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O que o turismo das Olimpíadas significa para as favelas do Rio?

A hospedagem dos visitantes gera renda para os moradores das comunidades que, ao mesmo tempo, sofrem com aluguéis cada vez mais caros.
05 August 2016, 1:36pm

Fotos cortesia de John Surico.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US.

Durante a Copa do Mundo de 2014 foi a primeira vez em que surgiram notícias internacionais de que os turistas escolheram as favelas do Rio de Janeiro como hospedagem. As comunidades dos morros, onde aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros moram, estariam mais seguras depois dos polêmicos esforços de "pacificação" da polícia, oferecendo uma experiência mais barata e "autêntica" aos visitantes do que as previsíveis estadias em hotéis à beira mar na cidade. As manchetes que se seguiram iam do culturalmente absurdo (CNN: "As favelas do Rio são o destino mais badalado da Copa do Mundo?") a chamadas mais ponderadas (FastCo: "O que acontece quando os turistas da Copa invadem as favelas do Rio procurando hospedagens mais baratas?").

Agora, na estreia das Olimpíadas de 2016, o Rio e suas favelas parecem presos em outro ciclo de notícias. Imagens de adolescentes armados com fuzis e histórias de tiroteios entre traficantes ganharam um tom sombrio na imprensa internacional, sugerindo que a "Cidade Maravilhosa" está à beira de uma guerra civil.

Para os moradores, principalmente os de classe média das favelas próximas ao centro da cidade, esse não é um retrato fiel do cotidiano. Eles reconhecem que a violência continua nos arredores da cidade (e, sim, às vezes no quintal deles), mas muitos ainda veem as Olimpíadas como outra oportunidade não apenas de capitalizar sobre as hordas de visitantes, mas também testar o que o turismo pode fazer por suas comunidades — mesmo depois que os Jogos terminarem.

A vista da Rocinha, a maior favela do Brasil.

Desviando de ônibus e virando nas curvas estreitas da Rocinha numa tarde de julho, um mototaxista disse que notou mais gringos na garupa das motos que transportam os residentes para o topo da maior favela do Brasil. "Eles adoram isso aqui", acrescentou o motorista.

Acompanhamos André Felix, um morador de 25 anos que nasceu na Rocinha e organiza tours pela favela quando não está servindo mesas num restaurante de alto nível na Vila Olímpica. Félix nos disse que a Copa do Mundo foi a primeira vez em que ele viu um grande influxo de visitantes na comunidade, e que com isso eles começaram a receber mais atenção de fora.

"As pessoas estão comprando pacotes de turismo na Rocinha antes mesmo de chegar ao Brasil", disse Féliz a VICE. "Às vezes esses passeios são guiados por pessoas que nem são daqui e que passam informações equivocadas." Por isso ele juntou forças com a Rocinha by Rocinha, um grupo formado por moradores meses antes da Copa do Mundo e que oferece caminhadas grátis (que se mantém com ajuda de gorjetas) pelas ruas da favela.

A vista do "Portão do Céu", Rocinha.

Enquanto nos aventurávamos mais fundo na Rocinha, Félix apontou outras maneiras com ajuda das quais os moradores estão tirando vantagem do turismo na comunidade. Na frente de um apartamento, um grande cartaz informa os visitantes, em inglês, que a vista da laje é digna de fotos, com uma loja de lembranças esperando no primeiro andar. Em outro beco, Félix pega a chave de um idoso, que estava ocupado consertando um suporte de ferro para rede. Isso nos garante acesso ao "Portão do Céu", uma cobertura com vista para a comunidade, que alguns acreditam ser o lar de mais de 300 mil pessoas — a partir dali dá para ter uma impressionante visão de 360º muito cobiçada entre os grupos de turismo. Depois de pagar ao homem alguns reais, Félix comentou: "Ele foi uma das primeiras pessoas [na Rocinha] a perceber que sua laje valia alguma coisa".

Os moradores, acrescenta Félix, geralmente ficam felizes quando turistas visitam e gastam dinheiro na Rocinha. Mas há um lado ruim nessa atenção toda: isso encareceu os aluguéis aqui, e a espada de dois gumes da gentrificação obrigou o nosso guia e sua família a mudarem da rocinha para um bairro próximo mais barato em 2015. Essa nova realidade — que as propriedades agora são consideradas imóveis desejados — levou cinco amigos de Felix a alugarem suas casas para as Olimpíadas.

Muitas das pessoas com quem conversamos disse conhecer alguém fazendo o mesmo — ou mesmo alugando também sua própria casa. Adam Newman, o CEO americano do Favela Experience, ainda está tentando atender toda a demanda. "Umas 20 pessoas vieram aqui me pedindo para alugar suas casas", disse à VICE. O "aqui" que Newman menciona é o Vidigal, uma favela com vista para uma das praias mais ricas do Leblon. Lançado em meio a algumas críticas, um pouco antes da Copa do Mundo, o Favela Experience começou como uma rede de hospedagem em casas de famílias na Rocinha, e desde então se expandiu para mais dois albergues no Vidigal.

O espaço comum do hostel Favela Experience, no Vidigal.

Um dos serviços que a empresa oferece aos moradores da favela que querem alugar suas casas é uma espécie de consultoria personalizada. "Vou até a casa da pessoa e digo 'Você acha que vale a pena se hospedar na sua casa? Quanto você pensa em cobrar por dia?'", diz Newman. "'Por que você quer hospedar pessoas? O que mais você pode oferecer?'" (O Favela Experience tira uma porcentagem do valor dos aluguéis.)

Pedir um valor realista é crucial, explicou Newman, por causa do mercado de imóveis que se desenvolveu no Rio nos últimos dois anos: "Durante a Copa do Mundo, eu podia pedir quase qualquer valor e conseguia alugar. Esse não é mais o caso para as Olimpíadas. Entre a Copa do Mundo e agora, mais 15 casas abriram só na minha rua".

Uma busca rápida no Airbnb nas favelas mostra claramente como as acomodações temáticas das Olimpíadas inundaram o Rio, com preços variando muito — mesmo em bairros mais propensos ao crime, como o Complexo do Alemão. Até agora, 55 mil visitantes se inscreveram no site para os Jogos, e o Airbnb (que também é patrocinadora do evento) fornece guias chamativos das favelas; a legenda da Rocinha diz "Uma favela em expansão, onde as casas improvisadas sobem morro acima".

Mas para Newman, o futuro do turismo nas favelas não deveria ficar confinado a uma plataforma de compartilhamento de casas. Durante as Olimpíadas, sua empresa vai realizar um passeio com ONGs de dez bairros, vendendo experiências imersivas como uma caminhada pelo Vidigal com cinco atores locais interpretando personagens históricos do Brasil e das favelas, terminando com um jantar no hostel. "Acho que o turismo nas favelas está num processo de integração cada vez maior", acrescentou Newman.

A favela Santa Marta.

Para entender como esse processo começou, é só olhar para o Santa Marta. A famosa comunidade — a primeira a ser "pacificada" pela polícia em 2008 — transformou a visita às favelas numa indústria caseira. Depois da morte de Michael Jackson (que filmou o clipe de "They Don't Care About Us" aqui em 1996), a estátua de bronze do "Espaço Michael Jackson" e um mural retratando o popstar se tornaram um destino turístico popular do bairro. Já são duas lojas de lembranças nas quais você pode comprar a camisa que MJ usa no clipe, assim como chaveiros, toalhas e muitas outras coisas temáticas do Santa Marta. "Durante as Olimpíadas", disse a dona de uma das lojinhas, Maria Elena Barbara da Silva, "vou lotar essas paredes".

No balcão de informações turísticas do Santa Marta, construído recentemente na base do morro para as Olimpíadas, encontramos José Carlos, guia turístico e gerente de albergue que mora aqui. Carlos reformou recentemente a laje de sua casa para acomodar melhor os mochileiros, oferecendo um espaço com sofás, uma rede e uma cafeteira; a maioria de suas camas já estão reservadas para as Olimpíadas, mas ele ainda está alugando um espaço próximo e pretende cobrar dos hóspedes cerca de R$35, ou $10, por noite.

Enquanto outro grupo de turistas passa por nós nas escadarias da Santa Marta, Carlos menciona que mais moradores querem ser guias durante as Olimpíadas, ressaltando o que diferencia os guias locais dos guias de fora. "Alguns passeios são para ver a miséria", ele explicou. "São passeios de jipe nos quais as pessoas não colocam os pés na comunidade. Eles agem com se a favela fosse um safári na África."

A estátua de Michael Jackson no topo do Santa Marta.

Com o pôr do sol se aproximando, Carlos olha para as cores das casas do morro e reflete que o Santa Marta passou por muita coisa desde o tempo em que era comandado pelo Comando Vermelho. "Não quero dizer que não era perigoso — era sim", ele disse. "Sempre conversei com todo mundo aqui, mas você tinha que manter uma distância. Se alguma coisa acontecia, você podia ser pego no fogo cruzado."

Faixas em que se lê "gentrificação" em forma de protesto sobre a alta dos aluguéis nas favelas do Rio.

"Nunca imaginei o Santa Marta assim", ele acrescentou.

Indo embora, cruzamos com a esposa de Carlos, que também é guia, liderando um grupo de americanos que vieram de um hotel em Copacabana. Cerveja na mão, um deles reclama que o teleférico para o topo da favela está quebrado. Ele ia ter que subir pelas escadas.

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Tradução por Marina Schnoor.

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