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Anthony Garotinho para além do espetáculo

Entre greve de fome e envolvimento com milícias, carreira de político parece uma verdadeira trama de novela.

Garotinho sendo levado de ambulância para Bangu. Foto: Agência Brasil

A carreira política de Anthony Garotinho (PR) é tomada por cenas lamentáveis, mas talvez ele tenha atingido um ponto baixo especial na noite desta quinta (17), quando foi transferido do Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio de Janeiro, para o Complexo Presidiário de Gercinó em Bangu, na Zona Oeste da cidade. Garotinho foi preso na quarta (16), acusado de montar um esquema de compra de votos no município de Campos dos Goytacazes (RJ), junto da esposa Rosinha Garotinho (PR), prefeita da cidade. De acordo com a Polícia Federal, Garotinho e sua turma usavam um sistema de assistência social da prefeitura, o Cheque Cidadão, para comprar votos — o programa teria sido inflado artificialmente para incluir 18 mil beneficiários, que em troca prometeriam votar em Rosinha.

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Garotinho estava no hospital após ter passado mal durante a prisão. Na tarde de quinta, o juiz Glaucemir de Oliveira, da Justiça Eleitoral do Rio, determinou a transferência do político para Gercinó, mas Garotinho não se deixou ir para a prisão sem espernear. Enquanto era levado para a ambulância que realizaria a transferência, ao perceber as câmeras, Garotinho levanta o corpo e começa a se debater contra os agentes da Polícia Federal que o acompanhavam. As imagens deixaram a internet em polvorosa, gerando memes em profusão e também críticas pela "espetacularização" de prisões que tem sido a tônica da Polícia Federal desde o avanço da Lava Jato.

A questão é que, mesmo pesando os problemas de saúde alegados por Garotinho, é difícil levar o ex-governador carioca a sério, especialmente após a folclórica "greve de fome" realizada em 2006. Na ocasião, o político dizia protestar contra a "perseguição" da imprensa, depois de uma série de reportagens apontando irregularidades na arrecadação de Garotinho durante a sua pré-campanha à presidência — as doações seriam vinculadas a contratos de prestação de serviços com o Estado do Rio, governado à época por Rosinha. A greve de fome se transformou num espetáculo farsesco, com boletins médicos contabilizando em gramas a perda de peso do político.

Depois de onze dias, com sete quilos a menos, Garotinho encerrou a greve de fome após ganhar direito de resposta na Justiça contra o jornal O Globo e a revista Veja, mas sem conquistar seu pedido de acompanhamento das eleições brasileiras por entidades internacionais. Durante a greve, que foi chamada de "constrangedora" por integrantes do PMDB, seu partido à época, Garotinho não se furtou de usar expedientes como expor os filhos — no primeiro dia de suplício, a filha Ana, então com onze anos, chorou ao ver o pai. Lula, presidente na época, ironizou o ato, dizendo que "se fizesse greve toda vez que a imprensa falasse mal de mim, estaria natimorto", enquanto Michel Temer, presidente do PMDB, declarou que a greve "não parece muito adequada". Por essas e outras que é um pouco difícil se solidarizar com Garotinho — afinal, estamos falando de um político que, mesmo preso, usou seu blog para comemorara prisão do seu desafeto Sérgio Cabral (PMDB).

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Print do blog de Garotinho. Imagem: Reprodução

A ficha corrida de Garotinho é longa e começa antes mesmo de ele entrar para a política. Seu apelido foi efetivamente tungado de outro Garotinho, o locutor esportivo José Carlos Araújo. Quando era radialista, Anthony começou a imitar Araújo, já conhecida voz no rádio carioca — o político tentou "registrar" a marca e acabou fazendo um acordo extra judicial depois de ser processado pelo dono do apelido original.

Mas, para além dos aspectos folclóricos, a vida pública do Garotinho político é marcada por escândalos e condenações. Entrou a política pelo PDT, apadrinhado por Brizola, e se elegeu governador do Rio em 1998, mas deixou o partido para tentar concorrer à presidência da República em 2002, pelo PSB. Apesar de ter perdido o pleito, Rosinha elegeu-se governadora, e já no PMDB Garotinho assumiu a Secretaria de Segurança Pública em 2003. Em 2010, ele foi condenado à prisão, acusado de formação de quadrilha, por acobertar esquemas da Polícia Civil no estado — foi durante a sua gestão na SSP que as milícias avançaram no Rio. Ao acusar o juiz que o condenou de prevaricação e corrupção passiva, foi processado e novamente condenado, com a pena convertida em multa e serviços comunitários. No final de outubro de 2016, Rosinha teve o mandato pela prefeitura de Campos, conquistado em 2012, cassadopelo TRE.

A Operação Chequinho, portanto, é só mais um capítulo nessa novela — resta saber se será o último.

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