Como assumi que era depressivo e parei de pensar em suicídio
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Como assumi que era depressivo e parei de pensar em suicídio

Ronald Rios conta como procurou ajuda.
LF
ilustração por Luiza Formagin
13.9.17

Escondi durante muito tempo que tinha depressão. Isso eu estou dizendo clinicamente, com os termos técnicos, os jargões, os remédios. Quando você é diagnosticado com depressão, recebe um monte de informação. É como se tivesse saindo uma versão nova do seu sistema operacional, cheia de features novas e você agora está aprendendo a mexer melhor com esse riquíssimo gadget que é o seu corpo. Ele corre, pensa e até bate falta no ângulo. Tem como falar que não é excepcional essa obra?

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Mas ela tem falhas como todas. Desde os meus 18 anos eu sentia uma tristeza que não tinha fim. Foi o primeiro defeito da máquina, mas eu falei "dá para seguir assim mesmo", igual quando seu celular trava às vezes ao rodar determinado aplicativo. Ou seja, ali já havia algum problema, antes do diagnóstico clínico. E eu até lembro de ensaiar uma busca por um terapeuta, mas esbarrava num problema: achava que terapia era coisa das madames de Copabacana, do povo que faz mochilão pela Europa lá de Pinheiros. Eu sou durão. Eu não preciso disso.

"Achava que terapia era coisa das madames de Copabacana, do povo que faz mochilão pela Europa lá de Pinheiros. Eu sou durão. Eu não preciso disso."

Avança um pouco. Antes dos meus 20 anos, eu eventualmente pensava sim em suicídio. Parecia o único conforto para minhas mazelas. Mas eu não falava disso com ninguém. Porque isso é coisa desses "malucos que não têm problema de verdade. Eu tenho que correr atrás de dinheiro porque não tenho herança nem carro do papai".

Você pode considerar mentalidade pequena. Mas era só uma forma de não ter que lidar com meus demônios internos. E tem um fator aí que é foda explicar: não existe depressão na favela. Ou pelo menos não há espaço para esse assunto. Não se toca em depressão na periferia. No Complexo do Alemão, onde cresci, você ficava satisfeito se tivesse saúde física para viver, ir para a escola e pro serviço. Não há tempo para transtorno bipolar entre balas perdidas e o Caveirão do Capitão Nascimento.

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"Não existe depressão na favela. Ou pelo menos não há espaço para esse assunto. Não se toca em depressão na periferia."

Mas lá havia sim um monte de pacientes não-diagnosticados. Relembrando, é tão óbvio pensar em quem precisava de ajuda. Mas na época era "engole o choro e vamos em frente que amanhã tem que acordar às 6 am".

Em 2012 vieram as intensas crises de pânico acompanhadas de uma diária urgência por dar cabo da própria vida. Não dá para colocar em outros termos. Uma das coisas que sempre tive — medo de altura — nessa época se acentuou. Altura virou sinônimo de "será que não é hoje que vou pular?". E ainda assim sem falar com ninguém. Lembro que nesse ano eu fiz uma matéria no Cristo Redentor. Eu não lembro de uma só entrevista desse dia, de tão nervoso que estava de estar ali tão alto, numa posição tão difícil de fugir dessa necessidade suicida. Lembro de fazer um esforço absurdo para ficar fixo nos olhos de cada entrevistado e não ver o horizonte com aquele Rio de Janeiro lindo pra caralho. Eu não vi o Cristo Redentor de perto. Eu estive a metros da estátua, mas não olhei um segundo para a locação da icônica cena radical de Renato Aragão. O tempo em que eu não estava entrevistando alguém, tentava me distrair olhando pro chão ou falando qualquer piada possível com a equipe. Foi um dia meio merda.

Dali para frente eu só fui piorando. Mudei de apartamento. Morava no quinto-andar e precisei ir para uma casa térrea. Tinha medo de pular a todo instante. Não adiantava colocar proteção, "eu sou gordo, eu vou arrebentar essa merda quando me jogar".

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Busquei ajuda. Do meu jeito torto. Pedi para um amigo pegar o contato de uma terapeuta que atendia outro amigo meu, roteirista do programa de TV onde eu trabalhava. Esse roteirista era bem próximo a mim e conversávamos sempre sobre tudo — menos sobre os pelés que a cabeça me aplicava. Imagina ter tanta vergonha que precisei de um intermediário para conseguir o telefone da psicóloga. Pois é.

Na terapia eu fui me conhecendo melhor. O consultório da psicóloga era um ambiente no qual sempre pensei em adentrar com todo cinismo do mundo, tipo "não acredito nessa merda aqui e não adianta ficar te falando o que eu sonhei". Estava enganado. Deu para entender a cada semana como meu cérebro funcionava. Fui ganhando mais controle sobre o jeito que eu pensava. Eu senti que estava tendo algum progresso pessoal finalmente.

Entre altos e baixos, minha psicóloga me indicou que buscasse um psiquiatra. Além de outros métodos, o psiquiatra poderia me receitar remédios. Esse era um preconceito que eu tinha. Não queria ser uma dessas crianças norte-americanas dopadas. Para ir para o futebol, precisam de remédio. Para estudar, remédio. Parece que precisa de ansiolítico até para cagar. Novamente, levei um tempo até aceitar que o antidepressivo era um bom caminho e que há umas paradas químicas no cérebro que por mais que eu tentasse sozinho, com muito autoconhecimento e terapia; simplesmente não iriam se resolver sozinhas.

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"Entre altos e baixos, minha psicóloga me indicou que buscasse um psiquiatra. Além de outros métodos, o psiquiatra poderia me receitar remédios. Esse era um preconceito que eu tinha. Não queria ser uma dessas crianças norte-americanas dopadas."

Com o tempo, pude falar mais abertamente sobre o assunto. Com amigos. E depois pude escrever sobre. Tudo, textos mais confessionais, músicas, piadas. Descobri que muita gente tinha medo de buscar ajuda ou nem sabia que tinha alguma ajuda nesse mundo a ser buscada.

Disso, duas coisas me incomodaram, uma com maldade e a outra sem. A sem maldade era: gente me procurando preocupada querendo uma resposta para seus problemas. Li desde problemas triviais — um cara meio perdido sobre garotas — até coisa pesada mesmo, como minas estupradas.

Claro que entendi o que as pessoas queriam: alguma ajuda para sua depressão porque eu estava escrevendo sobre isso. Mas sei meus limites e área de atuação, então tentei sempre passar uma só visão: busque ajuda profissional. Particular, rede pública, o que você conseguir. Sem frieza, eu tento sempre deixar claro que entendo a dor, mas não posso dar conselho nenhum. Seria irresponsável, especialmente não conhecendo nada sobre a vida dessas pessoas. Por isso sou cauteloso com esse negócio de "se você estiver tendo pensamentos suicidas, vem falar comigo no inbox" que vi rolando. Acho que é um passo bom entrar em contato com alguém gritando por ajuda mas espero que as pessoas não estejam resolvendo complexos transtornos psicológicos no chat do Mark Zuckerberg.

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"Busque ajuda profissional. Particular, rede pública, o que você conseguir. Sem frieza, eu tento sempre deixar claro que entendo a dor, mas não posso dar conselho nenhum. Seria irresponsável."

Ilustração por Luiza Formagin

  • Dono de bar não é terapeuta.
  • Seu amigo não é terapeuta.
  • Por Deus, o Twitter não é terapia.

Minha única satisfação dessa história toda é estar bem hoje e ver gente que buscou ajuda porque eu falei sobre o assunto. Vale a pena se abrir só por isso. De falar que estou bem. Que tenho dias bons e ruins, que tenho fases péssimas, mas sempre sobrevivo e cada vez com melhor consciência e controle sobre mim. De aceitar que o uso de remédios é um preço pequeno para, entre outras coisas, não querer me matar. Aquela urgência de pular não existe mais. A vontade de explodir que eu tinha não acontece mais.

A parte ruim, aquela com maldade a qual me referi, é que sempre vai ter algum filhadaputa. Sempre vai ter. Nunca me tirou do eixo, mas de um ano para cá, em alguns momentos, vi que surgiam vários pedidos nas minhas redes-sociais para que eu, adivinha só, me matasse.

"Como assim?" Assim:

Essas "campanhas" nasciam normalmente nos chans da vida, fóruns de postagem anônima. O mesmo lugar de onde vem o grosso do lixo reacionário da Internet. Durante um tempo, essa turma fez: 1) bolão para ver quando eu iria me matar; 2) sugestões diretas disso para mim. Faziam montagens de Photoshop comigo apontando uma arma para a minha cabeça. Bem bad vibe mesmo. Minha reação é tirar um sarro porque esse é meu mecanismo de defesa. Mas achava revoltante dum ponto de vista coletivo, porque pensava "E se fazem isso com alguém mais impressionável e dá certo?". E eu nem buscava esses posts. Seus autores queriam que eu visse sempre e davam um jeito de que isso caísse no meu colo. Os caras são determinados.

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"Faziam montagens de Photoshop comigo apontando uma arma para a minha cabeça. Bem bad vibe mesmo."

"Determinação" é como um avião: teoricamente é algo bacana para ajudar nossas vidas. Nas mãos erradas, pode criar um 11 de setembro.

E era muita podridão que eu vi. O tipo de merda que tem gente que trabalha no Google apenas identificando esse tipo de conteúdo e tem como benefícios acompanhamento psicológico e férias longas para não ficar maluco da cabeça.

Esses arrombados nunca conseguiram acertar a data que eu iria me matar no bolão deles. Já venci todos os prazos que eles me deram. Esses arrombados nunca conseguiram me deixar para baixo pensando "será que sou um bosta mesmo e dar um fim é o caminho melhor?", mas é preocupante que eles existam e atuem assim. E se eles pegam para Cristo o Ronald de 2012, propenso ao suicídio?

Eu aprecio um senso de humor distorcido. Mas não há nenhuma comédia em incentivar alguém a se matar. Fora a parte jurídica (é crime), penso no nível de espírito de porco que o canalha tem que ter para fazer isso. Esses casos existem há tempos — eu não fui o primeiro a ser abordado dessa forma. Já li notícias de embrulhar o estômago. Gente que não só teve o suicídio incentivado online, mas como também recebeu dicas do que fazer e não fazer. Quase como num tutorial para instalar um jogo pirata no computador ou um life-hack de como dobrar camisetas mais rapidamente.

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"Não há nenhuma comédia em incentivar alguém a se matar."

Canalhas existirão. Tem gente que manda eu printar tudo que achar para levar na polícia. Eu não faço isso. Porque isso significaria ter que ficar lá lendo tudo de novo e eu não posso usar meu tempo para isso. Se desejar o mal para mim é o que deixa o cara feliz, deixa ele lá perdendo o tempo dele. Que da minha ampulheta ele não tira um grão.

Meu recado final é: busque ajuda. Não caia na merda negativa. Onde houver trolls, que você não esteja lá. Você não ganha nada com isso. E mesmo que seu único troll seja seu cérebro, busque ajuda.

Depressão não tem nada a ver com ter ou não passado uma experiência traumática. Não tem nada a ver com estar trabalhando ou estar desempregado. Não há nenhum glamour na depressão. Não é doença de Tumblr. Não é doença de rico. Os tiozinhos bêbados em boteco, acredite, boa chance de ter ali uma pá de deprimido.

Nem tem nada chique em ter depressão. Pelo contrário, há vergonha demais. E não poderia ser assim. Ninguém tem vergonha de ter, por exemplo, asma. E depressão é isso: uma asma na sua cabeça. E você não vê ninguém com vergonha de carregar sua bombinha na mochila, né?

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Esta matéria faz parte de uma série de reportagens de saúde mental para o mês de prevenção ao suicídio. Para ler mais, clique ao longo do mês em VICE Setembro Amarelo.

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