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Tecnologia

Street Fighter de Rodoviária

Nada como jogar uma péssima versão pirata de Street Fighter, o game de luta mais famoso da história dos jogos eletrônicos.
10.1.14

Segura esses hadouken, irmãozinho.

Na era dourada do Orkut, esbarrei um dia com um conceito maravilhoso por meio de uma comunidade, o Street Fighter de Rodoviária. Claro que, quando vi a comunidade, entendi imediatamente do que as pessoas estavam falando, embora a versão de Street Fighter 2 hackeada que eu tinha jogado não foi em um fliperama de rodoviária, mas num buffet de festa infantil. Na época, eu era um pré-adolescente mal-humorado e só conseguia suportar esse tipo de coisa quando tinha algumas máquinas de fliperama com créditos infinitos, prática meio comum nos anos 1990 enquanto tática para distrair as crianças maiores. Foi assim que terminei Captain Commando (ótimo Beat’em Up, também da Capcom). Desde então, parte da magia acabou.

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Com a comunidade do orkut, percebi que havia muito mais gente no Brasil que tinha jogado aquela versão escrota de Street Fighter 2: Champion Edition, na qual um hadouken não é apenas um hadouken, são DOIS hadoukens (que podem ser lançados quando você está pulando); um shoryuken não é apenas um shoryuken, é um shoryuken 15 hadoukens e um teleporte, e o Zangief solta uns Yoga Flame do Joelho sem motivo aparente… era um sonho em vida. Anos mais tarde, quando fui pesquisar sobre esse crime contra a decência na programação profissional, descobri que não existia somente uma versão do Street Fighter de rodoviária.

Vale notar que, depois que a emulação de jogos de arcade se popularizou com o famoso emulador MAME, muitas novas versões começaram a aparecer, tornando quase impossível separar as versões piratas originais (risos) das mais recentes. Mas, como nesse mundo existe purismo para tudo, não duvido que já tenham conseguido separar os hacks antigos dos mais recentes. Sem contar que existem cinco versões originais do Street Fighter 2 feitas pela Capcom: World Warrior, Champion Edition, Hyper Fighting, Super (com os quatro personagens novos) e Super Turbo. Por causa de uma suposta facilidade em colocar peças novas na placa mãe do arcade do Champion Edition (processo parecido com o Circuit Bending), a grande maioria das versões hackeadas de Street Fighter são desse jogo.

As versões originais do Street Fighter 2.

Como nada consegue deter o poder da internet, a comunidade internacional dos nerds de plantão catalogou essas maravilhosas versões do jogo de luta mais famoso da história dos jogos eletrônicos. São inúmeras versões hackeadas de Street Fighter 2. Pesquisando sobre as várias versões eu quase tive um AVC, mas elas podem ser separadas em duas categorias, uma aparentemente feita para diversão saudável entre amigos, na qual são poucas as modificações, e a segunda, completamente surreal, cujos limites das leis da física e programação são postos em cheque até a estrutura do jogo quase quebrar ao meio. Seguem dois exemplos dessas belezocas.

Street Fighter 2: Rainbow Edition

Esse é o tipo de Hack que você provavelmente faria quando tinha 10 anos de idade. Facilmente reconhecível pelo logo coloridão, Street Fighter Rainbow Edition tem algumas adições divertidas ao jogo original. Você era aquela criança chata que achava simplesmente injusto só o Ryu e o Ken soltarem hadouken? Nessa versão, quase todo mundo solta Hadouken, no ar também, coisa que só foi tornada possível anos mais tarde, quando o pessoal da Capcom inventou o personagem secreto Akuma (ou Gouki para os japoneses), os hadoukens também voam na velocidade e seguem o oponente como um míssil teleguiado. Cansou do lutador que você escolheu? Aperte start no meio da luta que você muda de personagem. Em pesquisa por meio de fontes não tão confiáveis, descobri que parece que era fácil hackear a versão original do Street Fighter 2: Champion edition só colocando uns chips a mais na placa original do arcade. O mais impressionante é ver como essas versões piratas todas viajaram ao redor do mundo. Imagino grandes contêineres vindo de Taiwan carregando contêineres cheios de chips de fliperama para serem desovados no porto de Santos e devidamente entregues no pico de arcade em Águas de Lindóia (que complementava a renda vendendo bagulho).

Vinte e dois minutos ininterruptos do melhor do hack.

Street Fighter 2: Kouryu

Sim, essa é a tela de abertura dessa versão do Street Fighter.

Essa versão já diz ao que veio logo no começo com os dizeres: LIFE IS TOO SHORT TO BE LITTLE. Ok fera, e o que isso quer dizer? Quer dizer que seu Ken cocainômano vai dar um shoryuken, que, por sua vez, lança trocentos hadoukens na direção de seu inimigo. Quer dizer que o Zangief vai dar um pilão no vácuo e fazer você perder life mesmo sem ter conseguido te agarrar. É o tipo de coisa que você quando era moleque pensava “como fazer esse jogo FERA ficar MAIS IRADO AINDA?”. Quando se altera algum atributo de um jogo competitivo, como todos os jogos de luta são, você já cagou a porra toda desequilibrando a afinação minuciosa que um exército de programadores japoneses levou meses para aperfeiçoar. É por isso que o Street Fighter: Kouryu é maneiro pra caralho, ele não pensa sequer um segundo em justiça e equilíbrio, ele só pega as coisas mais foda que poderiam ter no jogo e enfia tudo ao mesmo tempo e pronto.

Legado Hacker

Dizem as más línguas que a Capcom lançou a terceira versão do Street Fighter 2, o Hyper Fighting, em resposta à enxurrada de versões piratas hackeadas e malucas que invadiram o mercado internacional de arcades. Nessa versão, a Capcom aumentou a velocidade do jogo e deu alguns golpes novos especiais para os lutadores, como o Kikouken, da Chun-Li, para quebrar o monopólio do patriarcado heteronormativo da habilidade em soltar bolas de fogo pelas mãos. De certa forma, o que essas versões pirateadas do Street Fighter em grande parte tentaram fazer foi colocar ideias novas e infantis a um jogo extremamente equilibrado e aperfeiçoado. Mesmo que indiretamente, os hackers taiwaneses ajudaram na conquista da igualdade dos sexos nos jogos eletrônicos.

A parte triste é que depois de vários dias de pesquisa, não consegui encontrar a versão específica de Street Fighter de Rodoviária que joguei tantos anos atrás. ;(

Siga o Pedro Moreira no Twitter: @pedrograca

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