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Ambiente

Como lidar com a sobrecarga psicológica das notícias sobre alterações climáticas

Falámos com uma psicanalista sobre como podemos evitar ser engolidos pelo pavor ou perdermos completamente as esperanças.

Por Joe Sandler Clarke
02 Maio 2019, 10:12am

Colagem: Marta Parszeniew.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

As notícias são más. Isto vai ser verdade não importa em que dia o leres. As manchetes parecem arrancadas de um set de filme de terror distópico e enfiadas na Internet. Num minuto rabiscadas de forma demencial numa parede de um hospital abandonado, logo de seguida no topo da secção ambiental do jornal.

“Insectos 'não têm onde se esconder' das alterações climáticas”, “O colapso da civilização está à vista”, “Estamos condenados”: esta linguagem tornou-se normalizada, à medida que o nosso clima vai mudando. O fim pode parecer estar extremamente próximo. Recentemente foi revelado que os maiores produtores de energia da China pediram sinal verde ao governo para a construção de até 500 novas instalações de queima de carvão. Se o plano for concluído, basicamente vai destruir os esforços em curso para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 grau.

Para toda a gente que escreve sobre alterações climáticas ou para quem estas notícias são uma obsessão, é fácil sentir uma sobrecarga. “Isso é inevitável”, diz a psicanalista e escritora climática Sally Weintrobe, quando nos encontramos para beber uma chávena de chá em sua casa, no norte de Londres. E acrescenta: “Sentires-te sobrecarregado dá ao problema o respeito que ele merece”.


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O mais importante, segundo Weintrobe, é o que fazemos com esse sentimento. Batemos em retirada para o conforto dos amigos e família? Decidimos não nos importar e passamos o resto das nossas vidas a riscar itens da lista de coisas para fazer antes de morrer? A mudança do clima é uma crise global com consequências globais. Resolver isto vai exigir um esforço tremendo. Será que devemos mesmo tentar?

“Acho que não devemos ter medo de nos sentirmos sobrecarregados e acho que também não devemos ter medo de compartimentalizar”, diz Weintrobe. E justifica: “Isto é parte de cuidares de ti. É o que chamo de 'gestão do coração'. O objectivo é perceber o momento em que nos afastamos disto pelo nosso coração e quando nos afastamos porque não sabemos sobre o assunto, ou para podermos voar para a Austrália, ou algo do género”.

Nos últimos anos, Weintrobe deu uma volta à sua carreira para tentar entender de que forma uma abordagem psicanalítica pode melhorar o nosso entendimento da crise climática e a nossa resposta colectiva ao problema. Ela estava interessada em perceber como a nossa ansiedade e sentimento de inquietação podem infiltrar-se na sociedade, acabando por moldar as nossas políticas ambientais. “Esta questão afecta fortemente os nossos sentimentos e é mais difícil, porque não temos muito apoio”, salienta.

Weintrobe já escreveu que o legado das discussões climáticas fracassadas em Copenhaga em 2009 foi a percepção colectiva de que os “nossos líderes não estão a cuidar de nós... eles não se importam com a nossa própria sobrevivência”. No Reino Unido, por exemplo, depois de uma semana a vermos os parlamentares não chegarem a lugar algum em relação ao Brexit, colocando a economia britânica e até o fornecimento de equipamentos médicos essenciais em perigo, a sensação de que os nossos líderes se estão a cagar para nós é palpável.

O facto de que companhias e políticos mentem e ofuscam a verdade de forma rotineira em relação às alterações climáticas é um grande gatilho de ansiedade e pode deixar-nos com o sentimento de que ninguém se importa. Grandes empresas de petróleo jogam dos dois lados na questão climática, investindo em energias renováveis enquanto arrasam protecções ambientais importantes.

Este duplo pensamento é enlouquecedor. As pessoas e organizações mais poderosas do Planeta mentem sobre uma crise que ameaça todos. Portanto, não é surpresa que fiquemos preocupados. Não é surpresa que o Mundo pareça uma grande merda. Mas, o que podemos fazer? Toda a gente pode tornar-se vegan, mas como é que isso afectaria as decisões do governo chinês? Para quê fazê-lo então? Onde é que está a lista das coisas que quero fazer antes de morrer?


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“Para pensar sobre alterações climáticas de uma forma que seja eficiente, precisamos também de sentir tudo isto", argumenta Weintrobe. E sublinha: “E isso é muito difícil se não queremos dissociarmo-nos dos nossos sentimentos”.

Encarar o desafio das alterações climáticas é, portanto, como encarar o desafio de outras situações impossíveis que a vida nos coloca à frente: a morte de um amigo próximo, o fim de uma relação, caos político. Ser tranquilizado pelo conhecimento de que algo pode ser feito. Que as pessoas já estiveram em situações terríveis antes e as superaram.

Em 1939, o escritor alemão Bertolt Brecht escreveu o poema “Maus tempos para poesia”, tanto como uma crítica a Hitler – que ele chamava de “pintor de paredes” – como uma celebração da vida e do espírito humano.

Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira em flor
E o pavor com os discursos do pintor de paredes
Mas só este último
Me impele à escrivaninha.

O desafio é aceitar o Mundo como ele é e viver nele. Realmente viver. Pegar em tudo o que está a acontecer agora e tentar melhorar as coisas. Mostrar a nossa raiva para com as pessoas que estão a causar esta confusão e trabalhar para fazer algo em relação a isso.

Joe Sandler Clarke é jornalista da Unearthed.


@JsandlerClarke

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