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Música

A DLIP Records é uma fortaleza de hip-hop japonês

Música merecedora de escutas repetidas.
6.10.14

É perfeitamente admirável a coragem com que os japoneses assimilam a cultura do restante mundo e a devolvem depois transformada pelas referências deles próprios. Não há como ignorar o atrevimento dos japoneses, na forma como, ao longo da muito agitada década de 60, criavam versões suas para grande parte das bandas que se encontravam no topo do rock. Hoje podemos até achar graça aos penteados dos Rolling Stones ou dos Doors japoneses da altura, mas naquelas fotos estão alguns dos pioneiros na utilização de técnicas determinantes na progressão do rock nipónico. Além disso há uma inventividade muito própria deste povo asiático que os afastou muitas vezes da pura imitação.

E é às cavalitas dessa ideia que chegamos ao cerne deste artigo: a

DLIP Records

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é mantida por uma crew exclusivamente japonesa (embora por vezes conte com convidados estrangeiros) e não é por aí que lhe faltam as garras para competir com qualquer outra label de hip-hop nos seus primeiros seis anos. O próprio DJ Farmy The Diesel, que aceitou responder à VICE em nome da família DLIP, é um exemplo evidente da determinação nipónica, na medida em que o seu inglês algo rústico não o impede de soar entusiasmado e confiante no que nos vai contando. Começa por nos falar das origens da casa que o recebeu em 2010, pela mão do MC Dusty Husky: “A DLIP Records é uma label de hip-hop independente sedeada no Japão. Em 2008, o colectivo Black List é formado em Fujisawa (cidade que chamamos de Moss Village). Na mesma altura tem também início a festa “Black List”. Depois do fundador da festa, DJ Wataki, nos ter deixado, mudámos o nome para Blaq List. Trocámos o “K” pelo “Q” inspirados pelas cartas e em homenagem ao rei que tinha partido. Em 2010, os Dinary Delta Force (DDF) lançam o seu disco de estreia (

Soundtrack to the Bed Town

), e os Blaq List passam a ter o nome de Dish Label in Posshi. Assumimos o nosso próprio agenciamento e é assim que nasce a DLIP Records”.

A conversa com Farmy the Diesel havia apenas começado e já eram duas as pistas que nos atraíam: a acção neste filme decorre em Fujisawa (e não na habitual Tóquio) e deve realmente haver por aqui um filme dado que também existe um disco chamado

Soundtrack to the Bed Town

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. Fujisawa e Bed Town tratam-se afinal do mesmo lugar, conforme explica o entrevistado: “A malta da DLIP cresceu a ouvir

boombap rap

 em Fujisawa, cidade também conhecida por Moss Village e Bed Town. É um dormitório próximo da costa, onde moram montes de skaters, escritores, dançarinos e artistas underground. Todo esse ambiente inspira o rap deles e é constatável o orgulho que têm na sua cidade, por isso é natural que a representem constantemente nos discos. Os nossos rappers e o

beatmaker

 Nagmatic têm provado que o

boombap

 existe na costa este do Japão”.

Representar a cidade com orgulho e aparecer nos vídeos a segurar no saco é fácil, mas nem sempre toda essa atitude se reflecte em música merecedora de escutas repetidas. Felizmente não é de todo esse o caso da DLIP Records, que, ao lançar os dois álbuns dos Dinary Delta Force — Soundtrack to the Bed Town e The 9 —, praticamente assegura o respect de alguém que aprecie verdadeiro hip-hop. Ambos os discos são dotados de uma consistência típica da golden age (percebe-se que esta rapaziada ouviu muito do melhor boombap), além de que os 4 MCs (

Rhyme Boya, Dusty Husky, Cally Walter e Matsuri SP

) que formam os DDF nunca se atropelam nos estilos e oferecem diferentes características ao show lírico. Com uma força e uma regularidade praticamente equivalentes, os Blahrmy são apenas dois (

Sheef the 3rd e Miles Word), mas em nada mais fracos que os seus comparsas (o mais recente EP DMV2 — Tools of the Trade aí está para prová-lo). De novo chamado à fala, DJ Farmy encontra as melhores comparações para descrever os nomes em causa: “Os Dinary Delta Force serão os Black Moon japoneses, enquanto os Blahrmy ficam mais próximos de corresponderem aos nossos Smif-N-Wessun”. Sabes tanto, meu boy.

As comparações ganham balanço na conversa e a partir daqui não é despropositado referir que os beats jazzy, embora incisivos e duros, de Nagmatic provêm de uma escola que só lhe pode ter sido ensinada por Pete Rock, DJ Premier e porque não Lord Finesse. DJ Farmy the Diesel desfaz-se em elogios ao seu congénere: “O Nagmatic tem produzido a maioria das malhas da DLIP Records – é claramente ele a força da natureza que alimenta a label. O seu álbum de estreia, 1on1 – Dlippin’ Da Knockout Stage, inclui um monte de convidados internacionais, entre os quais estão

Smoothe Da Hustler, Blaq Poet, Big Shug, O.C, Edo.g e Torae. A sua vontade era trabalhar com todas estas lendas do hip-hop, também de modo a levar o seu nome um pouco por todo o mundo. Adoro todas as faixas deste álbum, mas acho que Soundtrack to the Bed Town, o disco dos DDF que produziu por inteiro, foi um verdadeiro abanão no hip-hop japonês”.

No final, ainda lhe enviei o link de “Drunfos”, do Halloween, para tentar saber a sua opinião, mas fiquei sem resposta. Não era assim tão necessária, na verdade, porque o intercâmbio já estava consumado a partir do momento em que este precioso pedaço do hip-hop japonês aqui surge para ser usufruído.