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O que significa o turismo das Olimpíadas para as favelas do Rio?

O alojamento dos visitantes gera rendimentos para os moradores das comunidades que, ao mesmo tempo, sofrem com rendas cada vez mais caras.

Por Angela Almeida e John Surico
08 Agosto 2016, 8:00am

Fotos cortesia de John Surico.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Durante o Campeonato do Mundo de 2014 surgiram pela primeira vez notícias internacionais que davam conta de que turistas tinham escolhido favelas do Rio de Janeiro para se hospedarem. As comunidades dos morros, onde moram aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros, estariam mais seguras depois dos polémicos esforços de "pacificação" da polícia, oferecendo uma experiência mais barata e "autêntica" aos visitantes, do que as previsíveis estadias em hotéis à beira mar. As manchetes que se seguiram foram do culturalmente absurdo (CNN: "As favelas do Rio são o destino mais badalado do Mundial?"), a referências mais ponderadas (FastCo: "O que acontece quando os turistas do Mundial invadem as favelas do Rio à procura de hospedagem mais barata?").

Agora, na estreia das Olimpíadas de 2016, o Rio e as suas favelas parecem presos noutro ciclo de notícias. Imagens de adolescentes armados e histórias de tiroteios entre traficantes ganharam um tom sombrio na imprensa internacional, sugerindo até que a "Cidade Maravilhosa" está à beira de uma guerra civil.

Para os moradores, principalmente os de classe média das favelas próximas do centro da cidade, este não é um retrato fiel do quotidiano. Eles reconhecem que a violência continua nos arredores da cidade (e, sim, às vezes no seu próprio quintal), mas muitos ainda vêem as Olimpíadas como uma oportunidade não apenas de capitalizar sobre as hordas de visitantes, mas também de testar o que o turismo pode fazer pelas suas comunidades, mesmo depois de os Jogos terminarem.

A vista da Rocinha, a maior favela do Brasil.

A desviar-se constantemente de autocarros nas curvas estreitas da Rocinha numa tarde de Julho, um moto-taxista assegura que tem notado mais "gringos" na garupa das motos que transportam os residentes para o topo da maior favela do Brasil. "Eles adoram isto", acrescenta o motociclista.

Acompanhámos André Félix, 25 anos, que nasceu e vive na Rocinha e organiza tours pela favela, quando não está a servir às mesas num restaurante de alto nível na Vila Olímpica. Félix diz que durante o Campeonato do Mundo foi a primeira vez que viu um grande fluxo de visitantes na comunidade e que, com isso, começaram a receber mais atenção de fora.

"As pessoas estão a comprar pacotes de turismo para a Rocinha antes sequer de chegarem ao Brasil", sublinha Félix à VICE. "Às vezes esses passeios são guiados por pessoas que nem são daqui e que acabam por passar informações erradas". Por isso, juntou forças com o grupo Rocinha by Rocinha, formado por moradores meses antes do arranque e que oferece caminhadas grátis (que se mantêm com a ajuda de gorjetas) pelas ruas da favela.

A vista do "Portão do Céu", Rocinha.

Enquanto nos aventuramos mais fundo na Rocinha, Félix aponta outras formas que os moradores têm encontrado para tirar vantagem do turismo para a comunidade. À frente de um apartamento, um grande cartaz informa os visitantes, em inglês, de que a vista da laje é digna de fotos e que há uma loja de lembranças à espera no primeiro andar.

Noutro beco, Félix apanha as chaves de um idoso, que estava ocupado a consertar um suporte de ferro para colocação de uma rede. A chave garante-nos acesso ao "Portão do Céu", uma cobertura com vista para uma comunidade que, acreditam alguns, é o lar de mais de 300 mil pessoas. A partir dali consegue-se ter uma impressionante vista de 360º, muito cobiçada pelos grupos de turismo. Depois de pagar ao homem alguns reais, Félix comenta: "Ele foi uma das primeiras pessoas [na Rocinha] a perceber que a sua laje valia alguma coisa".

Os moradores, acrescenta Félix, geralmente ficam felizes quando os turistas visitam e gastam dinheiro na Rocinha. Mas há um lado menos bom de toda esta atenção: as rendas encareceram e, em 2015, a espada de dois gumes da gentrificação obrigou o nosso guia e a sua família a mudarem da Rocinha para um bairro próximo mais barato. Esta nova realidade, em que as propriedades são agora consideradas imóveis desejados, levou cinco amigos de Félix a alugarem as suas casas para as Olimpíadas.

Muitas das pessoas com quem conversámos dizem estar a alugar também a sua própria casa, ou conhecer alguém a fazer o mesmo. Adam Newman, CEO americano do Favela Experience, ainda está a tentar atender toda a demanda. "Tivemos pelo menos umas 20 pessoas que vieram aqui pedir para alugar as suas casas", salienta em declarações à VICE. O "aqui" que Newman menciona é o Vidigal, uma favela com vista para uma das praias mais ricas do Leblon. Lançado por entre algumas críticas, pouco antes do Mundial, o Favela Experience começou como uma rede de hospedagem em casas de famílias na Rocinha e, desde então, expandiu-se para mais dois albergues no Vidigal.

O espaço comum do hostel Favela Experience, no Vidigal.

Um dos serviços que a empresa oferece aos moradores da favela que querem alugar as suas casas é uma espécie de consultoria personalizada. "Vou a casa da pessoa e digo: 'Achas que vale a pena que alguém se hospede na tua casa? Quanto pensas cobrar por dia?'", diz Newman. E continua: "'Porque é que queres hospedar pessoas? O que mais podes oferecer?'" (O Favela Experience tira uma porcentagem do valor do aluguer.)

Pedir um valor realista é crucial, explica Newman, por causa do mercado de imóveis que se desenvolveu no Rio nos últimos dois anos: "Durante o Mundial, eu podia pedir quase qualquer valor e conseguia alugar. Já não é o caso para as Olimpíadas. Entre o Mundial e agora, só na minha rua abriram mais 15 casas".

Uma busca rápida pelo Airbnb nas favelas mostra claramente como as acomodações temáticas das Olimpíadas inundaram o Rio, com preços a variarem muito, mesmo em bairros mais propensos ao crime, como o Complexo do Alemão. Até agora, 55 mil visitantes inscreveram-se no site para os Jogos e o Airbnb (que também é patrocinador do evento) fornece guias apelativos das favelas; a legenda da Rocinha diz "Uma favela em expansão, onde as casas improvisadas sobem morro acima".

Mas para Newman, o futuro do turismo nas favelas não deveria ficar confinado a uma plataforma de partilha de casas. Durante as Olimpíadas, a sua empresa vai realizar um passeio com ONGs de 10 bairros, vendendo experiências imersivas, como uma caminhada pelo Vidigal com cinco actores locais a interpretarem personagens históricos do Brasil e das favelas, que termina com um jantar no hostel. "Acho que o turismo nas favelas está num processo de integração cada vez maior", acrescenta Newman.

A favela Santa Marta.

Para entender como o processo começou, basta olhar para Santa Marta. A famosa comunidade - a primeira a ser "pacificada" pela polícia em 2008 - transformou a visita às favelas numa indústria caseira. Depois da morte de Michael Jackson (que ali filmou o vídeo de "They Don't Care About Us" em 1996), a estátua de bronze do "Espaço Michael Jackson" e um mural que retrata a popstar tornaram-se um destino turístico popular do bairro. Já há, inclusive, duas lojas de lembranças nas quais podes comprar a camisa que MJ usa no vídeo, bem como porta-chaves, toalhas e muitas outras coisas temáticas do Santa Marta. "Durante as Olimpíadas", garante a dona de uma das lojas, Maria Elena Barbara da Silva, "vou encher estas paredes".

No balcão de informações turísticas de Santa Marta, construído recentemente na base do morro especificamente para as Olimpíadas, encontramos José Carlos, morador local, guia turístico e gerente de um albergue. Carlos reformou recentemente a laje de sua casa para acomodar melhor os mochileiros, oferecendo-lhes um espaço com sofás, uma rede e uma cafeteira; a maioria das suas camas já estão reservadas para as Olimpíadas, mas ainda está a alugar um espaço próximo. Pretende cobrar aos hóspedes entre 10 a 35 Reais por noite [entre 3 a 10 euros].

Enquanto outro grupo de turistas passa por nós nas escadarias de Santa Marta, Carlos menciona que há mais moradores a quererem ser guias durante as Olimpíadas e realça o que diferencia os guias locais dos guias de fora. "Alguns passeios são para ver a miséria. São passeios de jipe nos quais as pessoas não colocam os pés na comunidade. Eles agem com se a favela fosse um safári em África", assegura.

A estátua de Michael Jackson no topo de Santa Marta.

Com o pôr-do-sol a aproximar-se, Carlos olha para as cores das casas do morro e recorda que Santa Marta passou por muita coisa desde o tempo em que era governada pelo Comando Vermelho. "Não quero dizer que não era perigoso, porque é claro que era. Sempre conversei com toda a gente, mas era necessário manter uma distância. Se acontecia alguma coisa podias ser apanhado no fogo cruzado".

Faixas em que se lê "gentrificação" em forma de protesto pelo aumento das rendas nas favelas do Rio.

"Nunca imaginei Santa Marta assim", acrescenta.

Ao irmos embora, cruzamo-nos com a esposa de Carlos, que também é guia, e que lidera um grupo de americanos que vieram de um hotel em Copacabana. De cerveja na mão, um deles reclama do facto de o teleférico para o topo da favela estar avariado. Teria de subir pelas escadas.

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