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Estive no Fatídico Cruzeiro da Mad Decent em que uma Mulher Caiu no Mar

Este relato nos lembra por que o mantra raver do ‘paz, amor, união e respeito’ é válido (e necessário) frente a uma terrível fatalidade.
All below photos courtesy of the author

Todas as fotos cedidas pela autora

São 22h de quinta-feira, 12 de novembro, aproximadamente 190 km de distância do litoral cubano, e todas as 2400 pessoas na Mad Decent Boat Party estão no cassino ou em suas cabines porque não tem o que fazer. Após um dia de farra sem limites, todos os shows planejados para o final de semana foram adiados, que incluía a apresentação de headliners como Dillon Francis, Jack Ü, Flosstradamus e Mija. Por volta das 18h30 daquele dia, Kaylyn Rose Sommer Davis, 24 anos de idade, caiu no mar — ela segue desaparecida.

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O pouco que sabemos sobre Kaylyn fez tudo parecer ainda mais trágico e bizarro: ela era uma jovem mãe que vinha à festa pela segunda vez. De acordo com o Entertainment Weekly, em 2014, ela e seu marido casaram no navio, tendo a união oficializada por um cara que conheceram na fanpage do cruzeiro.

Leia: Guarda-Costeira Identifica Mulher que Caiu no Mar na Mad Decent Boat Party

Sentados no Keys 'N Krates Bingo, vestidos de acordo para uma Noite Animal Temática, ouvimos o anúncio de homem ao mar feito nos falantes do navio. Não entendemos a gravidade da situação. Todos imaginamos que o navio daria a volta, pegaria o infeliz que caiu, e rumaria ao México para o evento programado: uma festa da Mad Decent que duraria um dia inteiro, num esquema de open bar na Playa Mia Grand Beach & Water Park. Assim encerramos nosso bingo numa boa e fomos comer.

Atualizações eram repassadas via falante a cada 15 ou 30 minutos, mas não havia nenhuma novidade de fato. Jen, integrante da Sixthman e porta-voz oficial da Boat Party, passava pelo refeitório respondendo a perguntas durante boa parte da noite. Ela não tinha nenhuma informação nova – ninguém tinha – mas ela acalmava bastante a todos ao encorajá-los a mandar boas vibrações e prestar atenção aos anúncios.

Por volta da 1h30 da manhã de sexta, Bobby, diretor do cruzeiro, fez o anúncio final da noite. Após horas mantendo uma voz perfeitamente calma, ele finalmente engasgou. A passageira não havia sido encontrada. Ouvir o estalo na sua voz foi como ver além de todo o protocolo, percebendo a terrível realidade do ocorrido – os responsáveis não tinham como dar um jeito no que tinha acontecido.

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Leia: "A Mad Decent Fez uma Festa no Navio e Tive os Melhores Dias da Minha Vida"

Fui dormir e acordei na sexta com a notícia de que mais tarde voltaríamos à Miami. Logo fui tomada pela ansiedade brutal com o pensamento de que passaria mais 48 horas no cruzeiro-rave mais deprimentes de todos os tempos.

Mas este não é um texto sobre como o desastre foi terrível – e sim sobre como todos lidaram com eles. Os heróis que salvaram este pesadelo, da própria Mad Farm – incluindo a equipe da Norwegian Cruises, Sixthman Productions e o selo – que se mostraram unidos diante do caos e tomaram para si a tarefa de melhorar os ânimos de todos.

Naquela manhã fui à piscina para ver como estava todo mundo, e o que encontrei foi uma lição em humildade.

Primeiro, tinha esse cara, conhecido apenas como Handlebar John:

Ele estava na piscina, basicamente fazendo um mix de stand-up, improvisação e terapia emocional – oferecendo seu telefone de borracha para quem quisesse "ligar" para um ente querido para avisar que estava bem. Ele começou mostrando pra todo mundo como se fazia: "Sim, vovó, estou usando minhas boias sempre. Sim, tenho meu apito do estupro comigo também". Mesmo com a gravidade do ocorrido na noite anterior, era impossível não rir, e até aceitei a oferta dele, fazendo uma ligação de mentirinha para os bombeiros internacionais pra garantir que apesar dos rumores da Boat Party ter dado uma apagada, ela agora começava a pegar fogo, então eles não precisavam se preocupar.

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Pouco depois, a música voltou, e o primeiro artista do dia, o DJ de 19 anos do Philly Club, Swizzymack tornou-se o primeiro na história a abrir seu set apropriadamente com "Don't Stop Believin'" do Journey. Daí em diante caiu direto pro RL Grime e o hino festeiro do What So Not "Tell Me", e de repente todo mundo rebolava, os brinquedos de piscina da Mad Decent pululavam por todo o convés e a Bud Light Lime fluía feito água. Alguém pegou massa de pizza na cozinha e fez dela um baita acessório de dança interpretativa.

Major Lazer.

Lá no meio do oceano, em meio a um público variado de rostos sorridentes e fantasias ridículas, um sentimento PLURstático (o mantra rave do Peace, Love, Unity and Respec) finalmente voltava ao barco. Mesmo as mensagens clichê enfiadas em nossos cérebros com o show do Major Lazer cuja temática era Irmandade Universal, por meio da execução de faixas como "Get Free" e "Peace is the Mission", adquiriam nova significância naquele momento estendido perfeito.

Aí vieram as notícias dos ataques em Paris.

Estávamos completamente isolados do mundo exterior em nossa bolha raver flutuante, e se eu não houvesse ligado a TV nem um segundinho, não teria sabido do que aconteceu até termos ancorado. Ninguém mais parecia falar sobre o assunto, então presumi que ninguém sabia, ou como eu, não queriam piorar a vibe da festa. Foi preciso uma soneca de uma hora e muitas fatias de pizza para deixar pra lá a segunda onda devastadora da viagem e voltar pra área da piscina.

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Set do Nadastrom durante o nascer do sol.

Skrillex foi o primeiro artista a falar publicamente do ocorrido domingo cedinho. Chegando durante o set épico de nascer do sol de Nadastrom, ele agradeceu à produção, seguranças, funcionários e todos mais a bordo: "Quero agradecer a vocês por sua energia incrível. E só quero esclarecer que passamos por coisas horríveis aqui. Temos mais um dia neste barco, mais um dia para fazer desta uma viagem incrível. Durmam um pouco e vamos botar pra quebrar amanhã! Hoje!".

O domingo foi uma série de hype até o set de Jack Ü à 1 da manhã. Gente como Dillon Francis e Thomas Jack, que deveriam embarcar assim que chegássemos em Cozumel, nunca tocaram porque demos a volta antes de chegar ao nosso destino final. Já que a festa na praia não ia rolar, havia muita expectativa para este último show.

Jack Ü tocando via livestream do escritório do Norwegian Pearl.

Em uma jogada cruel do destino, após 15 minutos do set de Jack Ü, o céu escureceu, as nuvens se juntaram e lá veio uma enorme tempestade. O show teve que ser cortado, mas um salve pro Diplo e Skrillex que foram tão insistentes a ponto de convencerem a tripulação a deixarem fazer um livestream direto dos escritórios do Norwegian Pearl para todas as TVs do barco. Eles estavam tocando, literalmente, na mesa de alguém, e foi um negócio tão de coração que consegui perdoar o fato de soar feito merda no sonzinho da TV.

Pensaria-se que a tragédia da morte de Kaylyn e a festa cancelada estragariam tudo, mas a humanidade a bordo é o que levarei comigo quando lembrar deste fatídico cruzeiro. Uma olhada na fanpage Mad Decent Boat Partiers mostra mais posts positivos e cheios de compaixão do que reclamações. Um dos frequentadores sugeriu que os reembolsos fossem doados a um fundo para Kaylyn, que logo virou campanha no GoFundMe com dois terços de seu objetivo arrecadados – você pode doar aqui. Um salve pra todo mundo que tomou pra si a tarefa de manter a vibe em alta, de Handlebar John ao Jack Ü, ao pessoal na fanpage da Mad Farm pregando a empatia em vez de reclamar. Paz é a missão, não esqueçam.

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Tradução: Thiago "Índio" Silva

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