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Saúde

A corrupção que vi ao trabalhar num hospital público grego

Dar dinheiro a um médico antes de uma cirurgia é proibido, mas depois da operação é um “presente de agradecimento”.

Por Anna Nini
16 Janeiro 2018, 5:46pm

Todas as fotos por Orestis Seferoglou, apresentadas num artigo da VICE Grécia intitulado 'Passei duas noites a conduzir por Atenas numa ambulância grega'. As imagens não têm ligação com o hospital, pessoas ou eventos descritos no artigo abaixo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Grécia.

“Vou colocar-te na unidade de exames de sangue, porque pareces-me uma pessoa inteligente”, disse-me o director de RH, ao mesmo tempo que chamava outra pessoa da equipa para fazer a minha apresentação. Logo depois, uma mulher baixinha, ruiva, de óculos brancos e pretos e batom vermelho, recebeu-me e levou-me para a secretária onde começaria o meu estágio de dois anos.

Tinha cerca de 21 anos quando o programa de estágios da minha escola me deu a opção de trabalhar num dos maiores hospitais públicos de Atenas, na Grécia. Não fiquei muito empolgada com a escolha, mas era um trabalho remunerado, o que me permitiu largar o meu emprego como empregada de mesa num café. E assim, numa manhã chuvosa de Outubro, entrei pelos portões do hospital, empurrei a pesada porta de madeira e tive o meu primeiro gostinho do que é a realidade do estéril sistema de saúde pública na Grécia.


Vê: "Matar o Cancro"


Percebi de imediato que um hospital é o pior lugar para trabalhar. É uma câmara de dor infinita e cheiro a morte, café e antisséptico, onde, diariamente, tens de encarar os melhores e piores aspectos da humanidade. Isto aconteceu há nove anos, mas não me esqueço da manhã em que vi uma mulher sentada nos degraus que levavam ao pequeno pátio do hospital. Ela tinha uma expressão de choque no rosto e um lenço na mão. Os filhos, pequenos, brincavam à sua volta, pedindo-lhe bolos e sumos.

Ao passar, ouvi-a repetir secamente “Meninos, ouçam-me, o pai morreu”. Senti que ela estava a tentar "injectar" o conceito de morte neles, a fazer com que as crianças entendessem que nunca mais veriam um homem que - algumas horas antes - estava junto deles. Nunca tive uma "experiência em segunda mão" tão chocante. Comecei a andar mais depressa.

Como vim a descobrir, no hospital todos os dias eram mais do mesmo. Pessoas a gritar de dor, pessoas a chorar nas salas de espera, pessoas a carregar pastas cheias de documentos médicos, em filas intermináveis, pessoas a falarem com familiares ao telefone. E café - um fluxo interminável de café.

Quando comecei a trabalhar, todas as histórias trágicas, sintomas e doenças ao meu redor mexiam comigo aa ponto de me tornar hipocondríaca. A cada 15 dias pedia a uma enfermeira para me fazer um exame de sangue, para ter a certeza de que estava saudável. Ao longo dos três meses que trabalhei neste departamento, não sei quantos médicos consultei para garantir a mim mesma que não sofria de alguma doença incurável.

No fim desses três meses, fui transferida para outro departamento, porque estava a causar problemas à minha supervisora. A principal questão é que não seguia o cronograma que ela tinha estabelecidos para os pacientes. Por exemplo, ela deixou-me um bilhete na mesa que dizia que os resultados dos exames deviam ser entregues aos pacientes depois do meio-dia - não me parecia certo, porque recebíamos os resultados logo de manhã e tínhamos muito tempo para os entregar antes do meio-dia. Ao contrário da enfermeira do departamento, sobrecarregada, mas sempre sorridente, a nossa supervisora tirava a sua pausa da manhã entre as 11h00 e o meio-dia, o que significava que ficava fora do escritório durante uma hora, “para tomar um café e comer uma sandes”. Eu não tinha nada para fazer, portanto, sempre que alguém me pedia os resultados, eu entregava. Fui apanhada algumas vezes e, por isso, o meu tempo na unidade de exames de sangue chegou ao fim.

Fui transferida para o Departamento de Urologia do hospital. Trabalhavam ali quatro residentes, juntamente com três enfermeiros auxiliares e três directores, dos quais um era puramente decorativo; limitava-se a ficar sentado à espera da reforma. O escritório dos médicos era uma sala muito pequena no segundo andar, decorada com quatro pequenas escrivaninhas e algumas cadeiras.

O meu trabalho era preencher as fichas de entrada e alta dos pacientes, selar resultados de pacientes, ou devolver registos aos arquivos do hospital quando necessário. Tinha também de montar o cronograma de cirurgias e dar apoio como secretária. No geral, era o trabalho perfeito: tinha todo o tempo do mundo para beber café e falar com os meus amigos pelo Facebook.

No início, não gostei muito, porque tinha que ficar numa salinha apertada com 10 pessoas, mas não tardou a nos acostumarmos uns aos outros. Os médicos são tipos estranho; podem ser a um mesmo tempo, santos e demónios, paranóicos e racionais, calmos e histéricos.

Um dia, um deles virou-se para mim e disse: “Está quase na altura de ganharmos os nossos bónus”. Depois, explicou-me que, três anos antes, tinha operado um paciente com cancro da próstata. Desde então, apesar de o paciente estar saudável, fazia-o passar por um exame específico a cada dois meses, com um custo de cerca de 200 euros. E este tipo de coisas acontecia abertamente na maioria das especialidades. Não foi a primeira nem a última vez que vi um médico ser subornado, ou mentir descaradamente a um paciente.

O tempo que ali passei foi uma lição de vida, já que os hospitais gregos são lugares de mais intriga e drama que todas as temporadas de House of Cards e Grey's Anatomy juntas. Foi lá que aprendi, por exemplo, que dar dinheiro ao médico antes da cirurgia é considerado “corrupção”, mas depois da operação é um “presente de agradecimento”. Aprendi que o dinheiro não é dado para o procedimento — o médico é obrigado a realizá-lo. O dinheiro supostamente é dado para cuidados pós-operatórios, algo a que os pacientes também têm direito. Os médicos, obviamente, sabem disso, mas criam uma ilusão de que o suborno é necessário para o bem do paciente. Alguns avançavam logo às claras com um preço, outros eram mais discretos.

Às vezes acho que todo o processo - que é endémico no sistema de saúde grego - faz alguns pacientes sofrerem de algum tipo de síndrome de Estocolmo. O melhor exemplo dessa mentalidade de que me lembro, foi a vez em que um paciente com cancro insistiu em me dar 20 euros “para tomar um café”. O que ele realmente precisava de mim era que eu carimbasse a sua licença médica, o que não podia fazer sem a assinatura de um médico. Essas licenças eram dadas às quartas-feiras, porque era quando os médicos tinham tempo para assinar o documento. O paciente foi ter comigo a uma quinta.

Tudo o que eu tinha que fazer era fotocopiar a sua antiga licença e passá-la ao médico responsável pelo diagnóstico. Eu disse que faria o que fosse possível e que ele teria que esperar até o médico sair de uma cirurgia. Recusei o dinheiro, envergonhada, dizendo-lhe que não bebia café.

Depois tinhas os representantes farmacêuticos, ou delegados de propaganda médica. Todas as manhãs, fora dos consultórios dos médicos, juntamente com os pacientes, tinhas três ou quatro homens ou mulheres, bem vestidos, à espera. Não sei se a relação simbiótica entre médicos e empresas farmacêuticas agora acabou, mas na época em que ali trabalhei os privilégios prometidos pelos representantes das marcas de medicamentos eram escandalosos. Jantares no Hilton, banquetes em sítios de luxo, viagens pagas para conferências e todo o género de presentes - de livros a relógios, dependendo do tempo de casa, os médicos podiam pedir qualquer coisa em troca de prescreverem determinadas drogas aos seus pacientes. Até eu recebi presentes, mesmo não podendo passar receitas.

Claro que também há médicos que são o oposto disto. Aqueles que sofrem para dizer aos pacientes e familiares que há algo errado com a sua saúde. Aqueles que adiavam folgas para trabalharem turnos extra num ambiente ingrato. Pessoas que perdiam o aniversário dos filhos para lidarem com uma emergência.

Andavam pelo hospital pálidos, com olheiras profundas, e quando os pacientes lhes ofereciam davam presentes partilhavam-nos com as enfermeiras e o resto da equipa. Quando lhes perguntavam, “Doutor, quanto devo?”, respondiam “Cuide mas é de si” e davam medicamentos grátis a pessoas sem seguro de saúde.

É óbvio que os médicos devem receber salários justos pelo seu trabalho. Mas, para chegar a este ponto, a mudança tem de, primeiro, vir daqueles que precisam deles, os pacientes. Temos de livrar-nos da ilusão de que esta é a única forma em que a nossa sociedade pode funcionar, só porque crescemos dentro deste sistema. Quando isso mudar, o resto não terá outra opção a não ser seguir-lhe o exemplo.


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