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Como é que os nazis aniquilaram o império dos preservativos de um empresário judeu?

Fromm era conhecido por garantir produtos de grande qualidade, até que um dia foi obrigado a mudar-se para Londres com a família.
13 February 2016, 12:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Provavelmente nunca ouviste falar de Julius Froom, mas, se alguma vez procuraste desesperadamente por uma máquina de preservativos, meteste um ao bolso e te lançaste numa noite de sexo medíocre e inebriado - mas protegido -, tens de lhe agradecer. Fromm, basicamente, inventou a máquina que vende preservativos. Era um emigrante polaco judeu, que se mudou para a Alemanha ainda criança, antes de ser extremamente bem sucedido com a sua marca de preservativos - a Fromms Act - em 1922, abrindo algumas fábricas e capitalizando sobre o mercado dos contraceptivos para combater o surto de DST do pós-guerra.

E depois chegou Hitler. Uns anos mais tarde Fromm tinha uma suástica pendurada numa das suas cantinas — cortesia de dois trabalhadores mais velhos que também eram membros do Partido Nacional Socialista — e, por volta de 1937, a família de Fromm e a sua marca de preservativos já eram alvo de difamação por parte de um jornal anti-semita.

Aos 55 anos, em 1938, Fromm mudou-se para Londres. Por essa altura já era bastante evidente que os judeus estavam a ser sistematicamente expulsos e assassinados. Embora sempre tenha tido a esperança de poder regressar e reabrir as suas fábricas, haveria de morrer em Inglaterra, três dias depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Os alemães fizeram-no vender o seu negócio a uma mulher bastante próxima do partido nazi. Falámos com o historiador e jornalista Michael Sontheimer, co-autor de Fromms: How Julius Fromm's Condom Empire Fell to the Nazis, sobre a vida de Fromm, o seu legado e como fazer uma fortuna a vender preservativos nos anos 20.

Fotografia via.

VICE: Julius Fromm não é muito conhecido, embora tenha tido um papel essencial na história dos preservativos. Como é que chegaste até ele?
Michael Sontheimer: Cresci na zona ocidental de Berlim e, nessa altura, para nós todos os preservativos se chamavam Fromms, sem que soubéssemos muito bem porquê. Muito tempo depois descobri que existia a família Fromm e que dela provinha o empresário e químico Julius Fromm. Quando soube que tinha um filho, Eddie Fromm, que vivia em Londres, fui à procura dele e pedi-lhe que me contasse a história da sua família.

E que história era essa?
Era a de uma família judia muito pobre que se mudou da Polónia — que na altura pertencia à Rússia — para Berlim e ali começou uma nova vida. Julius Fromm era um jovem judeu que trabalhava arduamente e queria fazer qualquer coisa da vida, para poder abandonar o trabalho mal pago. Em Berlim, vivo a duas ruas do local onde Fromm começou a produzir preservativos, um pátio nas traseiras da sua casa. Teve a habilidade de encontrar um produto que, no futuro, se tornaria muito importante e procurado.

Qual foi a coisa mais interessante que descobriste sobre Fromm?
Era um empresário bastante genial. Começou do nada, ganhava dinheiro a enrolar cigarros. Depois começou a ir a aulas de Química durante a noite e teve esta ideia brilhante, de que a contracepção seria cada vez mais importante. Ele é um bom exemplo destes judeus empreendedores que contribuiram para a economia alemã, antes de que o Governo psicótico decidisse livrar-se deles.

Como é que passas de enrolar cigarros a ter aulas de Química?
No início Fromm não produzia apenas preservativos — também fazia luvas e chupetas. Nem o seu filho, Eddie, sabe porque é que escolheu Química.

Os alemães interessaram-se pelo seu êxito desde o princípio?
Nos anos 20 existiam muitos empresários judeus bem sucedidos e que ele fosse judeu não era realmente o problema. Não era uma questão de anti-semitismo antes de os nazis tomarem o poder. Quando ocuparam o país, Fromm trabalhou inclusivamente com alguns alemães arianos, a quem vendeu parte da empresa. Mais tarde foi forçado a vender a Fromms Act a uma mulher muito próxima a Hermann Goering, um líder do partido nazi.

E o que é Julius ganhava com isto?
A família Fromm teve de escapar para Londres e Julius ganhou algum dinheiro com a empresa e foi compensado — muitos outros judeus não o foram. Conseguiu chegar a Londres e ele e os seus três filhos sobreviveram ao holocausto.

Sabia que alguma coisa se passava e decidiu ir embora?
Toda a gente sabia que algo estava prestes a acontecer. Felizmente sobreviveu ao Holocausto, mas, depois da guerra, os comunistas — os russos e os alemães de Leste — expropriaram a família de Fromm outra vez, porque alegavam: "Fromm era um capitalista malvado, por isso a família não deve recuperar a empresa". Primeiro os nazis e depois os comunistas, impediram que Fromm conseguisse voltar a ter a sua empresa. Os três filhos acabaram por recomeçar a fabricar os preservativos Fromm, mas as três fábricas que deixaram na Alemanha desapareceram.

Isso é ridículo. Toda esta história parece saída de um filme.
Alguns produtores de cinema estiveram interessados no tema, mas não funcionou porque não havia uma história de amor central. E, claro, os preservativos não são um produto fácil com o qual possas fazer um filme. As pessoas têm vergonha.

É verdade que Julius inventou a máquina de preservativos?
Sim, ele estava muito envolvido em tudo o que eram relações públicas e publicidade e percebeu rapidamente que ter um bom produto não era suficiente. Também tinha que torná-lo interessante.

Onde estavam as máquinas?
Onde estão hoje, nas casas-de-banho, num lugar meio escondido e resguardado.

Li que a fórmula para produzir preservativos não se alterou muito desde que Fromm inventou a técnica de mergulhar moldes de vidro numa solução para criar uma forma sem costuras. Até que ponto evoluíram os métodos desde então?
Nos anos 20, quando Julius Fromm fazia preservativos, uma grande parte do trabalho era feito pela mão de obra humana, mas, hoje em dia, é tudo automático. O princípio básico - de um molde de vidro em forma de pénis mergulhado numa emulsão de látex - é o mesmo. Fizeram-se inúmeros testes nas fábricas de Fromm para garantir que os seus preservativos eram 100 por cento efectivos e sem furos. Os trabalhadores enchiam-nos como um balão, se não rebentassem eram seguros. Hoje em dia este processo faz-se através de uma máquina. É bastante impressionante ver como crescem antes de rebentar.

É um tipo de teste inventado por Fromm?
Sim, era conhecido por garantir produtos de grande qualidade.

O teu livro também fala da relação que a família de Fromm tinha com celebridades. Podes explicar um pouco melhor?
O filho mais velho de Julius, Max, era um actor que fugiu da Alemanha em 1933, depois de estar no teatro de Berlim. Acabou em França, onde entrou em filmes de Hollywood, com Burt Lancaster, nos anos 60. Como era loiro, muitas vezes interpretava nazis. De certa forma, o que aconteceu com alguns refugiados alemães que acabaram em Hollywood é trágico. Muitos tiveram de interpretar personagens nazis.

Como é que Fromm publicitava os seus produtos?
Abertamente. Na década de 20 havia um debate aberto na República de Weimar sobre se a publicidade de preservativos deveria ser autorizada e estes anúncios foram banidos. Mas Fromm deu a volta à situação com alguns truques, por exemplo, colocando anúncios em várias lojas onde se podia ler: "Aqui podes encontrar as famosas esponjas de borracha Fromm". Mas, claro que toda a gente sabia que eles não vendiam esponjas. Se visses um desses anúncios podias entrar e perguntar pelos preservativos.

Achas que ele lutou para recuperar a sua empresa?
Sim. Vivia em Londres e não tinha nada para fazer. Estava sempre à espera que a guerra terminasse para poder voltar para a Alemanha e recuperar a empresa e as suas fábricas. Uns dias depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em Maio de 1945, Fromm faleceu. Levantou-se de manhã, quis abrir as cortinas e caiu, foi isto. Ansiava recuperar o seu negócio.


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