perseguiu os conselheiros do CONDEPHAM que se posicionaram contra as reformas, forçando a demissão de um deles, Eduardo Milani.

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O Padre Leandro, ao centro, na Basílica Santo António de Pádua. Foto: Reprodução/ Facebook

Vários relatos atestam que o Padre Leandro costumava expulsar pessoas de idade dos bancos frontais durante as missas televisionadas pela Rede Vida, alegando que não iam sair bem na imagem. Pegava-os pelos braços e levava-os para os bancos laterais. Também decidia a posição do coral de canto para ter foco exclusivo em si. “Chegou a pedir ao coro para parar de cantar numa das missas, para ele próprio cantar sozinho, com a ajuda da plateia”, conta um ex-conselheiro da Basílica, testemunha de crimes de extorsão, que acrescenta que um dos maestros do coro, Eduardo Lustosa, também foi assediado sexualmente pelo padre.

A parte externa do terreno é usada nas Festas de Santo António de Pádua, nos meses de Maio e Junho, para arrecadar dinheiro para a igreja. Em 2013, o valor total, normalmente guardado na Casa Paroquial, foi de cerca de 300 mil reais [cerca de 69 mil euros]. Os fiéis ofereceram-se para acompanhar o Padre Leandro no percurso de 10 metros até ao local, apenas como garantia da sua segurança e do dinheiro. Ele rejeitou, insistiu que iria sozinho. Quando voltou disse que tinha sido assaltado e os ladrões levaram tudo, mas aquele é, provavelmente, o quarteirão mais seguro da cidade. Na parte de baixo da Basílica há uma esquadra, com ronda policial a todas as horas do dia. Além disso, a guarda civil faz a ronda da igreja e há um posto policial na praça, ao lado da Casa Paroquial.

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Dom João Inácio, Bispo de Lorena, interior de São Paulo. É o encarregado pelo Vaticano para apurar os crimes de corrupção de Dom Vilson Dias, Bispo da Diocese de Limeira. Foto: Divulgação/ Facebook

Em 2014, o Padre falsificou o balancete da mesma festa. O lucro real foi de 600 mil reais, segundo Roberto Rodrigues, contador do ano. Leandro publicou a quantia de 300 mil [cerca de 138 mil euros]. Não se sabe para onde foi a outra metade. O Padre também vendeu uma chácara da igreja, na zona entre Americana e Limeira, no valor de 170 mil reais [cerca de 39.100 euros], sem nunca dizer para onde foi a quantia.

Vale a pena lembrar que tudo isto faz parte do ‘Dizimão’ de Vilson. A última vez que o Bispo apresentou os registos de contabilidade da Diocese de Limeira, sem total manipulação dos dados, foi em 2010.

Um dos delegados de Polícia de Americana, Edney Xavier, é amigo íntimo do Padre Leandro. Os dois já foram fotografados juntos em festas, em colunas sociais de jornais locais e frequentam a casa um do outro. Há quem sugira que os dois são amantes. Várias fontes confirmam a história. Xavier já arquivou algumas investigações de crimes de pedofilia de Leandro, alegando falta de provas.

As vítimas do ‘Dizimão’ relatam que a polícia está inerte nas investigações, também por causa dessa ligação sexual entre o delegado e o Padre. Não quiseram revelar os respectivos nomes por medo da mesma polícia.

Amantes e cúmplices do ‘Dizimão’

O secretário da Basílica, Yan Pelozo, 23 anos, amante do Padre Leandro desde que era seminarista e menor de idade, mora com a mãe, Elaine Pelozo, funcionária do contabilista da Basílica, num dos imóveis do Padre, fruto do ‘Dizimão’.

No fim de Janeiro, a VICE viu Yan voltar da Casa Paroquial, acompanhado do Padre Edmilson Silva, encarregado de substituir Leandro depois do seu afastamento. O secretário subia as escadas de acesso à igreja com as vestes do novo Padre nos seus braços: batina branca, casula verde com símbolos bordados em vermelho e amarelo, entre outros adereços. Edmilson, sorridente, usava óculos, roupa social, calças escuras e camisa azul clara. Yan, discreto e contrariado, vestido com calça de ganga e um polo branco.

Enquanto o novo reitor tenta evitar falar, dizendo que não pode comentar nada sobre o escândalo que envolve Vilson e Leandro, mas, ainda assim, garantindo que "toda a situação é lamentável”, Yan acelera o passo e entra numa porta à esquerda do altar.

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Padre Edmilson, o substituto de Leandro após o afastamento. Foto: Divulgação/ Facebook

Já na secretaria, Yan diz que tem um compromisso, olha para o relógio de pulso e vem até ao balcão, dizendo que as questões pontuais que envolvem Leandro e Vilson não atrapalham o quotidiano da igreja. A reportagem da VICE contraria o rapaz, enfatizando que as questões não são pontuais, mas tem vindo a acontecer desde 2013, quando o Padre Leandro assumiu o cargo. Yan cala-se, dizendo que não pode comentar o assunto. Perguntamos-lhe se ainda é amante de Leandro. O rapaz, de pele clara, cabelo castanho claro e olhos verdes baixa o olhar, fixa o balcão e responde “Não”, a que se segue uma pausa aterradora de alguns segundos.

Então, a VICE pergunta-lhe como Leandro faz para conciliar tantos amantes, ele próprio no andar de cima da Basílica, Carlinhos na Livraria, no andar de baixo, o delegado Xavier e tantos outros. Yan levanta o olhar e o tom de voz naturalmente agudo: “Aqui eu sou apenas um funcionário, qualquer outra questão é com a Cúria”. Dias depois do ocorrido, fiéis relatam a presença de polícias armados durante as missas, algo nunca antes visto por ali.

Outro caso antigo de Leandro é Diego dos Santos, actual padre da Diocese de Limeira. Os dois começaram a relação em 2008, quando Leandro ainda era Reitor da Basílica de São Francisco de Assis, em Araras. Na época, Diego tinha 13 anos de idade. Diego passou um tempo como seminarista em Campinas, onde, num fim-de-semana, levou um rapaz para o quarto, mas o seminarista do quarto ao lado flagrou o casal em actos não condizentes com a função eclesiástica. Diego também foi apanhado numa orgia com outros seminaristas, em Limeira, ainda menor de idade. Um dos padres da época expulsou-os do seminário. Como consequência, o Bispo Vilson enviou o padre que aplicou o castigo para uma paróquia distante e readmitiu Diego.

O Vigário Pastoral afastado da Basílica de Americana acusa Diego de reproduzir o comportamento de Leandro, perpetrando o ‘Dizimão’: “O que Leandro lhe fez, ele fez a outros, abuso sexual e pedofilia”.

Despejo da Casa Paroquial

Armando*, um parente próximo do Padre Leandro, conta que Dona Amélia, mãe de Leandro, vivia com o filho na casa paroquial de Americana. “No momento do despejo, ela fez um escândalo no meio da rua, disse que não iria sair do local, pois a casa era dela”. Isto aconteceu em meados de Fevereiro, quando o Padre Edmilson conseguiu tirá-los de lá definitivamente. Quando Leandro entregou as chaves da Casa Paroquial, Edmilson ordenou também que ele deixasse as chaves do carro da paróquia, por ordem do conselho administrativo. “Leandro viu que já não tinha hipótese e teve que chamar o irmão, o agente imobiliário Betinho, para o levar para um dos imóveis onde já estava a mãe”.

Ao chegarem ao imóvel, encontraram Carlinhos, dono da Livraria Pádua, a cuidar de dona Amélia. A senhora de 80 e poucos anos perguntou porque é que o filho não levava o carro da paróquia. “Dona Amélia anda toda curvada, mas ao saber do motivo, endireitou-se, olhou para ele e disse: ‘Você é um fraco’. Leandro baixou a cabeça, saiu e foi para o quarto, de onde não saiu durante bastante tempo”. O termo ‘fraco’ é a ‘palavra-gatilho’ entre a família, o pior insulto entre eles. “Dom Vilson é extremamente manipulador, destruiu a vida de Leandro”, conclui Armando*.

Leandro deve ser excomungado da Igreja Católica num futuro próximo, por todos os crimes que cometeu. O futuro de Vilson ainda é incerto. Carlinhos e Betinho devem ser julgados por participarem no ‘Dizimão’.


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