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“Minha Música É um Reflexo da Minha Vida Pessoal”, diz Trentemøller

Conversamos com o multi-instrumentista dinamarquês que conta como seu som livre de rótulos é sua principal forma de expressão.

O Trentemøller é o pior pesadelo de um jornalista musical – o som dele é explosivo e indefinível, indo da eletrônica ao punk rock em questão de segundos, deixando seus críticos sem palavras quando se trata de descrever eloquentemente as suas estratificadas obras-primas. Cheguei para a entrevista esperando encontrar um artista quieto e introspectivo, até mesmo tímido. Afinal de contas, imaginei, a maior parte do trabalho dele é marcada por uma melancolia comovente que eu costumo associar a rapazes soturnos com um gosto por pausas dramáticas. Mas, claro, eu não podia estar mais errado.

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Trentemøller me encontrou em uma pista vazia do Mod Club, agitado e cheio de energia ainda que esteja chegando ao fim de uma extenuante turnê de dois anos do seu disco mais recente, Lost. Ele falou a mil por hora, mostrou fotos pessoais de shows anteriores e até criou uma conexão comigo falando do nosso amor mútuo e eterno pelo The Cure. Imediatamente, o que mais chama a atenção no multi-instrumentista nascido na Dinamarca é a sua extrema curiosidade, que provavelmente é o ingrediente secreto para o seu sucesso.

"Rituais diários me inspiram, uma caminhada na praia perto do meu estúdio me inspira, uma caminhada na chuva, uma conversa com um amigo, assistir a um filme independente, ouvir outros artistas, tudo isso entra em jogo quando estou criando." Perguntei a ele sobre a aparente disparidade entre o seu temperamento alegre e a melancolia da sua música, imaginando como funcionava essa dinâmica. Ele riu e depois explicou que a sua música é sempre um testemunho pessoal – os seus discos são uma reflexão dos seus sentimentos e gostos durante o período em que foram criados. "Não sou bom em colocar no papel meus pensamentos e sentimentos, então tudo vem através da minha música." Um grande admirador de David Lynch, Trentemøller explicou que o tipo de música que o atrai são aquelas faixas que você ouve repetidamente, encontrando um detalhe novo a cada audição. "Adoro a complexidade dos filmes do David Lynch, como eles são abertos à interpretação. Eles são como um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo. Ele não diz à plateia o que pensar. Acho que isso é muito importante para o cinema e para a música – deixar espaços negativos para a contemplação e a interpretação."

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Utilizar sua música como uma plataforma para a auto expressão não é só uma experiência catártica para o Trentemøller – também é o que faz sua música continuar avançando, e o que o faz explorar e criar sons fora daquilo a que já se acostumou.

Ele não tenta forçar nada. "Durante o processo criativo, percebo se há um som em particular que escolhi para trabalhar e desenvolver, mas ele sempre vem de um lugar orgânico, ele se apresenta para mim. A minha música é um reflexo da minha vida pessoal e dos meus gostos, e tudo isso muda com o tempo, então, quando chega a hora de criar os sons para o próximo disco, a coisa flui."  Embora a coisa flua para o Trentemøller, às vezes os seus fãs e críticos não são tão complacentes. "Isso também é o que torna tudo tão confuso para as pessoas", ele reconhece. "Os críticos às vezes não sabem o que fazer com a minha música – não é indie rock, não é estritamente eletrônica, não é kraut-rock – às vezes as pessoas não gostam muito do jeito como eu transito pelos gêneros, mas para mim, vem tudo do mesmo lugar."

Embora algumas pessoas tenham descrito o mais recente disco do Trentemøller, Lost, como uma antítese dos seus trabalhos anteriores, ele hesita frente à essa análise. "Nunca acho que um disco deva ser o oposto do disco anterior, ou de alguma forma ser uma reação às coisas que você fazia antes", ele diz, ponderadamente. "Mas dito isso, não quero mesmo fazer o mesmo disco duas vezes, então sempre tento apenas ver onde a música me leva e não forçar nada. Se começo a pensar no que uma gravadora vai pensar dele, já era para mim. Acabou."

O disco surgiu meio que na ordem inversa, de acordo com o artista. Tendo inicialmente planejado fazer um disco totalmente instrumental, depois de quatro semanas de gravação, Trentemøller acabou escrevendo músicas com cantores específicos em mente, o que o levou a uma série de parcerias. "Comecei a compor as músicas e, logo no começo do processo de composição, percebi que tinha cantores específicos em mente para as faixas. Então fui ver se conseguia entrar em contato com esses artistas", explica. Declaradamente tímido quanto a dividir o trabalho duro, Trentemøller estava ansioso em fazer os vocalistas dizerem sim para o projeto. "Foi uma época bastante tensa – comecei a entrar em contato com esses artistas e, no final, tive sorte porque todo mundo disse sim, e acho que talvez isso tenha acontecido porque as faixas foram feitas para eles desde o começo. Para ser sincero, se um artista tivesse dito não, teria sido um grande problema para mim." O maior desafio do disco era criar um trabalho que fosse dele, mas ganhasse vida na voz de outros, em vez de um disco cheio de artistas convidados. "Foi por isso também que fiz uma versão instrumental do disco, porque as faixas funcionam muito bem sozinhas. Com certeza foi um desafio enorme fazer um disco homogêneo com cinco cantores convidados a bordo."

Infelizmente, tivemos que encerrar a conversa quando as portas do Mod Club começaram a se abrir e fãs ansiosos começaram a fazer fila do lado de fora. Terminando, perguntei ao Trentemøller o que vinha a seguir. "Dormir bastante", ele disse, rindo. "Não, eu planejo parar de fazer shows durante um ano e meio e me focar completamente no estúdio. Sou só eu no estúdio quando trabalho na minha música – adoro essa solidão, ela me ajuda muito".

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Tradução: Fernanda Botta