Explicando o fenômeno da Cyclone
Ilustração por Luiza Formagin.
reportagem

Explicando o fenômeno da Cyclone

Como a grife de surfwear se tornou uma das marcas mais emblemáticas da periferia brasileira.
4.5.17

Ilustração no topo por Luiza Formagin.

Poucas marcas no Brasil possuem uma trajetória tão longeva e bem-sucedida como a Cyclone. Apesar das raízes no surfe, hoje a maioria dos consumidores da grife de surfwear não estão nas praias, mas sim entre becos e vielas das periferias — nos últimos 20 anos a Cyclone acabou se tornando parte da identidade da juventude periférica, sendo pirateada, mencionada em músicas, usada por artistas como vulgo, apelidando patroa do tráfico na Bahia e defendida com unhas e dentes pelos seus fãs. Mesmo não sendo divulgada em revistas de moda ou usada pelos assim chamados influenciadores digitais, os conjuntos de veludo e os bonés bordados com o logo da grife são tão desejados quanto um tênis da Nike, uma camiseta da Supreme ou a coleção do Kanye West.

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Antes de se tornar uma espécie de símbolo da periferia brasileira, a marca nasceu em 1984 de uma parceria entre o empresário Mauro Taubman, seu sócio Luiz de Freitas Machado e o surfista Roberto Valério. Taubman e Freitas eram donos da Company, grife criada em 1973, que virou febre entre a molecada carioca graças às mochilas coloridas e emborrachadas e as calças jeans modelo carpinteiro. Taubman teve tato para o marketing da Company, transformando a marca em uma das características do lifestyle descolado fluminense.

Foi da sacada de Taubman em vestir e patrocinar atletas nacionais que nasceu a Cyclone. "É uma divisão do surf feita por um surfista de nível internacional — ele já é uma constatação de carisma e talento no esporte. Eu o deixo bem à vontade pra fazer a linha da marca porque é uma linha surfwear", descreveu Mauro sobre a grife em uma entrevista à revista Trip em 1993. Na época da criação da Cyclone, Valério já era um surfista de renome participando de circuitos nacionais e mundiais ao lado de outros gigantes brasileiros como Pepê, Gustavo Kronig e Valdir Vargas. Dessa parceira ambiciosa, a Cyclone emergiu como referência do surf brasileiro, sendo responsável pelo patrocínio de ícones do esporte como Peterson Rosa e Victor Ribas.

Mesmo após a morte de Taubman e Valério em 1994 e o fim da Company no final daquela década, a Cyclone segue firme, investindo em surfwear, apoiando campeonatos de lutas marciais e de surf, dando aulas e patrocinando principalmente crianças e adolescentes. Hoje, são 13 lojas próprias espalhadas pelo país, concentradas principalmente no Rio de Janeiro e em estados do Nordeste, isso sem mencionar os revendedores. "A Cyclone é uma família e todos são os donos da marca. Funcionários, clientes, patrocinados e fornecedores", respondeu o marketing da marca por e-mail.

"Andamos de Cyclone da cabeça aos pés"

Para os desavisados que olham para o estilo totalmente decalcado do surfwear da Cyclone e todo o esforço da marca em apoiar o esporte, é difícil conseguir relacioná-la com os bailes funk dos morros cariocas ou osgalerosos do Nordeste. Assim como a Company refletia, décadas atrás, aquele carioca descolado da zona sul, a Cyclone também começou a representar um outro lifestyle. Ela não é uma grife acessível, mas foi abraçada com muito mais força pelos moradores de periferias, loucos para usar aquela camiseta com a logomarca estampada no peito e o boné colorido, uma febre pouco registrada pelos estudiosos da moda. Logo, a marca começou a ganhar as pistas dos bailes funks e ser tema de montagens.

"A Cyclone pegou todo mundo nas quebradas. Você via funkeiro usando, ladrão usando, todo mundo ostentava a marca". — Jones Rosário

"É a marca que mais teve representatividade na favela do que qualquer outra", explica Jones Rosário, dono da marca de streetwear Gold Life. "Ela pegou todo mundo nas quebradas. Você via funkeiro usando, ladrão usando, todo mundo ostentava Cyclone".

É difícil precisar quando houve essa transição do surf para o funk no perfil do consumidor da marca, e não se sabe nem se a própria Cyclone entende como esse processo aconteceu de fato. No entanto, o público que adquire as peças é inevitavelmente reconhecido pela marca. "O Brasil é um país que tem mais de 70% da população vivendo em periferias e este consumidor gosta de produtos de qualidade e diferenciados", explica a grife.

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Talvez ambos os públicos tenham simultaneamente abraçado a marca, cada um adquirindo suas peças por seus motivos e convicções diferentes — do cara loiro e bronzeado comprando uma bermuda boa para surfar até o molecote chavoso que juntou cada centavo para ficar estiloso nos bailes. "Todo mundo quer se vestir bem, mas tem gente que se veste bem colocando a etiqueta. O apelo da Cyclone foi muito isso, é uma marca que tem um valor na etiqueta", conta Jones.

Para a pesquisadora e antropóloga Lígia Krás, o boom do surfwear no Brasil foi muito forte depois da novela Top Model exibida em 1989 na Rede Globo, o que consegue explicar parcialmente como a Cyclone, junto com outras marcas dessa tendência surf, conquistou um terreno cada vez maior no país. "Essa novela curiosamente tratava de marcas que eram cobiçadas e feitas para galera surfer, mas com apelo mais fashion. Me pergunto onde estava a Cyclone em 1989 e como se posicionou/como era vista pelo público que 'comprou' a ideia da Top Model?"

"Creio que a marca percebeu que seu público não surfa no mar, surfa em ônibus" — Diomedes Chinaski

Muito antes do funk ostentação no começo dos anos 2010 dar o papo das marcas mais veneradas da quebrada, como Oakley, Nike e o famoso "Mizuno de mil", a Cyclone já dava a letra da ostentação nas periferias nos anos 1990/2000 sem falar diretamente com esse pessoal que corria para adquirir uma peça da marca o mais rápido possível. "O lance da Cyclone é que eles vendem muito mais pelo preço do que pela comunicação", explica Arthur Bortolin, publicitário e ex-proprietário de uma marca de streetwear. É possível, no entanto, ver que a grife começou a investir em coleções menos voltadas para o surf. "Creio que a marca percebeu que seu público não surfa no mar, surfa em ônibus (risos)", especula Diomedes Chinaski, rapper pernambucano. Em sua faixa "Dexunego", Chinaski rimou "Cês não sabem nada da gente / Pra nós não importa o kit Supreme / Isso é Pernambuco / Cyclone é o crime, Supreme é o creme", numa comparação entre a marca brasileira e a norte-americana fetiche.

Usar todos os dias as peças da Cyclone não é um hobby barato. Os conjuntos com as cores da bandeira da Jamaica e bordados de alto relevo podem chegar a custar de R$ 700 a R$ 800. Uma camiseta não sai por menos de R$ 60 na liquidação. Assim como a patricinha aspirante a blogueira de moda sonha no dia em comprar sua bosa Louis Vuitton, alguns jovens da periferia sonham em ter sua primeira peça da Cyclone.

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Para Jones, um termômetro capaz de medir a popularidade de marcas é a pirataria. Assim como a Kingz, Nike e Adidas, a Cyclone também é uma marca amplamente pirateada. Segundo o marketing da Cyclone, a pirataria é uma realidade, mas acreditam que o consumidor "sabe diferenciar uma peça falsa da original".

É muito claro que a grife sabe exatamente para quem ela está vendendo e onde o giro é alto, sem precisar mudar o target nas redes sociais. "Chama atenção porque ela apoia esportes vinculados às áreas mais badaladas das cidades, mas tem umas lojas localizadas em sua maioria nas zonas mais periféricas ou centrais, de trânsito mais popular", observa Lígia.

"Cyclone não é marca de ladrão, é a moda do gueto"

Fã da marca e de olho no pessoal que coleciona assiduamente as peças da grife, o estudante Vinícius Araújo criou para os fãs da grife a página Cyclonizados, que já conta com milhares de seguidores em um pouco mais de um ano de existência. "É um pano que chama a atenção, é confortável e podemos dizer que é um jeito de ostentação, especialmente pelo valor das peças de veludo, que é a linha mais cara da marca", diz o administrador da página, que mora em Santo André, cidade da Grande São Paulo.

"Vi que muita gente critica a marca, falando que poucas pessoas usam, que é marca de marginal. Fiz a página para mostrar que o público é grande", diz Vinícius.

Nos posts da Cyclonizados, os internautas enviam fotos portando o kit da Cyclone. A página faz tanto sucesso que alguns colecionadores chegam a mandar fotos de suas coleções completas. Henrique Santos é um deles, dono de quatro conjuntos e duas bermudas: "a Cyclone é uma marca que toda molecada nova tá gostando, que procura ter um kit diferenciado. Muitos criticam falando que e roupa de bandido, mas a roupa não define nada".

Seja pelo preço, pelo tecido de boa qualidade, os bordados coloridos o ou que a marca representa pra quem compra, a Cyclone parece agradar geral nas periferias. A marca, porém, acabou relacionada ao crime devido à condição socioeconômica de parte dos seus consumidores. A grife não é a única a ser zoada por conta disso. Outro exemplo é a marca norte-americana Town & Country, também de surfwear, que costuma ter sua imagem ligada ao Primeiro Comando da Capital. Ainda que criada antes do PCC, o logo yin & yang da Town & Country é o mesmo usado pela facção.

A Cyclone, por sua vez, parece se espalhar num espaço geográfico mais específico, tendo forte apelo nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e especialmente no Nordeste. "Não fazemos discriminação dos nossos consumidores, somos uma marca com identidade jovem que faz produtos de qualidade e preço justo," se defende a marca protocolarmente. "Respeitamos os nossos clientes e ficamos felizes em agradá-los e surpreende-los em cada nova coleção."

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Chinaski, um dos responsáveis por exaltar a importância da marca para a identidade da região, explica: "Como todo jovem pobre sonha em ser rico, a favela passou a consumir roupas de surfistas. Ou seja, o favelado quer se vestir como os playboys. Talvez no sentido de se proteger."

"Todo mundo de Cyclone faz o baile balançar"

A "cultura da galeragem", expressão criada pelo próprio rapper para explicar todo o ecossistema, cultura e tensões dos galerosos (gíria para "maloqueiro"), tem sua dose de importância na mística ao redor da Cyclone no Nordeste. "Quando desejei usar Cyclone, como quase todo jovem da periferia de Pernambuco, eu não tinha condições financeiras pra isso. Logo o jovem de periferia que enche o armário de Cyclone consegue da maneira 'mágica' que a rua possibilita", diz ele.

O sucesso da grife no Nordeste, aliás, consegue ser facilmente medido dada a quantidade de fãs que usam o nome da marca como apelido ou fazem vídeos exaltando a grife. A própria direção da marca parece saber disso, já que mais de 50% das suas lojas oficiais estão concentradas em cidades da Bahia e de Pernambuco. A roupa da Cyclone vai além de um símbolo de ostentação, mas também é parte de uma identidade jovem que vem sendo moldada desde os anos 1990, nos bailes de corredor, que juntavam diferentes grupos para "brigar" (nos moldes dos que aconteciam no Rio nos anos 90) aos MCs atuais advindos dessa cultura do hoje chamado bregafunk.

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"Se você estava vestido assim, a qualquer momento alguém como você podia te espancar junto com vários outros e tomar sua roupa e suas joias. É uma marca que definia bem. Tipo 'faço parte, estou sujeito a tudo que isso acarreta'", explica Chinaski. "Não que todos que usam a marca sejam envolvidos com crime, mas o jovem pernambucano, criado nessas ruas, usa Cyclone como forma de mostrar que os negócios estão fluindo e que agora pode comprar roupa no shopping e geralmente é Cyclone, já que ele usa muitas cores e a cultura do brega sempre foi colorida."

Em São Paulo, Jones Rosário diz que por ser uma unanimidade na favela, inevitavelmente bandidos portam o kit da Cyclone para demonstrar prosperidade. Segundo ele, o auge da marca foi nos anos 2000, mas parece que o desejo pela marca ainda está longe de se esvair. "A Cyclone é uma coisa que tá na favela e tá pra todo mundo mesmo. Geralmente os caras que usavam Cyclone eram ladrões. Tinha muito assalto em loja e os caras pegavam as roupas da marca", conta.

Na Bahia provavelmente um dos casos que mais contribuíram com o crescimento do preconceito contra a marca foi o fenômeno Kelly Sales Silva, conhecia em Salvador como Kelly Doçura, Kelly Cyclone ou Dama do Pó, apontada como "patroa" do tráfico local por ter namorado traficantes da área e postado muitas fotos no Orkut ostentando armas, dinheiro e, claro, panos da Cyclone.

Kelly ganhou notoriedade em 2010 durante uma batida policial na chamada "festa do pó" no bairro soteropolitano da Boca do Rio. Na operação, 44 pessoas foram detidas e Kelly foi a que mais chamou atenção, graças às suas tatuagens e por ter demonstrado não ter medo diante das câmeras de um programa policial que acompanhou a batida. Ela virou uma espécie estrela local, chegando até a ir em programas para dar entrevistas sobre sua vida. Em um deles, o astro do pagodão Igor Kannário e sua banda A Bronkka dedicam a ela o som "Cyclone" — cuja letra pede respeito a quem usa a marca por ela ser parte da cultura do gueto. No vídeo, Kelly aparece dançando e balançando seu cordão prateado com o logo da marca.

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A própria Kelly se defendia de acusações de comandar o tráfico de drogas ao lado de seu namorado dizendo que não é patroa do tráfico, mas "patroa da Cyclone". Em 2011, Kelly foi espancada, esfaqueada e levou dois tiros nas costas aos 22 anos. Seu corpo foi encontrado em uma via pública na região metropolitana de Salvador e especula-se de que Kelly não foi morta por acerto de contas, mas sim pelos seus ex-namorados. O velório da "Patroa da Cyclone" atraiu milhares de amigos, curiosos e a imprensa.

Casos policiais como o de Kelly Cyclone ajudaram a contribuir para o preconceito contra os consumidores da marca. Some isso ao racismo latente no país e você tem o estereótipo de "bandido" que persegue os consumidores da marca.

Apesar disso, os fãs da Cyclone seguem reverenciando a marca com orgulho. Usar Cyclone, como o próprio Diomedes explica, é vestir a camisa de uma série de fatores sociais, culturais para mostrar que está bem apesar de tudo. Talvez não seja coincidência a Cyclone fazer sucesso em estados brasileiros onde a relação entre a população e a polícia é tensa junto à desigualdade social.

"Quando falei [no som 'Dexunego'] que Supreme era isso e Cyclone aquilo quis dizer que o valor das coisas mudam de acordo com a região e classe. Supreme é quase anônima aqui, Cyclone não. É o panos dos "meninos bons". Só quis dizer isso."

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