Todas as fotos por Elias Mast.
“Esse lugar é a Chiraq brasileira”, me disse Paulo Santos, o Santuspê, do duo de rapper carioca Peso Lunar, sobre Costa Barros. O bairro periférico do Rio de Janeiro, onde ele e o seu parceiro Willamy Rocha (W.R.) moram, foi palco de uma chacina em novembro do ano passado: na noite do dia 29, cinco jovens negros da comunidade voltavam do Parque do Madureira, onde tinham ido comemorar o primeiro salário de um dos meninos, quando o carro deles foi alvejado por 111 tiros, disparados de uma viatura da Polícia Militar carioca.
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Nenhum deles sobreviveu, mas as marcas desta noite vivem na comunidade até hoje. “Como somos do hip-hop, achamos que tínhamos uma dívida com a nossa favela. Por isso, resolvemos fazer a música”, contou Paulo. “Foram dias pesados em Costa Barros. O medo imperava. Passamos a semana com a presença de policiais aqui, com medo de algum tipo de protesto mais pesado. As coisas continuam as mesmas.Violência policial sempre presente”.
Santuspê me contou que W.R. estava muito perto do local da chacina e foi um dos primeiros a denunciá-la nas redes sociais. “Ele conhecia o Roberto (um dos meninos assassinados). Na música, o Willamy conta passo a passo o que ele presenciou. Foi uma letra muito pessoal. Não dava para mais ninguém ter escrito”, explicou Paulo. Eles chamaram também o Slow, MC dos anos 90 que fez parte do lendário grupo de rap carioca Esquadrão Zona Norte, pra fazer uma participação na faixa. “Ele é nosso professor de rap e tinha feito um poema sobre o ocorrido. Por isso, resolvemos convidá-lo e o poema acabou se tornando a parte dele na música”.
Ouça “Chacina” e leia a entrevista que fiz com o Paulo, na qual ele conta, com detalhes, a versão dele e do W.R. sobre a noite da morte dos cinco meninos e como isso afetou o Complexo da Pedreira (agregado de favelas de Costa Barros).
NOISEY: Quem faz parte do Peso Lunar?
Paulo Santos (Santuspê): O Peso Lunar é um grupo de rap que nasceu na zona norte do Rio de Janeiro, no bairro da Pavuna, em 2013, e que conta com dois MC’s: o Santuspê (Paulo Santos) e o W.R. (Willamy Rocha). No início, éramos em quatro. Fomos três por um bom tempo (a formação da primeira mixtape contava com o MC Marquês). Hoje, somos só nós dois (isso no palco, porque por trás a gente tem mais uns sete amigos trabalhando e nos ajudando).
Quantos anos vocês têm?
Eu tenho 21 e o W.R., 24.
Vocês dois são de Costa Barros?
Sim. Eu, da Comunidade do Quitanda e o W. R., da do Lagartixa (ambas do Complexo da Pedreira).
E vocês resolveram fazer a música sobre a chacina por serem do mesmo bairro que os cinco meninos?
É que assim: sou morador do bairro desde os 9 anos de idade. O W.R. é nascido e criado aqui. Todo ano, acontecem pelo menos umas quatro ou cinco mortes por bala ”perdida” aqui. Teve o menino Wesley, que levou um tiro dentro da escola. A menina Bruna Ribeiro, de 11 anos. O carroceiro Seu Joca. Uma senhora que eu não conhecia, mas que levou um tiro quando levava seu neto para a creche. O menino Luis Felipe, de 3 anos, que era meu vizinho. A menina Tauanny, que levou um tiro nas costas, mas, graças a Deus, está viva. Enfim, essa história só se repete.
Ano passado, dois rapazes que trabalhavam no moto táxi da área estavam em cima de uma moto com um macaco hidráulico na mão e tomaram bala. Dois trabalhadores.Veio um sentimento de revolta e medo, porque tenho um filho e tô vendo crianças sendo baleadas. O sentimento foi o de: o que fazer para mudar ? Não sabemos se vamos conseguir mudar, mas seria triste ser do hip-hop e nem ao menos tentar a mudança. Como quisemos abordar a violência do bairro num geral, abordamos esses outros casos também. O do moto-táxi, por exemplo, citamos no verso : ”Já confundiu, macaco hidráulico, fuzil, dois caiu… Costa Barros tá brabo, o sorriso sumiu”.
Vocês conheciam os meninos?
Eu os conhecia de vista. Vi todos quando eram apenas crianças. O Willamy conhecia o Roberto. O W.R. tava bem próximo da cena do crime no dia e foi o primeiro a denunciar nas redes sociais, gravando tudo. O Facebook dele teve uma repercussão monstruosa.
Sério?
Sim, nós dois estávamos perto da cena, na verdade, mas estávamos separados no dia. Era sábado à noite, eu estava numa van indo encontrar a minha namorada. Peguei a van e, na altura da passarela onde ocorreu o caso, vi um movimento estranho. Tinha muita gente na rua, muita polícia. Os policiais fecharam a pista e mandaram os carros voltarem. O motorista da van conseguiu conversar com um deles e passou. Eu vi o carro todo furado, uns 50 PMs em volta. Um desespero total, gente gritando e chorando… De cara, achei que
tinha sido algum confronto com os caras do Chapadão (favela vizinha de facção rival).
Eu estava sem internet, mas fiquei com aquilo na cabeça. (Na verdade, não consegui dormir. Foi bem pesado ver os rostos desfigurados, só que não reconheci ninguém. No dia seguinte, quando cheguei em casa, meu celular não parava de vibrar. Tinham umas 200 mensagens no Whastapp. Todo mundo chorando, todos falando no caso. O Willamy me mandou um áudio chorando, me contando quem eram os rapazes. Quando vi que todos eram conhecidos e trabalhadores, o chão caiu. Foi muito pesado. A favela estava em um clima tenso. Os policiais com medo de protesto. Luzes apagadas, nada música alta, como de costume.
Vocês foram ao protesto no Parque do Madureira?
Não, por motivo de trabalho mesmo. Mas acompanhamos a reunião que os parentes fizeram com as autoridades e advogados no prédio do Rongo (uma ONG aqui da Pavuna). Cheguei a ver o protesto sendo idealizado, mas não pude ir.

Entendi. Vocês foram ao enterro?
Não. O lance da comunidade era preservar a família dos jovens, mas a mídia não deixou que isso acontecesse. Isso aqui parecia um reality show.
E como estão as coisas depois da chacina?
É que foram dias pesados em Costa Barros. O medo imperava. Passamos a semana com a presença de policiais aqui, com medo de algum tipo de protesto mais pesado.
As coisas continuam as mesmas. As famílias sem amparo nenhum do governo, contando somente com a ajuda da associação de moradores. Violência policial sempre presente. Nessa segunda mesmo estávamos gravando um clipe e, no fim das gravações, rolou aquele tiroteio costumeiro.
Nossa, que tenso. E depois da morte deles, houve outras mortes?
Tiveram mais inocentes mortos esse ano, mas foram casos de traficantes rivais dando ataque. De qualquer forma, não me importa de onde vem a bala. Queremos é que os pretos parem de morrer! Nós trabalhamos e pagamos impostos como todo mundo. Somos pessoas normais que sobrevivem mesmo em meio toda essa dificuldade. Eu olho para as minhas fotos de infância e só eu e meu irmão estamos vivos ainda. Esse lugar é a Chicago do Brasil.
E sobre a música, como vocês fizeram?
Eu fiz uns versos e mandei pro W.R. Ele logo me respondeu com os versos dele. O MC Slow tinha postado uma poesia dele sobre a tragédia, que viria a ser a parte dele na música. Por isso, nós o convidamos. Tivemos uma longa conversa no estúdio. O Kmkz nos ajudou com o beat. Procuramos apoio para gravar essa música, pois queríamos fazer algo com qualidade, e isso custa caro. Procuramos artistas famosos que levantam a bandeira negra: tudo visualizado, nada respondido. Então, fizemos a faixa fiado mesmo, pagando em duas vezes.
O som tem a ideia de ser um rap jornalístico e informativo, que narrasse a história pelos olhos de quem estava presente. O W.R. conta passo a passo o que ele presenciou. Foi uma letra muito pessoal. Não dava para mais ninguém ter escrito. O poema do Slow foi um grito versado, regado de emoção e que fez perfeitamente a ponte até a minha parte, a conclusão da história.
A minha parte foi bem ruim de gravar. Não gravei no mesmo dia da galera. Inventei que tava com dor de garganta, mas na verdade eu não conseguia. Voltamos depois ao estúdio, eu e o W.R., e começamos a por todos os demônios pra fora. Meu olho estava marejado durante as gravações. Já tinhamos falado de violência antes, mas jamais de uma forma tão próxima. Nós devíamos isso para a nossa favela e eles abraçaram a música.
Todos os áudios de Whatsapp usados na música são reais. Recebemos de amigos e fomos repassando. Não me sinto tão bem quando a canto, para falar a verdade. Adaptando uma frase do Kamau: ”Preferia não ter que escrever uma dessa, nosso mundo ainda gira, mas faltando cinco peças’. Um detalhe: a impressão digital usada na arte de capa, feita pelo Lincoln Lopes, pertencia ao Cleiton Correa.
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