Finanças

Guia VICE para lidar com a crise dos 20 e poucos anos

Algumas formas totalmente científicas para deixares de stressar com a tua vida de merda.

Por Hannah Ewens
28 Maio 2018, 1:48pm

Ilustração: George Yarnton.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Estás de férias, a divagar por um menu de um restaurante, ao mesmo tempo que escorregas para um abismo existencial. Batata frita ou batata-doce frita? De qual gostas mais? E, no final das contas, isso interessa mesmo? Ambas são pedacinhos de amido de sustância que custam uns meros dois euros.

Mas, será que deves continuar a preocupar-te com dinheiro? E se fores demasiado mãos largas para conseguires um dia sustentar um filho? E, com 26 anos, até já passaste o pico de fertilidade não é? Já viste um gráfico sobre o assunto e na coisa não tinha bom ar, portanto, provavelmente, vais ter que adoptar. E será que és mesmo o tipo de pessoa que deve ter filhos? E se for para ter em breve, será que não era melhor acabares com o teu namorado e passares os próximos quatro anos a pinar com quem quiseres?

Então, dizes ao teu namorado que queres as batatas fritas normais. E as batatas vêm frias.


Vê: "Vê o primeiro episódio de Abandoned"


É o primeiro dia de trabalho depois das férias e sentes-te estranha. Depois percebes que esse sentimento de estranheza é, na verdade, “estar na boa”. A tua colega pergunta-te como foi a viagem e dizes que foi divertida e quando outro colega pergunta o mesmo dizes que foi óptima - um mundo fora da pressão por produtividade, de te sentires apenas outra engrenagem alienada, mal paga e descartável da máquina, com dois mil e-mails para responder constantemente. É nesse momento que vais para a casa-de-banho e começas a pesquisar cursos universitários de artes.

Sentes essa dúvida intensa, sentes-te presa num trabalho ou numa relação e desiludida com essa suposta “vida real”? De certeza que estás a ter uma crise dos 20 e poucos anos. Oliver Robinson é alguém que teve a sua própria crise dos 20 e poucos, deixou várias partes da sua vida para trás e começou uma carreira académica a estudar esse tipo de crise enquanto fenómeno específico. “Uma crise de um quarto de idade é uma faca de dois gumes”, diz-me ao telefone. E acrescenta: “É uma época de instabilidade e stress, mas também de desenvolvimento intenso e potencial crescimento".

E essas crises nunca foram tão comuns entre os jovens, porque além de o Mundo ser, hoje, um lugar assustador, a ideia do que tradicionalmente tinhas de fazer aos 20 anos mudou muito desde há uma década: as pessoas estão a casar e a ter filhos bastante depois dos 30. “O lado bom é que isso te dá uma hipótese de teres experiências divertidas antes de te estabeleceres numa rotina, mas, por outro lado, torna uma crise de um quarto de idade mais provável, porque há mais instabilidade e stress nessa faixa etária”, explica Robinson.

O especialista acrescenta que há dois tipos de crise dos 20 e poucos anos: a crise de dentro e a crise de fora. “Na crise de fora, o jovem sente que não importa quanto se esforce, ele não vai conseguir entrar na sociedade adulta. Na crise de dentro, o jovem vê-se num caminho em que não queria estar e vai tomar grandes decisões sobre o que quer fazer, o que pode ser um processo longo e doloroso”, salienta.

Claro que não tem de ser assim; uma pessoa de sorte pode experimentar os dois tipos de crise!

E, como não queres ouvir que deverias meditar (esta sugestão é da minha mãe) para saíres dessa tua confusão paralisante, aqui vão algumas outras ideias de life coaches, psicólogos e pessoas que superaram a crise dos 20 e poucos anos, sobre o que podes fazer para tornares as coisas um pouco mais fáceis.

Alguns jovens de mota. Foto por Chris Bethell.

Reconhece as tuas respostas ridículas, porém normais, para enfrentar a crise

Segundo Karin Peeters, life coach e psicóloga, uma crise dos 20 e poucos anos é, basicamente, ficar preso nas garras de um stress prolongado de tomadas de decisão. “Algumas pessoas reagem de uma forma em que congelam e não conseguem agir; outras têm uma resposta de fuga, ou seja, largam o emprego, o parceiro ou mudam de cidade”, diz. E acrescenta: “E a terceira resposta é a de luta, ou 'Vou trabalhar mais, vou para o ginásio, vou fazer tudo o que puder para alcançar alguma coisa, qualquer coisa'”.

Reconhece a tua resposta. A minha está no meio de a) sentir-me paralisada, incapaz de tomar a simples decisão do que comer ao almoço e b) fugir irracionalmente de um conjunto de circunstâncias. Não recomendo nenhuma das duas, mas se queres analisar o teu comportamento e trabalhar esses impulsos em vez de tomares decisões apressadas, estar mais consciente de tais factos é bastante útil.

Muda o teu conceito de tempo

Vamos ter em conta um dilema dolorosamente cliché da crise dos 20 e poucos: “Devo continuar nesse emprego medíocre quando, na verdade, quero é viajar pelo Mundo em algum ponto e agora estou só a morrer um pouco todos os dias em vez de planear uma jornada de mochila às costas pela América Central?”.

Essa ansiedade aumenta quando pensas nisso numa escala de tempo imediata ou de muito curto prazo. Tenho que fazer isso tudo agora, já? A life coach Natalie Dee sugere expandir a ideia de tempo: “Planeia a longo prazo. Pensa: em algum momento da faixa dos 20 anos, quero viajar durante algum tempo. Esse é um grande plano, mas dá-te mais tempo para o alcançar. Tenho 30, e quero ascender numa carreira de que gosto. Quanto tiver 40, quero estar estabelecido. Nesses 10 anos, se quiseres começar uma família, podes dizer que estás aberto à possibilidade de conhecer alguém", explica.

Por outras palavras: pára de te preocupares em passar imediatamente três meses na Tailândia. Percebe que já és mais de meia década mais velho que toda a gente naquelas festas da lua cheia, portanto não são mais alguns anos que vão fazer assim tanta diferença. Ah e podes aplicar esse planeamento menos neurótico a outros aspectos da tua vida.

Pára de ver o casamento e coisas que vêm com ele como o foco da tua vida de jovem adulto

“Não sei porque é que sou tão fixada nessa idade, mas acho muito fixe ter 37 anos e ser solteira”, diz Bertie Brandes, co-criadora da revista Mushpit, que acabou de lançar a sua “Edição de Crise” — que é basicamente sobre a crise dos 20 e poucos anos. “Acho que tens que reavaliar toda a tua ideia de casamento como foco do começo da vida adulta e de ter que continuar nela até morreres e começares a perceber que cada ano da tua vida é precioso. É uma pressão que colocamos sobre nós próprios. Tenho amigos mais velhos que não estão minimamente preocupados com isso. Perceberam que não são um desastre patético e que vão ficar bem”, considera Brandes.

Uma extensão dessa linha do tempo invisível é ter filhos. Isso afecta pessoas com útero mais do que homens e por isso - acredita Peeters - tantas mulheres na faixa dos vinte anos a procuram, enquanto os homens geralmente procuram ajuda mais tarde na vida. Não é possível argumentar com a biologia, mas, da mesma forma, não podes pressionar-te demasiado. Além disso, se é com a parte do casamento que te preocupas, uma ex-colega uma vez garantiu-me que, se as coisas ainda não tiverem resultado aos 40, vais estar livre para "apanhar" a primeira rodada de divorciados. Portanto, há esse lado bom.

Pára de brincar com a ideia de tirar outro curso

Se tens dinheiro para isso, porque não? Se queres desesperadamente mudar de carreira, vai em frente. Mas, enfiares-te outra vez num curso universitário para prolongar a adolescência - o que só te vai deixar mais endividado - é uma péssima ideia. Não és o Van Wilder e sabes que não queres ser. Insiste com a vida adulta; não peças um empréstimo para tirares um curso de Empreendedorismo Criativo.

Confia nos teus fins de relações motivados pela crise

Se acabaste com alguém no meio de uma crise frenética dos 20 e poucos anos, é fácil ficares a pensar que talvez o tenhas feito simplesmente por causa dessa mesma crise - que podes olhar para trás dentro de alguns anos e veres que cometeste um erro. “Esse não é um sintoma acidental”, diz Brandes. E acrescenta: “Estás num ponto da tua vida onde achas que a pessoa se encaixa, mas, na verdade, a pessoa é idiota e tu estás farta. É uma altura muito egoísta e necessitas de ficar obcecado contigo durante algum tempo".

Sendo egoísta, aprendes sobre ti próprio e o que precisas da outra metade, exactamente para não acabares com alguém idiota.

Não deixes de fazer sexo regularmente

Esta dica é científica, não questiones. Por vezes, não pinar com ninguém pode resultar numa era de ouro de produtividade e auto-desenvolvimento, mas também podes acabar tão exigente e separatista que é mais provável que estejas só a testar quanto tempo consegues ficar sem sexo. Passaram seis meses e se esperasse mais três anos?

Não. “Tenta fazer sexo pelo menos uma vez a cada quatro meses”, aconselha Brandes. “Ou podes acabar com medo de intimidade, ficar realmente obcecada com a tua carreira ou falta de carreira, ou como como te pareces nas foto e começares a 'stalkear' o teu Instagram mais do que fazes aos teus ex-parceiros. Desta forma, acabas por te esquecer de como se interage com as pessoas”.

Não transformes o teu espaço num lugar sagrado

“Se transformares o teu quarto numa espécie de de altar estranho, onde nada pode estar fora do lugar, acabas por achar que nunca poderás partilhar o teu espaço ou a tua cama com outra pessoa”, diz Brandes. E sublinha: “Vais transformá-lo num segundo útero”.

Foto por Bruno Bayley.

Divide os teus stresses em Desejo vs. Necessidade

Vamos para a escola, vamos para a universidade, depois arranjamos um emprego - seguimos essa rota prescrita sem a questionarmos, portanto não é de estranhar que a crise dos 20 e poucos anos de muita gente seja alimentada pelo facto de que, de repente, estás sozinho no pasto, a ver o resto do rebanho dispersar.

A life coach Natalie diz que agora é a altura de separares seriamente o que queres do que sentes que deverias ter. “Uma 'necessidade' é algo colocado em ti, possivelmente pela sociedade, pelos teus amigos, pelos teus colegas. É uma energia muito diferente do desejo”, explica. E justifica: “É quase como uma obrigação e isso coloca-te sob muito pressão. Desejo é um movimento em direcção a alguma coisa - e és tu quem faz a pressão por isso”.

Cuidado para não culpares uma área específica da tua vida

É fácil pensares que, se tivesses um trabalho decente, serias uma pessoa totalmente diferente e tudo o resto entraria em foco. “Fiquei fixada na ideia de que não podia continuar solteira, mas isso não tinha nada a ver com o facto de precisar ou querer uma relação; era mais porque estava confusa com o que faria com o resto da minha vida”, diz Brandes. E acrescenta: “O que é perigoso, porque fixas-te no trabalho, por exemplo, como a única coisa que te está a deixar infeliz e não é isso, depois despedes-te e percebes que vais ter problemas”.

Vê também: "Pára de te definir pelo teu trabalho".

Protege o teu direito a sentires-te exausta

Demorei 25 anos para não me sentir culpada com o “não ser suficientemente produtiva, principalmente se decidia ficar na cama a ver Netflix o fim-de-semana todo, porque me sentia exausta emocional e fisicamente. Pensava nos meses e anos “desperdiçados” com problemas mentais, durante os quais não estava a viver todo o meu potencial. Mas, se sentes que estás a ter períodos de baixa produtividade, não te castigues por isso.

“No ano passado, passei por uma fase em que me sentia muito deprimida e ficava na cama obcecada por vlogs do YouTube; não conseguia passar sem os ver todos”, diz Brandes. E sublinha: “Sentia-me como se estivesse a desperdiçar a minha vida e, três meses depois, escrevi um artigo sobre isso que me mostrou tudo o que estava a sentir e fez sentido. Cada experiência que tens, mesmo se for cinco dias sem sair da cama, vai, de alguma forma, ser-te útil. Só não parece no momento. Somos tão condicionados a pensar que deveríamos estar sempre, a toda a hora, a fazer algo útil, que perdemos o respeito pelo tempo livre. Muitas coisas boas, ou ideias idiotas que se mostram incríveis, surgem no tempo de ócio. Descansar é útil. Estás na cama, o teu corpo está a descansar, mesmo se a tua mente está a fervilhar”.

Essa cultura de estar constantemente “a fazer alguma coisa” e a viver intensamente cada área das nossas vidas tem a mesma origem da crise de meia-idade. Como Robinson me disse, tens mais possibilidades de tomar a decisão certa num lugar de calma do que num lugar de stress, portanto permite-te um tempo de descanso sempre que puderes.

Foto por Jake Lewis.

Que se foda toda a gente que desconsidera os teus sentimentos como "coisas de millennial"

“Muitos jovens adultos temem que outros possam ver a sua 'crise' como simples pieguice”, diz Robinson. E explica: “E algumas pessoas - particularmente mais velhas, ou aquelas que nunca passaram por esse período de dúvida - podem fazer exactamente isso. Lembra-te que os teus sentimentos são válidos, mesmo se outras pessoas não acham”.

Por isso, da próxima vez que alguém te lembrar que os teus vinte e poucos anos deveriam ser a melhor fase da tua vida, diz-lhe que um especialista em crise geracional disse: “A quantidade de grandes decisões que tens que tomar resulta na parte mais difícil da vida em termos de stress e saúde mental”.

Por último, faz alguma coisa, qualquer coisa

Consola-te com o facto de que não importa quão fodida a tua vida é agora, provavelmente não vai ser tão má a longo prazo. Faz alguma coisa. Ou não, fica sentado na tua mesa com a aba deste artigo aberta no computador, a pedires batatas fritas frias e a saíres com alguém de quem não gostas assim tanto.


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