A nova onda entre usuários do site de streaming Twitch é comer e vomitar ao vivo
A ideia era pegar carona no sucesso sul-coreano do mukbang, um fenômeno no qual milhões de pessoas assistem umas às outras comerem pratões de comida a fim de tornarem suas refeições menos solitárias. Mas nós ocidentais somos especialistas em estragar iniciativas inocentes. Crédito: iamlittlegod

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A nova onda entre usuários do site de streaming Twitch é comer e vomitar ao vivo

Eis mais um exemplo de como ocidentais conseguem estragar ideias inocentes.

Na semana passada, o site de streaming de games Twitch criou um novo canal chamado "Social Eating". A ideia era pegar carona no sucesso sul-coreano do mukbang, um fenômeno no qual milhões de pessoas assistem umas às outras comerem pratões de comida a fim de tornar suas refeições menos solitárias. O conceito é bonito, mas nós, ocidentais, você sabe, somos especialistas em estragar iniciativas inocentes.

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O primeiro vídeo do novo canal do Twitch ao qual assisti foi este aqui abaixo: um cara vomitando em direção à câmera. (Estômago fraco? Fique longe do play.) Passei meia hora assistindo ao usuário whereiswaldoalejandro comendo o que o público sugeria ao som de "Chopped in Half", da banda Obituary. Em certa parte da transmissão, ele vomitou dentro da tigela e quase desmaiou sob os olhares confusos de um público de 12 pessoas. (Reza a lenda que um cara comeu cocô no canal, mas não vi nada que provasse esse boato.)

AVISO: ESSE VÍDEO CONTÉM CENAS DE VÔMITO

Não é de se surpreender que o Twitch postou um FAQ falando o que é ou não permitido no canal. A seção de coisas "permitidas" é bem previsível — é preciso interagir com seu público e mostrar rosto e comida durante a transmissão. Já a seção de comportamentos "proibidos" é mais reveladora. Mostra bem o que os usuários do Twitch são capazes: "comer itens inapropriados para consumo humano, como ração, substâncias tóxicas, fluidos corporais, lixo ou objetos não comestíveis" e "comer de forma a enojar, chocar ou ofender terceiros".

É também proibido consumir apenas bebidas alcóolicas e, antecipando-se ao estereótipo associado aos gamers, o site também proíbe o consumo exclusivo de "junk food, como doces, condimentos e barras de energia". Outro veto é qualquer participação em "competições ou desafios de comida envolvendo troca de dinheiro, bens ou serviços", mas, como pude notar durante as transmissões, isso não impede que os espectadores façam pequenas doações aos seus glutões favoritos.

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Na maior parte do tempo, os vídeos são entediantes. Em alguns momentos, beiram ao trágico. No vídeo acima, vemos Forsenlol, um usuário popular do Twitch, usando o canal para interagir com seus fãs enquanto come algum tipo de sanduíche na frente do computador. É um vídeo divertido, mas ao vê-lo lembro de mim mesmo comendo na frente do computador por falta de tempo. E se eu me sinto assim em relação ao Forsenlol, imaginem o que senti ao assistir ao orgulhoso e adiposo "OverweightGamer" exibindo seu prato de "arroz, feijão e frango — comida porto-riquenha!". É o suficiente para querer sair correndo até perder uns bons quilos.

Resumindo, o canal tem longo caminho pela frente. Enquanto escrevo esta matéria, ele está transmitindo apenas 14 vídeos, muitos deles com público na casa dos dois dígitos. Entre as transmissões mais movimentadas está a "Vamos acabar com esse melão", filmada pelo usuário spoonpai. Depois de 15 segundos vendo ele se empaturrar, sou tomado por uma ânsia de vômito.

Na Coréia do Sul, é comum vermos comentários que esses vídeos são uma forma de curtir uma refeição virtual sem sair da dieta. Mas, no ocidente, em especial na comunidade gamer, esse tipo de excesso é a norma. Talvez seja por isso que essa moda não tenha feito tanto sucesso por aqui.

Em vez de mostrar como as coisas poderiam ser, esse canal funciona mais como um espelho. E todos sabem que os espelhos nem sempre mostram o que queremos ver.

Tradução: Ananda Pieratti