
Edição de autor
6/10 "Mais um dia a correr, há que sobreviver." Quem nos diz tal coisa é José Camilo em “Cidade Suburbana”, faixa inicial do seu primeiro longa-duração, que traça desde logo um olhar misto de desprezo e admiração sobre a metrópole, tema desde sempre tão fértil para canções rock. 24 Horas No Subúrbio é uma colecção de nove temas sem lugar para enfeites e distracções, que deixam os seus riffs pautarem excelentes secções instrumentais que são uma constante muito bem-vinda ao longo do disco (por exemplo, as belas progressões do refrão de “Homicídio”), onde até há lugar para alguns segmentos spoken word encaixados com primor. De facto, o instrumental é tão entusiasmante que nos faz desejar que as vozes tivessem uma postura igualmente crua: as partes vocais demasiado entoadas e límpidas poderão ser apontadas como o ingrediente que não se enquadra da melhor maneira nas suas melodias e respectivas letras ricas (veja-se, por exemplo, em “Deus É Um Grande Cinéfilo” ou em “Imperatriz das Flores”), acabando por ser um elemento algo limitador nas mesmas. Não se deixe, no entanto, que este ponto influencie em demasia a experiência deste disco e, sobretudo, do que ainda poderá estar para vir. Recheado de ritmos cativantes, sons densos e tons sombrios, este disco apresenta uma estreia promissora, cheia de vontade e bons apontamentos. José Camilo não podia ser mais directo e diz-nos “aqui está o rock, faz com ele o que quiseres”.